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Prata em 2004, René "entrega causos" de Marta e critica preparação

4 jul 2011
16h49
atualizado às 17h02
Dassler Marques
Direto de Frankfurt (Alemanha)

René Simões foi o treinador da Seleção Brasileira feminina em 2004 e uma cena em especial marcou sua convivência com Marta, então uma promessa com pinta de craque, hoje a melhor jogadora do planeta. De sua varanda, na Vila Olímpica, ele avistou sua atleta na beira de um tanque lavando roupas. Dela e também de mais outras jogadoras. "Roupas íntimas", detalha René, um dos melhores contadores de histórias do nosso futebol. O episódio em especial é usado por ele para descrever a simplicidade de Marta. "Um operário padrão", resume ele, hoje o comandante do Bahia, nesta entrevista exclusiva ao Terra.

Prata naqueles Jogos Olímpicos, em Atenas, René teve uma passagem breve, mas criou raízes na Seleção feminina, que tenta seu primeiro grande título na Copa do Mundo feminina de futebol, na Alemanha. Ele classifica como muito bom o cotidiano com Marta, mas admite que foi necessário conversar firme: "quando me encontrei com ela pela primeira vez, fui duro", conta. De acordo com René, chegariam a dizer a ele que a jogadora era "insuportável", termo utilizado por ele próprio, que ajudou a camisa 10 a iniciar uma história de sucesso com a camisa do Brasil.

De tão ligado que ficou ao futebol feminino, René escreveu o livro O dia em que as mulheres viraram a cabeça dos homens, descrevendo ele próprio a experiência à frente da Seleção. Hoje, de longe, ele diz que se mantém atento ao que ocorre com a Seleção, e até critica a preparação para a Copa do Mundo deste ano.

Nesse período, o Brasil de Kleiton Lima só conseguiu enfrentar a fraca Argentina e um combinado pernambucano. "Não são testes", resume ele, 58 anos, e aparentemente chateado por não poder ajudar a atual comissão técnica brasileira. "Nunca fui procurado. Esse é um mal do Brasil", reclama.

Confira a entrevista completa com René Simões

Terra - O que você tem visto da Seleção Brasileira feminina? Ainda mantém contato com as jogadoras, acompanha as partidas?
René Simões - Tenho acompanhado, sim. Falo com elas no Facebook, por e-mail, e o momento é bom. Esse é um campeonato bem difícil e a Alemanha é o país do futebol feminino, já tirou esse título dos Estados Unidos. Basta só ver o número de espectadores na abertura contra o Canadá, que foi algo inédito. Eu fazia parte do comitê da Fifa até o ano passado e participei de várias reuniões do Mundial, vi as apresentações do comitê organizador e tudo o que estão fazendo é uma coisa absurda. Eu já sabia que seria assim.

Terra - E quais as possibilidades do Brasil em sua opinião?
René - Será bem difícil, porque a Alemanha apostou alto. Brasil tem jogadoras de qualidade, não sei o quanto a preparação dará lastro para comparar com a Alemanha. Devíamos ter feito dois jogos internacionais, mas como foi seria melhor ter feito o que eu fiz. Jogávamos com os times Sub-20 masculino dos clubes. As seleções femininas sul-americanas não são teste para o Brasil. Vamos ver o quanto isso vai afetá-las.

Terra - Como você definiria a experiência de trabalhar com a Marta?
René - Encontro a Marta às vezes, falo a miúdo no Rio de Janeiro. Vejo ela tranquila, madura, muito bem. Ela sempre foi uma operária e pelo que eu sei não mudou nada. Ela é um operário padrão. Me disseram uma vez que era intratável, insuportável, e quando me encontrei com ela fui duro. Um tempo depois, sentei com ela e falei: "quem você quer enganar? Você não é isso, você não é nada disso". Fiz o que faço com os homens. Quando sei de alguma coisa, falo olho no olho.

Terra - E como foi a reação dela?
René - Ela me disse: "professor, vim muito novinha para a Seleção (fala com a voz mansa). Me cobravam muito aqui, eu não podia fazer nada, pegavam muito no meu pé. Aí eu tive que reagir, professor. Eu era a mais nova e queriam mandar em mim, e eu apenas reagi". Foi assim.

Terra - Então é fácil trabalhar com a Marta?
René - Na Olimpíada (em 2004) pude comprovar isso. Estamos hospedados no mesmo prédio. Eu no segundo andar, e ela embaixo, na varanda. E um dia vi a Marta lavando muita roupa. Procurei a Marta e perguntei o que era aquilo. "Professor, são as roupas íntimas e a gente não pode pôr na lavanderia", ela me respondeu.

Ela estava lavando a roupa íntima de várias jogadoras. Essa já era a Marta, ela já era assim. Uma pessoa com esse tipo de espírito. Uma vez, fizemos quatro jogos na Suécia, e ela jogava por lá. O carro dela era o de todos, e usavam para ir para cima e para baixo.

