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Paixão pelo futebol faz Zico se aventurar pelo mundo

12 abr 2009 - 09h24
(atualizado em 13/4/2009 às 18h17)
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Por tudo o que fez como jogador de futebol, Zico dificilmente precisaria seguir em atividade. Ainda assim, ele já foi Ministro, fundou um clube, trabalhou como embaixador e, por fim, virou técnico. Para ele, que assumiu o CSKA Moscou, da Rússia, no início de 2009, só há uma explicação para isso: paixão.

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Em entrevista exclusiva ao Terra, Zico explica o que lhe fez deixar o Fenerbahce, em que teve a maior campanha da história do clube na Copa dos Campeões da última temporada, atingindo as quartas-de-final. Fala também sobre Dunga e é taxativo: não volta para a Seleção com o comando de Ricardo Teixeira na CBF.

Nas linhas abaixo, Zico ainda fala sobre a crise de salários atrasados no Flamengo, sobre a absorção de diferentes formas de cultura, generalidades e também conta qual é, para ele, o único gênio em atividade no futebol.

Confira a entrevista com Zico:

Terra - Você ficou frustrado em não permanecer no Fenerbahce?
Zico - Esperava continuar, mas não quis ficar em razão de outras coisas. Eles não queriam mais que o Edu e o Moraci Sant'anna ficassem e eu não trabalho sozinho. Então preferi seguir meu caminho, são coisas que acontecem no futebol.

Claro que gostaria de continuar, porque o trabalho estava bem encaminhado, pronto. Infelizmente aconteceu, agora deixa para lá. Estou no CSKA, que é um clube que realmente tem boas condições, que vai participar da Copa dos Campeões e tem o objetivo de passar de fase. Nunca aconteceu aqui, então vamos trabalhar para isso.

Terra - Qual foi sua maior vitória por lá?
Zico - É aquela coisa de você lidar com várias nacionalidades, pessoas de caráter diferente, culturas diferentes, e colocá-las dentro de um único pensamento. O fato de você poder trabalhar com jogadores de muita qualidade e poder passar as coisas que vivi no futebol.

O desafio é fazer com que eles me vissem como técnico, e não como um grande ex-jogador. Hoje já não ficam, mas ficavam naquela dúvida, se eu era bom mesmo.

O Fenerbahce, que teve grande repercussão, ajudou bastante. A maior experiência é mesmo trabalhar com diversas culturas, no mesmo local, diversos pensamentos. E conseguir organizar tudo.

Terra - O Alex é o jogador que mais te impressionou tecnicamente, dos que você já trabalhou?
Zico - Não impressionou, porque eu já o admirava. Ele apenas confirmou. É um cara que trabalha bem e tem uma visão de jogo fora do comum. É diferenciado, como o Roberto Carlos, que impressiona na qualidade técnica e é também um grande profissional. Não foi à toa que atingiu o que atingiu.

Tem outros que você se impressiona pela vontade, pela dedicação, por darem a vida em campo. Você tem que juntar esses com os habilidosos e o time é formado com diversas formas de jogadores. É como um Lugano, que veste a camisa, tem garra e nunca vê tempo ruim. O grande time não é feito só de jogadores técnicos.

Terra - Trabalhar no Uzbequistão foi um retrocesso na sua carreira?
Zico - Não, de maneira nenhuma. É um trabalho como outro qualquer e uma oportunidade de você estar em dia com o futebol. Não existe retrocesso e, se fosse assim, ninguém trabalharia em lugar nenhum. Eu estava começando, sabia que não teria oportunidade naquele período. Não conseguiria trabalhar porque a Europa estava fechada e você não pode depender de algum treinador ser demitido.

Terra - Vamos falar um pouco do Flamengo. Como tem visto o fato de o clube mais uma vez atrasar salários?
Zico - São problemas administrativos que precisam ser resolvidos, mas não estou todos os dias lá para saber o que acontece. Só vejo por notícias e pelas declarações que os profissionais dão.

Realmente, é algo constante e que acaba refletindo dentro de campo. Infelizmente, você vê acontecer algumas coisas pela mídia que precisam de soluções.

Terra - A torcida vive pedindo por você e pelo Leonardo. Como você lida com isso?
Zico - É fruto do que a gente fez. Ganhamos essa credibilidade. Mas, nesse momento, temos que ver de outra forma. Cada um é um profissional e agora temos nossos objetivos. Mas ajudamos de outra forma. Acontece que hoje não posso ficar pensando nisso.

