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Maurren Maggi
Sábado, 22 de julho de 2006, 10h05 
De vida nova, Maurren Maggi quer "fazer estrago"
 
Fernando Badô
Ricardo Fontanesi
 
Reinaldo Marques/Terra
Maurren voltou aos treinos no começo do ano, em janeiro
Maurren voltou aos treinos no começo do ano, em janeiro
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A vida de Maurren Maggi é repleta de saltos. Não apenas por ser o principal nome do salto em distância brasileiro da atualidade, mas também pelo modo com que os fatos se sucedem em sua carreira. E foi assim, num pulo, que ela saiu do anonimato para se tornar um das estrelas do atletismo brasileiro, quando, em 1999, alcançou a marca de 7,26m no Campeonato Sul-Americano de Bogotá, na Colômbia, então a nona melhor marca da história.

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No mesmo ano, ela conquistou a medalha de ouro da modalidade nos Jogos Pan-Americanos em Winnipeg (Canadá) e se colocou entre as favoritas para a Olimpíada de Sydney (Austrália) em 2000. Uma lesão, porém, no momento que ela realizava uma das tentativas, a derrubou pela primeira vez, quebrando o sonho dourado.

Um novo salto a colocou de volta ao topo do atletismo. Em 2002, ela venceu o GP de atletismo em Paris. Com a marca, o ano de 2003 parecia muito promissor, com a chance do bi pan-americano em Santo Domingo. Mas veio outra queda, a maior de todas.

As amostras para o exame antidoping no Troféu Brasil de Atletismo, em junho daquele ano, acusou a presença da substância proibida Clostebol Metabolite, um anabolizante utilizado no fortalecimento muscular.

Apesar das alegações de que a substância fora ingerida de forma involuntária - por meio de um creme para a pele - a atleta foi suspensa por dois anos e ficou de fora tanto do Pan-2003, quanto da Olimpíada de Atenas, no ano seguinte.

Do período de afastamento forçado acabou resultando uma alegria, o nascimento da filha Sofia, do casamento com o piloto Antonio Pizzonia. Mãe e casada, Maurren decidiu abandonar o esporte.

Em 2006, contudo, ela mudou de idéia. "Acontecem um monte de coisas na vida da gente e tem hora que ficamos de mãos atadas. Então eu procurei o atletismo que é onde eu sempre encontrei forças para superar tudo". E, em janeiro, ela retornou ou treinamento.

Coincidentemente, de volta à Colômbia, no domingo passado, ela voltou a fazer uma marca expressiva: 6,84m. A melhor das Américas e a sexta melhor do mundo no ano. "Estou de volta ao atletismo", disse ao treinador, Nélio Moura.

Confiante, Maurren Maggi está de volta e tem como principal objetivo o Pan-2007, no Rio de Janeiro. "Quero fazer estrago", afirma em entrevista exclusiva ao Terra Esportes, na qual conta as dificuldades para voltar a competir em alto nível e explica os cuidados que toma com cosméticos.

Terra - Como foi sua rotina nesses dois anos de afastamento? Você ficou quanto tempo longe dos treinamentos?
Maurren Maggi - Todo tempo eu fiquei longe dos treinos. Eu comecei a treinar mesmo em janeiro deste ano e meio no escuro, já que a gente nunca soube como seria a volta. Hoje, a gente (treinador e ela) tem certeza de que foi muito boa, a melhor opção.

Terra - Você chegou a cogitar a hipótese de não voltar a competir. Quando você decidiu que era a hora de voltar atrás?
Maurren Maggi - Sempre cogitei a idéia de não retornar. Decidi voltar atrás em janeiro. Foram motivos pessoais, não comentei com ninguém. Não estou comentando com ninguém, mas para mim está sendo muito importante estar de volta e para muita gente também. Então, tiveram vários motivos para eu estar de volta às pistas. É o que eu sei fazer de melhor. Acontece um monte de coisas na vida da gente e em alguns momentos ficamos de mãos atadas. Então eu procurei o atletismo, que é onde eu sempre encontrei forças para superar tudo.

Terra - Quais as principais dificuldades para voltar a um condicionamento físico ideal para competições de alto nível?
Maurren Maggi - Eu acho que o que me dificultou, mas ao mesmo tempo foi uma força é que eu criei a minha filha sozinha, a Sofia (1 ano e sete meses). Então, eu tinha que trazer ela aqui na pista e as pessoas me ajudavam a tomar conta dela. Acho que isso foi a parte mais difícil, mas também a parte melhor. Todo dia, quando me sentia em um momento ruim, eu olhava para ela. Hoje eu faço tudo pela Sofia, por que eu quero dar uma vida tranqüila para ela. A gente sempre quer o melhor para os filhos, né? Então hoje tudo o que eu faço é por ela. Se eu tiver que passar tudo de novo por causa dela, eu passo.