Terra - Você já conversou com o Kleiton Lima? Como vê o trabalho dele?
René - Nunca conversamos nada sobre a Seleção, nunca fui procurado por ele. Aliás, esse é o grande mal do Brasil, porque os treinadores trocam poucas informações. Você passa por uma competição, mas leva todo esse conhecimento para você mesmo. Escrevi um livro, tentei deixar alguma coisa, mas somos uma nação sem memória. Só nos falamos uma vez no aeroporto, por acaso, e conversei com todas elas, não só com ele.

Terra - E você aceitaria colaborar atualmente?

Com a Seleção feminina, treinador conseguiu um segundo lugar em 2004
Com a Seleção feminina, treinador conseguiu um segundo lugar em 2004
Foto: Divulgação

René -

Não só com ele, mas com qualquer um em qualquer momento. Nossa obrigação é ajudar uns aos outros.

Terra - Trabalhar com o futebol feminino te mudou de alguma maneira?
René - Não mudou, porque nunca trato pessoas diferentes da mesma forma. O princípio é o mesmo, mas a estratégia é diferente. Com um você fala de um jeito, com outro fala de outro. A mulher é muito detalhista, quer saber os detalhes de tudo para cumprir uma missão. E tive que começar a ser mais detalhista, coisa que nós homens não somos.

Terra - Como foi a experiência de escrever um livro sobre a medalha de prata nos Jogos de 2004?
René - Sempre tive a vontade de escrever. Gosto muito, sou apaixonado por leitura. Sempre fico fascinado, me transporto da cadeira e viajo lendo um livro. Me faz sentir cheiro, me faz ver cores, me faz sentir tranquilidade, mexe com o meu humor, me deixa aborrecido ou satisfeito. O escritor que consegue isso é quase um cineasta, porque você vê um filme. É um abuso.

Terra - A Seleção tem vários vices em sequência. Acha que as jogadoras estão maduras para uma grande conquista?
René - Quando me encontrei com elas no aeroporto, esse foi o tema. Falei com elas e com o Kleiton. Em Atenas (2004), quando venceram a semifinal, houve uma comemoração muito grande no campo, extravasaram, gastaram uma energia mental muito grande. Do banco, a gente pedia calma, porque tinha a final. E embora a gente tenha sido "garfado" na final, faltou energia para elas.

Já na semifinal do Mundial (2007), ganharam dos Estados Unidos por 4 a 0 e era a espinha na nossa garganta. A comemoração foi uma coisa assim de outro mundo. Fizeram uma comemoração absurda e perderam para um time muito mais fraco da Alemanha. Foi o que falei para elas: botem na cabeça que a comemoração só será depois, no ponto maior do pódio. Depois, não antes. Não gaste energia e não perca o foco. Tomara que cheguem até a final e façam isso.

Terra - Como você vê a questão de jogar com três zagueiras? Apenas o Brasil usa esse sistema.
René - Eu é que coloquei, porque achei que equilibrou mais o time. Eu tinha a Rosana e a Baiana, duas meio-campistas, e queria dar muita liberdade para elas. Na verdade, não sei se antes jogavam assim, mas acho que não. A linha de quatro é muito difícil de entender, as laterais precisam ir lá na frente e cruzar e voltar para marcar a segunda atacante por dentro.

Terra - A Rosana tem jogado pelo meio na Seleção. Como vê ela nessa nova condição?
René - O tempo todo jogou assim pelos clubes. Na Áustria, foi uma das melhores jogando no meio, nos Estados Unidos foi campeã contra a Marta jogando no meio. Ela pedia para mim, gostava de jogar no meio, mas eu falava: "não vou perder a Formiga, a Daniela Alves ou a Marta. Tenho que arrumar um lugar para ela". E ela se saiu muito bem.

Terra - Um título nessa Copa do Mundo provocaria uma evolução no futebol feminino?
René - Minha visão é que não vai trazer absolutamente nada. O futebol caminha bem, mas temos que comparar com o vôlei, que demorou duas décadas. Não acredito que um título dará um "boom", mas cresce o desejo por esse título e elas vão conquistar. Espero que com essa nova distribuição de renda (direitos de transmissão) os clubes fiquem melhor de finanças e possam investir.

Mas acho que o futebol feminino precisa se basear no voleibol, porque ainda são empresas hoje e não clubes sociais. Não vejo como o Flamengo ou o Vasco investirem se o futebol feminino é deficitário, não vejo uma empresa grande colocar dinheiro porque não há essa credibilidade do retorno. Há de se encontrar uma forma. Acho que já caminhou bastante, hoje temos a Copa do Brasil, os regionais, a Libertadores, esse Mundial. Está indo.

Terra - Os treinadores de futebol têm rejeição em trabalhar no futebol feminino? Por que não há tantos treinadores só em futebol feminino?
René - O que existe é a questão da remuneração e só. Qualquer um trabalharia, eu trabalharia normalmente. Já trabalhei com time universitário, Sub-15, Sub-17, time da Marinha, de segunda divisão, da Jamaica...o problema é remuneração. No time profissional você ganha 10 X, no feminino ganha meio X. É uma questão de sobrevivência. O ideal seria ter gente de carreira mesmo, especializada. Ter cursos de treinadores que ensinassem como trabalhar com as mulheres, porque é realmente bem diferente.

Fonte: Terra
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