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Após susto, brasileira faz história em travessia oceânica

26 de agosto de 2006 10h03 atualizado às 10h35

Izabel Pimentel comenta o susto que sofreu em incidente no meio do oceano. Foto: Divulgação

Izabel Pimentel comenta o susto que sofreu em incidente no meio do oceano
Foto: Divulgação

Izabel Pimentel se tornou nesta semana a primeira brasileira a cruzar o Oceano Atlântico sozinha. A bordo de um barco de 21 pés (6,5m), a velejadora levou 42 dias e seis horas para fazer o trajeto entre Cascais, em Portugal, e Fortaleza (CE).

Veja entrevista com Izabel Veja fotos da atleta

Hospedada em um hotel na cidade cearense, a atleta concedeu entrevista exclusiva ao Terra Esportes e contou com muito bom-humor as incríveis dificuldades pela quais passou durante a travessia.

Entre elas, Izabel narra como quase foi atropelada por um navio de grande porte, ficando presa a um equipamento em sua embarcação, e arremessada para o outro lado do veleiro por uma onda gigante. A atleta conta também o que aconteceu quando perdeu contato com seu pai, com quem falava duas vezes por dia.

Durante os últimos dias da viagem, Izabel fazia uma só refeição diária, sendo que no começo comia de duas a três vezes por dia. Ao chegar a Fortaleza, quase caiu no chão de fraqueza.

Apesar de todos os percalços, no entanto, a otimista Izabel disse que sempre arrumava um jeito de lidar com os problemas.

Em tom de descontração, Izabel brinca que quando foi localizada pelas autoridades brasileiras em alto-mar estava tomando banho de biquíni e diz que "ainda bem que não estava nua, senão eles iriam pensar que coisa horrorosa", brincou.

Agora, com o objetivo finalizado, Izabel afirma que retomará viagem rumo ao Rio de Janeiro, seu destino final, quando quiser, em um dia em que ela estiver com humor de continuar.

Qual o momento mais difícil da viagem?

No trecho de Canárias (conjunto de arquipélagos ao lado da Espanha) a Cabo Verde (ilhas vizinhas a Portugal). Peguei ondas muito grandes. Uma delas veio de lado. Elas vinham de todos os lados, aquela coisa embolada. Uma acertou o barco com violência e eu fui lançada, como se pegasse uma coisa e jogasse, para o outro lado do barco.

Agora no trecho de Cabo Verde até o Brasil tive que encarar um tempo muito ruim o tempo todo. Se você acompanhar a previsão de tempo dos locais em que estive, dá para perceber como foi dura a viagem. O tempo todo lutando mesmo, com o barco contra. E velejar em um barquinho deste é cansativo.

Com tempestades, não tinha como ficar do lado de fora. As ondas vinham e batiam com força, e eu peguei um livro para me distrair. Era violento mesmo, porque fazia aquele barulho infernal dentro daquele barco, que não tem acabamento interno.

E quando teve sua embarcação quase virada por um navio de grande porte?

Foi assim: eu vi o navio e desviei dele. Só que estava muito vento, então meu barco pegou velocidade e, na hora em que eu estava regulando a direção do piloto, olhei o navio em cima de mim. Um monstro negro em cima de mim. Não estava a dez metros, estava raspando em cima de você. Eu me joguei para trás.

Não tinha como virar o leme. Joguei meu corpo para trás e minha perna ficou presa no cabo de segurança. Vi o navio passar, e a ondulação empurrou o barquinho para trás, A sensação foi muito horrível, nunca tinha passado por isso.

O que aconteceu quando perdeu comunicação com seu pai? (o pai de Izabel acionou as autoridades brasileiras para procuraram a velejadora, pois ela se comunicava freqüentemente com ele e, de repente, as conversas se cessaram)

Perdi, mas estava numa boa, tranqüila. E eu tinha avisado meu pai. Parei de falar com ele porque acabou o crédito do telefone. Mas ele não precisava se preocupar: o máximo que pode acontecer é quebrar tudo e o barco ficar flutuando. A menos que um navio passe por cima, aí não precisa procurar, não perde tempo. Não esquenta a cabeça (risos).

Mas aí meu pai ficou assustado com essa confusão dos créditos. Quando a marinha me ligou, eu estava tomando banho. Passou um avião em cima de mim, e eu tava despreocupada, em uma vida normal. Agora, cheguei aqui e vi uma reportagem "a deriva". Está bom que eu estava navegando capenga, com o barco meio tonto de um lado para outro, mas eu tinha confiança nele.

Você chegou a ver o navio patrulha Graúna e uma aeronave C-130, que partiram para procurar seu barco, a pedido de seu pai?