Terra - Como é a nova rotina? Como você divide o tempo entre treinos e a Sofia?
Maurren Maggi - Todo dia ela vem nos treinos. Eu fiz uma viagem para Bogotá (Colômbia, onde ganhou a medalha de ouro após saltar 6,84m) e ela não foi comigo, ficou na casa dos meus pais. A rotina acho que não mudou muito. Estou treinando muito, treinando bem, treinando forte, visando, é claro, o Pan-Americano do ano que vem. Não é nada para este ano. Mas eu estou muito feliz com o que tem acontecido na minha vida. Acho que volta melhor não existiria. Está tudo perfeito, tudo muito bom, tudo dentro, até demais, dos planos que eu tinha pensando. Estou muito feliz com a volta.

Terra - Depois do caso do doping, você passou a tomar cuidados com o tipo de cosméticos que usa?
Maurren Maggi - Com certeza. É complicado. Até hidratante que eu passo no rosto, na pele, eu levo uma ficha inteira para o Nélio, meu técnico, e ele pesquisa para mim para ver se está tudo bem. Depois manda para o médico. Eram cuidados que eu tinha, mas antes eu nunca tinha tanto cuidado com pomadas, hidratante. Hoje eu tenho. Tem que tomar cuidado com tudo.

Terra - Ficou alguma mágoa da época do doping?
Maurren Maggi - Tudo o que aconteceu nesses dois anos e meio, três anos que eu estive fora (das pistas), passou quando eu dei o salto lá na Colômbia. Foi tudo embora, tudo sumiu porque agora é uma nova fase da minha vida, uma nova etapa. Eu quero pensar como vai ser daqui para frente. Estou visando o Pan e não quero ficar pensando no que aconteceu de ruim. Porque a minha vida daqui para frente vai ser completamente diferente. Talvez com muito mais gana, muito mais vontade. Consegui voltar entre as melhores do mundo. O atletismo está sendo muito importante. E eu não vou parar por aqui.

Terra - Com seu retorno, o Brasil volta a ganhar uma musa no atletismo?
Maurren Maggi - (Risos) Isso quem tem que falar são vocês, não sou eu. Como é que eu vou responder isso. Tomara que sim, claro!

Terra - E a torcida, o carinho...
Maurren Maggi - Continua o mesmo. Poxa, as pessoas estão vindo na pista, sabe? Eu estou aqui na pista e vieram várias pessoas me dar os parabéns, me cumprimentar. São atletas, são pessoas sedentárias, são pessoas que eu nunca vi na vida, sabe? E é muito legal. Todo mundo falando, agradecendo por eu estar de volta. Isso é um carinho, uma coisa que não tem preço.

Terra - Qual foi a sensação ao fazer a melhor marca do ano logo no retorno?
Maurren Maggi - Eu chorei muito. Para variar (risos). Quando eu liguei para o Nélio, que eu consegui falar com ele depois de duas horas que competi, disse: "Nélio, estou de volta". Aí ele falou: "Como assim você está de volta? Não saltou?". Falei que estava de volta ao atletismo, que tinha saltado 6,84m. Ele respondeu: "puta merda".
Depois ele passou o telefone para a Tânia, minha técnica, e entrou no computador ao mesmo tempo e pediu para falar para mim que eu era a sexta do mundo (risos). Aí eu comecei a chorar, fiz um escândalo, mas foi bom.

Terra - Seu principal objetivo é o Pan. Depois seria a Olimpíada?
Maurren Maggi - Olimpíada. Eu estou visando o Pan-Americano porque hoje é a maior sensação do Brasil. Não se fala em outra coisa a não ser o Pan-Americano, depois que terminou a Copa. Então eu só vou pensar no Pan e depois, no outro ano (2008), só vou pensar na Olimpíada. Estou treinando muito para isso. E eu quero ir muito bem. Quero fazer um estrago no Pan e recuperar o tempo que eu perdi.

Terra - Você acha que as chances de fazer esse estrago são boas?
Maurren Maggi - Claro que são! (risos) Se eu não confiar em mim depois do que eu saltei na primeira competição, quem é que vai confiar. Claro que o Nélio confia...

Terra - Como o Pizzonia encarou a sua volta às pistas? Ele te apoiou?
Maurren Maggi - Deixa eu falar uma coisa para você? Para a gente não falar mais dele... pode ser?

Terra - Você já tem uma agenda de competições depois do retorno?
Maurren Maggi - Eu não sei. Eu ainda não tive tempo, por incrível que pareça, para sentar com o Nélio e a Tânia e programar o que a gente vai fazer daqui para frente. Não sei se vou competir na Europa, por que eu me encaixo em qualquer competição do mundo.

Terra - Por causa da marca em Bogotá?
Maurren Maggi - Isso. Qualquer competição já tem gente me chamando para competir. Então as portas estão abertas de novo para mim.
 

Redação Terra