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Terça, 22 de dezembro de 2009, 15h43 Atualizada às 15h53

Poupado da recessão, futebol vê capital e esperanças em alta

Rob Hughes

O futebol parece ter desafiado a gravidade das finanças, em 2009. Enquanto boa parte do mundo caía em recessão, a Fifa, organização que comanda o esporte em todo o mundo, anunciou que cada um dos 32 países que se classificaram para a Copa de 2010 receberia recompensa financeira 60% mais alta do o maior prêmio pago no passado.

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Trabalhando em linhas semelhantes, o Real Madrid pagou ao Manchester United cerca de US$ 132 milhões pelo passe de Cristiano Ronaldo; isso se refere apenas ao valor da transferência; o salário do atleta custa ao clube mais US$ 15 milhões ao ano. Mas o Real Madrid calcula que o negócio seja viável e, como todos os demais times que disputam a Champions League, pode começar a reduzir suas dívidas com as cotas de participação garantidas, que este ano serão 33% mais altas que na temporada passada.

Isso acontece porque os contratos de transmissão e patrocínio do futebol estão vinculados a uma era de maior prosperidade, anterior ao colapso financeiro mundial.

É presumível que a recessão venha a atingir o esporte no futuro. O futebol sobrevive bem, por enquanto, e, se existem falências ocultas no sistema, nenhuma delas foi declarada em 2009.

Mas se Cristiano Ronaldo vale tanto, que preço poderia ser pago por Lionel Mossi? Este foi o ano dele, o ano do Barcelona e o ano da Espanha.

Messi, o baixinho argentino, eclipsou Cristiano Ronaldo nos prêmios como jogador do ano em 2009. A essência de Messi é jogar para o time, e seu time, o Barcelona, conquistou todos os troféus que poderia ao longo da temporada, incluindo o mundial interclubes da Fifa, em Abu Dhabi, no sábado, quando Messi marcou na prorrogação para derrotar o Estudiantes de la Plata, da Argentina, por dois a um. Não só isso mas o Barcelona devolveu a beleza ao futebol.

Com Messi aproveitando as laterais e Xavi distribuindo passes com o instinto de um pombo-correio, com Andres Iniesta e Thierry Henry, e agora com Zlatan Ibrahimovic como substituto de Samuel Eto'o no comando do ataque, o estilo do time é altamente agradável aos olhos dos torcedores, mas sem perder nenhuma competitividade.

O Real Madrid conta com o apoio de instituições espanholas dispostas a ajudá-lo a pagar mais do que poderia para garantir que o Barcelona não continue papando todos os títulos. A solução do Real Madrid foi adquirir não apenas Ronaldo mas também Kaká, Karim Benzema, Xabi Alonso e outros reforços, antes da atual temporada.

O que os madrilenhos não podem comprar são as raízes da beleza do futebol do Barcelona, seu estilo renomado, nascido em La Masia, a escola construída em uma fazenda do século 18 ao lado do seu estádio, o Camp Nou.

"O jogador que passou por La Masia tem algo de diferente dos demais", diz o técnico Josep Guardiola. "É uma qualidade nascida de ter jogado com a camisa do Barcelona desde criança".

Guardiola sabe, porque passou pela escola e pelo primeiro time de Barcelona, por uma década, antes de se tornar técnico. Um de seus jogadores, o meticuloso Xavi, acaba de disputar sua 500ª partida pela equipe principal do Barcelona.

Xavi nasceu e se criou na Catalunha, e joga no Barcelona desde a infância. Mas ainda que Messi tenha nascido no exterior, Txiri Begiristain, o diretor técnico da equipe insiste que "Messi pode ser da Argentina, mas se formou em nossa casa". O argentino joga pelo Barcelona desde os 13 anos.

Isso complica a situação de 20009. Messi marcou o gol da vitória, na prorrogação de domingo em Abu Dhabi. Ele é sempre o maior dos astros no Barcelona, mas não se sai muito bem jogando em casa. Parecia um menino realizando sua maior fantasia na final da Champions League em Roma, mas sua confiança desaparece sempre que veste a camisa azul e branca da Argentina.

O motivo deve ser Diego Maradona. No passado o maior astro da Argentina, e por algum tempo do Barcelona, Maradona quase enlouqueceu a seleção de seu país em seu primeiro ano como técnico. Um treinador novato, inconsistente e pouco disposto ouvir conselhos, ele jamais escalou a mesma formação duas vezes e chegou muito perto de fracassar nas eliminatórias para a Copa do Mundo.

Cesar Menotti, o técnico campeão do mundo com a Argentina em 1978, definiu a questão em duas sentenças: "a Argentina não tem um time estruturado. Messi não é o responsável pela estratégia, no Barcelona; ele só precisa concluir as jogadas".

Astro, sim, mas astro de uma equipe fantasticamente integrada.

A melhor seleção europeia, a da Espanha, também é uma integração, entre Barcelona, Real Madrid, Valencia e Sevilla.

Outra interpretação de integração surgiu de forma importante durante o ano. Nós o vimos na seleção alemã que venceu o campeonato europeu sub-21 na Suécia e nos jovens suíços que derrotaram a Nigéria para conquistar o título mundial Sub-17.

Mais de metade da seleção alemã e mais de metade dos talentos emergentes suíços nasceram no exterior ou são filhos de imigrantes. Essa formação cosmopolita, ainda incomum mas perfeitamente legítima, mede a mudança nos padrões de movimento populacional tal como refletidos no esporte.

O conflito nos Bálcãs, a dissolução da União Soviética, a migração de africanos e o fato de que alguns jogadores de futebol se assentam nos países aos quais seu talento os conduz estão mudando o pool genético do esporte internacional, e não apenas do futebol.

Os sucessos juvenis atuais podem definir o padrão do amanhã. E caso o futebol mantenha seu aspecto mundial ¿especialmente se a Fifa permitir que jogadores com dupla nacionalidade escolham que país defenderão-, a tendência vista na Suíça e Alemanha pode se tornar modelo.

Mas o futebol luta para fechar suas portas a outra tendência internacional: a corrupção. Policiais da Europa Central estão começando a deslindar casos de manipulação de resultados de jogos, alguns dos quais iniciados da Ásia. A Fifa encerrou 2009 apelando à Interpol que tente localizar a quadrilha de líderes suspeitos de manipular as margens de vitória em sistemas online de apostas.

O ano está acabando com suspeitas e detenções, mas sem julgamentos até o momento.

Enquanto isso, temos uma Copa do Mundo a caminho. O torneio aparentemente será caracterizado por mãos sujas e chuteiras limpas. O flagrante passe com a mãe de Henry, que ajudou a dar a França um lugar na Copa do Mundo da África do Sul, contrasta com a deliciosa história da Eslovênia.

Borut Pahor, o primeiro-ministro esloveno, prometeu que ele limparia pessoalmente as chuteiras dos jogadores caso a Eslovênia, com seus dois milhões de habitantes, derrotasse a Rússia, com 142 milhões, na repescagem das eliminatórias. O time venceu, em novembro, e o primeiro-ministro cumpriu a promessa.

"Rumo à África", afirmou o diário esloveno "Dnevnik", "e de chuteiras limpas".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

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