Eu filmei a nave vindo para cima de mim. Foi uma cena muito legal: do avião passando por cima do barco. Queria que eles tivessem tirado uma foto lá de cima.

Não cheguei a temer, estava tranqüila. Se perguntar para uma pessoa da Força aérea, eles vão falar que eu estava de biquíni do lado de fora, tomando banho, ainda bem que não estava nua, senão eles iriam pensar que coisa horrorosa. Brincadeira (risos)...

Como funcionava a tecnologia com que se comunicava com seu pai?

Eu tinha um iridium (telefonia via satélite) que funciona perfeitamente. Você pode telefonar para quem quiser para qualquer lugar do mundo. Hoje em dia você consegue navegar e faz o mundo todo de uma forma fácil.

Eu falava com meu pai duas vezes por dia. Mas, não tinha como ficar ligando, pois não podia ficar sem crédito, não tinha muito crédito.

Como ocupava seu tempo?

Me ocupava o tempo todo. Toda hora tinha coisa para fazer, eu ia dormir cansada. Eu não fazia o que normalmente fazem. Eles (velejadores em geral) costumam dormir durante períodos do dia. Eles trabalham x horas, descansam 20 minutos. Eles não têm o sono seguido. Eu não gosto disso, trabalho o dia todo. E dormia a noite inteira também.

Li o livro Diário de Bordo, do André Mello, porque tem tudo a ver, ele deu a volta ao mundo sem escala. Eu tinha dois livros do Amyr Klink, que levei para dar uma amiga e acabei lendo durante a viagem.

Não li mais porque não tinha, uma pena. Outra coisa que levarei a bordo da próxima vez será mais livros. Lendo, você esquece aquela história que você está vivendo e penetra em outra. Acabo me emocionando, você acaba viajando em outra história e esquece o que acontece lá fora.

O que aconteceu quando perdeu o leme do barco?

Eu fiquei sem o leme, mas eu não culpo o barco. O barco está muito bem conservado. É que quando saí do Canal da Mancha, pois a viagem começou na França, no Norte do país, eu no primeiro dia bati em um contêiner. E eu devia ter desmontado o leme todo e arrumado ele, em Lisboa. O erro todo da quebra do leme foi meu. Falta de experiência neste sentido, tanto que esta viagem é uma de preparação, para que eu corrija pra próximas viagens.

Você contava com energia solar?

Quando eu estava próxima de Cabo Verde, comecei a economizar energia. Eu tenho um dispositivo de sistema solar, mas não funcionou, pois estava tudo cinza. Tive mal tempo a viagem toda.

Qual era sua alimentação?

Tinha comida desidratada. O pessoal do Brasil 1 (que participou da Volvo Ocean Race - tradicional volta ao mundo de veleiros) usava um tipo de comida que é uma papa. Eu acho que tem que ter prazer. Não dá para ser maltratado todo tempo. Prefiro levar um pouco a mais de peso, mas que faça o ciclo render mais. Acho que vale mais a pena. Levei leite, suco, comida desidratada, e levei alguns enlatados de milho, ervilha, atum. Fazia um macarrão, um feijão também. Tinha no barco um fogão de uma boca. Teve feijão com arroz 4 dias, sonhava com ovo frito.

Nos 15 últimos dias da viagem, fazia uma só refeição por dia, quando cheguei estava bastante magrinha, perdi uns quilos.

Qual foi a primeira coisa que comeu quando chegou à terra?

Feijão com arroz e um franguinho acebolado com um refrigerante, foi muito bom. Estava muito fraca quando cheguei, quase caí no chão quando desci do barco.

Pensou em desistir em algum momento da travessia?

Eu sou uma pessoa que sempre pensa que vou conseguir dar um jeito, nem que invente algo, mas que vai dar certo, senão não funciona.

Como surgiu a idéia de realizar a tarefa?

Eu lia muito, então eu estava com vontade de fazer essa travessia do Atlântico e queria participar de uma regata. Eu escrevi um projeto, e eu tinha essa viagem que eu faria de Lisboa ao Rio, seria como uma preparação para mim. Em 15 dias, eu escrevi e eu vendi. O projeto é interessante, senão... Até o fato deu eu ter um currículo náutico bom favoreceu para vender fácil o projeto.

Quando planeja partir para o Rio de Janeiro?

Agora vou sumir um pouco, pois fugi aqui em Fortaleza. Assim que estiver tudo pronto saio daqui umas 5h da manhã e parto para Cabrália, no Sul da Bahia. E vou sofrer muito ainda, vou pegar um bom trecho de vento contrário.

Redação Terra