Terra - Tudo o que tem acontecido com o Roberto Dinamite no Vasco, em que foi até hostilizado, é exemplo para você não voltar ao Flamengo?
Zico - Isso com o Roberto não muda em nada o meu pensamento. O que tiver que acontecer, vai acontecer. Você precisa estar preparado e o clube vive de resultados. Se não acontece, dá nisso. O problema do Roberto foi chegar naquela situação e, como o time caiu, isso fica na conta dele também.

Aos poucos, ele vai se interando, resolvendo os problemas, e tenho certeza que vai dar a volta por cima e colocar o Vasco no lugar que merece.

Terra - Você acha que o Dunga supera essa pressão toda e se mantém na Seleção até a Copa do Mundo?
Zico - Só ele mesmo para dizer se vai suportar ou não. A gente, que está de fora, torce e apóia. Acho que ele deu chances para quase todos e ninguém pode reclamar disso. Hoje ele já tem uma base, um time na cabeça, e precisamos ver que ele disputou uma competição e ganhou.

Desde que foi instituído esse tipo de Eliminatórias, o Brasil sempre sofreu. No meio da temporada, os jogadores já não chegam na melhor condição, você não pode contar com esse e aquele. É difícil treinar. Então nem o favoritismo existe mais e o que a gente vê é um perde e ganha danado. Brasil, Argentina e Uruguai têm sofrido demais por ter muitos jogadores atuando fora.

Terra - A sua geração é a última que encantou com a camisa da Seleção. Por quê?
Zico - Acho que a de 2002 também encantou. Teve um momento excelente na Copa do Mundo e tinha jogadores de muita qualidade. Deslanchou na reta importante da Copa.

Terra - Você continua sem pretender retornar ao Brasil? Isso é fruto das condições de trabalho que dão aí na Europa?
Zico - No momento, sigo querendo ficar na Europa. Pelas condições mesmo. Embora também aconteça, a possibilidade de você ser demitido é menor e você tem tempo de ficar pelo menos um ano no cargo.

Terra - Dirigir a Seleção na Copa de 2014 é algo que você pensa?
Zico - Hoje, não tem a menor possibilidade de diálogo com o pessoal que está no comando da CBF. Com eles lá, essa possibilidade é zero.

Terra - Depois que você virou treinador, sua forma de enxergar o jogo mudou?
Zico - Não, mas existe uma preocupação maior do que quando eu jogava. Hoje, preciso me preocupar com as coisas me cabem e, na época, era só com minha condição física. Sobre o futebol em si, o que penso, não mudou de maneira alguma em relação à época em que eu jogava.

Terra - Se pudesse levar um só jogador ao CSKA, qualquer um: quem você mandaria buscar?
Zico - Seria o Messi. Na minha opinião, é o único gênio jogando futebol hoje.

Terra - E quais foram os times que te marcaram, os que você gostava de ver jogar?
Zico - É difícil, tem vários...a Seleção de 70, a Holanda de 74. Tem também o Palmeiras do Vanderlei (Luxemburgo), que deva muitas goleadas. O meu Flamengo de 81, em que a gente tinha prazer de jogar e assistir.

Terra - O futebol ficou mais violento em relação à época em que você jogava?
Zico - Houve uma evolução na parte física e os choques aumentaram. Não acredito que ficou mais violento, mas o cara que parte para essa conduta independe da época. O que acontece hoje é que há lances de mais choque, há menos espaço, então às vezes há jogadas em que o cara vai na bola e não consegue chegar. Então dá a impressão de violência, mas violência é diferente de marcação.

Terra - E fora de campo?
Zico - Aí sim. Desde que começou essa indústria de organizadas, os problemas aumentaram, a pressão aumentou. As pessoas começaram a atacar os profissionais em seus ambientes de trabalho e isso a gente não pode aceitar. O jogador não vai em banco, farmácia, para agredir alguém. Mas os torcedores dependem do resultado para viver.

Terra - O que você tirou de cada cultura em que conviveu?
Zico - Isso só soma em tudo na vida da gente. Cada vez mais você pode observar como as pessoas vivem, do lado bom e do ruim, então os que sabem absorver bem, se enriquecem. Estou realmente feliz e agradecido a Deus por poder conhecer países totalmente diferentes, como Itália, Japão, Turquia e o Uzbequistão, que está um pouco aqui com a Rússia. Então é clima, alimentação, religião, comportamento. Você aprende em tudo.

Terra - É a paixão que te mantém no futebol?
Zico - Claro. O que dia em que a paixão acabar, vou cuidar do meu neto. Só o futebol me faz ficar longe dele.

Fonte: Redação Terra
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