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Copa-2014
Quarta, 20 de junho de 2007, 15h29  Atualizada às 18h47
Na África do Sul, a visão de um futuro melhor
 
Rob Hughes
Do "International Herald Tribune"
 
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Cidade do Cabo: já passou o momento em que o ceticismo poderia servir a qualquer propósito com relação à corrida da África do Sul para preparar a infra-estrutura necessária à Copa do Mundo de 2010.

Faz um ano que a Alemanha sediou a mais recente versão do torneio, e apenas alguns meses que Josep Blatter, presidente da Fifa, a organização que comanda o festival mundial, ameaçou ir equipado de pá e picareta à África do Sul a fim de mostrar pessoalmente aos sul-africanos como eles deveriam estar trabalhando na construção dos estádios e demais instalações necessárias.

Blatter agora está de volta à África, para inspecionar o progresso de seus "irmãos" africanos (ainda que ele seja suíço). Na terça-feira, como as fotos das agências de notícias comprovam, ele pousou em Green Point, o local da Cidade do Cabo na qual empreiteiras estão trabalhando na construção, a partir do zero, de um estádio de 68 mil lugares que abrigará nove das 64 partidas da copa de 2010, entre as quais uma semifinal. Na semana passada, quando eu mesmo visitei o local, afundei as pernas na lama até os tornozelos.

A Cidade do Cabe, jóia do turismo sul-africano, é essencial para o torneio. Se o esforço que está sendo aplicado no local for multiplicado por 10, será possível imaginar as dimensões do esforço envolvido na construção e reforma de estádios em todo o país, metade dos quais novos. Para além dos estádios, a África do Sul precisa também expandir seus aeroportos, hotéis, estradas, ferrovias e programas educacionais, a fim de preparar o povo para seu papel como anfitrião esportivo.

Aonde quer que se vá, no país, há alguém que define a tarefa como uma missão impossível. Ao dobrar qualquer esquina, porém, você esbarra em um trabalhador envolvido na implementação do projeto. Se eles se assemelham ao piloto do vôo 221 da South African Airways, entre a Cidade do Cabo e Londres, uma semana atrás, o país certamente tem todas as chances. O avião decolou com uma hora e meia de atraso, e ele prometeu que recuperaria o tempo perdido - e conseguiu. Mais ou menos.

O espírito dos sul-africanos, que tentam recuperar o atraso em escala sem precedentes, está sendo colocado à prova por pessoas mais envolvidas no projeto do que o presidente da Fifa.

Danny Jordaan, ativista que combateu o apartheid na era da repressão e foi encarregado por Nelson Mandela, em 1994, de fazer do esporte -especialmente o futebol - uma maneira de promover o progresso, comandou a campanha sul-africana para que o país se tornasse anfitrião da copa. Jordaan, acompanhado de Mandela, ficou a um voto de obter a Copa de 2006 para seu país. Mas foi bem sucedido na campanha pela organização do evento em 2010, e agora é presidente do comitê organizador. No ano passado, ele acompanhou na Alemanha a notável expansão de uma Copa do Mundo transmitida do lado de fora dos estádios aos dois milhões de estrangeiros convidados a compartilhar do evento por meio de telões instalados em praças e parques.

O legado desse sucesso, ao que se diz, pode ser constatado em uma alteração das percepções do mundo sobre os alemães, e em uma alta considerável no turismo e nas transações internacionais do país. Jordaan estima que 350 mil turistas - no máximo 500 mil - virão à África do Sul, mas ele reconhece que os 850 milhões de habitantes do continente poderiam superar com folga essa expectativa.

"Agora não temos mais Mandela; temos 2010", ele afirma. "Se você sair às ruas, o ponto de união do país, além de Mandela, agora é a copa de 2010. Ela envolve muito, muito mais do que futebol".

O país continua a ser uma democracia palpavelmente jovem e frágil, depois do século de fanatismo branco que viveu. O nível de desemprego é assustador ¿em algumas das cidades-sede da Copa, um em cada quatro adultos não tem trabalho. Mesmo que os estádios sejam construídos de forma segura, mesmo que haja ferrovias e estradas conduzindo até eles, mesmo os seis novos hotéis planejados apenas para a costa da Cidade do Cabo sejam concretizados, o policiamento de toda essa empreitada é um possível grande temor para os visitantes.

Jordaan não é porta-voz da polícia, mas para todos os efeitos ele é o anfitrião.

"O governo está realizando investimentos significativos no recrutamento de novos policiais, e na criação de melhor infra-estrutura para a polícia", afirma. "As pessoas virão e questionarão tudo que fizermos, em 2010. O outro lado da moeda é que nós já servimos como anfitriões de muitos grandes eventos ao longo dos anos - críquete, rugby, a posse de Mandela, à qual compareceram 125 chefes de Estado. Nada de ruim aconteceu em qualquer dessas ocasiões".

Mas no momento a polícia está envolvida em uma guerra contra o crime de rua que visivelmente assusta os policiais, onde quer que estejamos no país. Eles falam em aderir à greve dos professores e dos trabalhadores da saúde, que lutam por melhores salários. Há jovens queimando pneus nas ruas, como no passado.

Diante de um pano de fundo como esse, a Copa do Mundo é uma visão de extraordinária e talvez inatingível esperança de um futuro melhor para a África do Sul. Na Cidade do Cabo, a belíssima paisagem está sendo alterada para ajudar a propiciar esse futuro.

Trata-se da primeira grande cidade do país a escapar ao controle do Congresso Nacional Africano (CNA, o partido de Mandela e do presidente Thabo Mbeki). A prefeita, Helen Zille, da Aliança Democrática, é uma líder formidável que, em seu passado como jornalista, escreveu as reportagens que provavam que o ativista Stephen Biko, oponente não violento do apartheid, havia sido torturado e morto pela polícia em 1977.

Diante das imensas despesas com a copa, sua resposta foi que "não podemos terminar como Montreal, onde os netos das pessoas que decidiram sediar a Olimpíada de 1976 continuam pagando as contas". Ela negociou com o governo central, e a cidade só investirá US$ 56 milhões na construção do estádio nacional, orçada em US$ 2,86 bilhões.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
 

Herald Tribune