
A conquista da Eurocopa pela segunda vez consecutiva, no último domingo, deu novo ânimo ao orgulho espanhol, gravemente ferido pela crise que assola a Europa, e mais especificamente, a zona do euro.
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Com a goleada por 4 a 0 sobre a Itália, a Espanha parece ter esquecido, pelo menos por ora, o índice de desemprego alarmante, o maior da União Europeia, e outros efeitos devastadores da turbulência dos mercados.
Em maio passado, os bancos do país receberam um socorro da ordem de 100 bilhões de euros (R$ 250 bilhões) emprestados pela União Europeia para reerguer o sistema financeiro espanhol.
Na noite do último domingo, como nesta segunda-feira, e talvez até mesmo durante toda esta semana, as discussões sobre os rumos da economia do país serão jogadas para escanteio. Entram em campo, a partir de agora, os elogios ao desempenho da "La Roja", como é chamada a seleção de futebol espanhola pelos próprios torcedores.
A enfermeira Cristina Martinez, de 37 anos, é uma das que exaltam o futebol de seu país. Ela assistiu à final da Eurocopa nos telões montados do lado de fora do estádio do Real Madrid, o Santiago Bernabéu, junto de milhares de compatriotas. Mas Martinez tinha mais razões para comemorar. Pouco antes do início da partida, ela havia terminado o primeiro dia de trabalho depois de 11 meses desempregada.
A Espanha ocupa o primeiro lugar na União Europeia entre os países com maior taxa de desemprego (24.6%), segundo dados da agência de estatística Eurostat, equivalente a mais de 5,5 milhões de pessoas.
"Por enquanto, nós esqueceremos tudo de ruim que está acontecendo. Mesmo que seja por apenas um dia", disse ela.
Invencibilidade
A reação da população e da imprensa espanholas reflete o clima que contagiou o país após a histórica goleada.
"A Espanha muda o futebol", disse a manchete do espanhol El Mundo nesta segunda-feira. "Espanha invencível", afirmou o jornal ABC. O diário esportivo Marca foi além, com a manchete "A Espanha e ninguém mais", referindo-se ao fato de que nenhuma outra seleção ganhou por duas vezes consecutivas a Eurocopa junto com uma Copa do Mundo (2010).
A "fiesta" espanhola ganhou força quando o atacante Fernando Torres marcou o terceiro gol da Espanha. As principais avenidas da capital, Madri, foram invadidas por multidões vestidas de vermelho e amarelo, as cores da bandeira espanhola.
O público não só bloqueou o tráfego de veículos, como promoveu um buzinaço que durou horas. Uma mulher disse no último domingo ao correspondente da BBC na Espanha que "por causa da crise, isso (a vitória) tem um gosto especial".
Ela brincou dizendo acreditar que mais pessoas celebrariam a conquista do campeonato durante esta segunda-feira por toda a Espanha, uma clara referência ao grande número de desempregados do país.
"Imensa", foi o adjetivo usado por um homem para descrever a goleada espanhola por 4 a 0 sobre a Itália. "Por uma noite, estamos felizes", disse ele.
O dia seguinte
As comemorações vararam a madrugada e, ainda pela manhã, ouvia-se o barulho das buzinas dos que continuavam festejando a vitória. Apesar do êxtase contagiante, a vida na Espanha continua difícil para muitos. A economia espanhola pode não ser invejada, mas seu futebol é.
Apesar de derrotada, a Itália foi um importante aliado da Espanha nas discussões realizadas na Cúpula Europeia na semana passada. O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, juntou forças com seu homólogo espanhol, Mariano Rajoy, e, juntos, ganharam importantes concessões, que podem atenuar a pressão sobre a dívida espanhola e os problemas decorrentes do fraco desempenho da economia do país.
Mas, na noite do último domingo, quem sagrou-se vitoriosa foi a quarta maior economia da Europa.

