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Brasil receberá Copa 2014 sem saber quanto vai gastar

28 de outubro de 2007 09h00 atualizado em 29 de outubro de 2007 às 08h40

Segundo Langoni, Brasil ainda não tem um orçamento definido. Foto: Allen Chahad/Terra

Segundo Langoni, Brasil ainda não tem um orçamento definido
Foto: Allen Chahad/Terra

Responsável pela consultoria financeira do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014, o ex-presidente do Banco Central, Carlos Langoni, está certo de que o País tem condições de realizar uma Copa do Mundo sem o desperdício de recursos públicos. Porém, às vésperas do anúncio do país sede da Copa do Mundo de 2014 - o Brasil concorre como candidato único -, admite, em entrevista exclusiva ao Terra, não saber qual será o tamanho da conta. "Não existe um orçamento ainda. O que há de efetivo é o orçamento do Comitê Organizador e uma avaliação do gasto com os estádios", afirma. Segundo ele, o montante que caberá ao governo, de recursos para obras de infra-estrutura, só será definido a partir do final do ano que vem, quando serão definidas as sedes do torneio.

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Na sua opinião, o principal papel do governo é criar um marco regulatório que atenda as exigências da Fifa, o que abrirá caminho para que os investidores se interessem pelas obras e assim invistam por meio de PPPs (Parcerias Público Privadas). "Essas obras seriam realizadas de qualquer maneira. A Copa do Mundo só vai fazer com que elas sejam aceleradas", diz.

Sobre a realização do Mundial, ele afirma que os brasileiros, às vezes, sentem "complexo de inferioridade". Segundo ele, o Brasil vive um momento único na economia e está certo de que isso fará com que o País não tenha dificuldades em encontrar investidores para o projeto. Para embasar o seu pensamento, cita a estimativa do Banco Central, de US$ 30 bilhões em investimento estrangeiro direto no Brasil em 2007.

Langoni afirma que ter administrado o Banco Central entre 1980 e 1983, durante o governo do general Figueiredo, foi uma missão muito mais delicada do que a do seu colega Henrique Meirelles, que está no cargo desde o início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. "Naquela época, eu não tinha 'reservas'. O Meirelles está em uma situação muito mais confortável", diverte-se. "Aliás, ele está fazendo um grande trabalho".

Leia abaixo os principais trecho da entrevista:

Terra - O Brasil se compromete a entrar em um negócio sem saber quanto vai gastar lá na frente. Essa é a questão que todo mundo quer entender. Quem garante que essa conta não vai ficar por pagar?
Langoni - Não existe um orçamento ainda. O que há de efetivo é o orçamento do Comitê Organizador, em torno de US$ 400 milhões (R$ 720 milhões), e uma avaliação do gasto com os estádios, em torno de US$ 1,2 bilhão (R$ 2 bilhões), que virão, respectivamente, da Fifa, e da iniciativa privada. Do ponto de vista do comitê organizador, não vai haver erro. Porque o nosso orçamento é esse aí de US$ 400 milhões e não vai haver muita mudança. Esse é um dado, é uma parcela pequena. O restante, é realmente atrair, criar condições para que grupos privados façam os investimentos necessários. O que eu posso dizer é que o interesse demonstrado pelo setor privado é enorme. E nós nem começamos ainda. Porque é evidente que o setor privado só vai se manifestar quando tiver certeza que o Brasil vai ser selecionado. O jogo começa no ano que vem. Na verdade um pouco antes, porque a seleção das sedes pela Fifa vai depender do compromisso e da certeza de que esses Estados vão atender esse requisito básico, que é ter estádios modernos e infraestrutura adequada.

Terra - Mas não há nenhuma estimativa de quanto custará a competição?
Langoni - O processo é dinâmico, nós fizemos um trabalho agora. Nós aproveitamos esse período entre março e outubro para detalhamos o máximo possível todos os componentes de custo de uma Copa do Mundo. Um trabalho bastante complexo. Eu tinha uma equipe trabalhando comigo, ajudando a definir o orçamento da maneira mais realista possível. Mas é lógico, é um orçamento, para você ter uma idéia, para 2014. É um orçamento inclusive que é distribuído ao longo do tempo e os gastos aumentam em 2013 e 2014, quando de fato começam a acontecer os eventos.

Terra - Quem são os interessados nessas obras. Investidores brasileiros, estrangeiros?
Langoni - Hoje você tem já vários consórcios sendo organizados, de dentro e de fora. E nós, apesar de não termos iniciado esse trabalho, porque uma das funções do Comitê Organizador é incentivar e estimular e atrair investimentos privados para as cidades que vierem a ser selecionadas, já temos notícias de muita gente interessada.

Terra - O senhor vê o Brasil preparado para um desafio desse tamanho?
Langoni - Eu acho que as pessoas, às vezes, tem um complexo de inferioridade. Acham que o Brasil não tem condições de fazer uma Copa do Mundo. Não tem condições por quê? Nesse modelo que nós estamos colocando aqui, em que a contribuição principal do governo, isso aliás já foi assegurado pelo presidente Lula, pelo governo atual e pelos governos estaduais, é criar um marco regulatório que atenda as exigências da Fifa. Recursos públicos vão ser aqueles investimentos que teriam de ser realizados de qualquer maneira, o que aconteceu na Alemanha, por exemplo. O novo aeroporto de Munique foi construído para atender a Copa do Mundo. Então, anteciparam o cronograma.

Terra - O senhor já foi presidente do Banco Central. Estaria tão tranqüilo assim se ainda fizesse parte do governo?
Langoni - Fui presidente e "sem reservas" (risos). É um projeto complexo. O Meirelles está numa situação muito mais confortável. Aliás, fazendo um grande trabalho. Outra coisa importante, é que eu me beneficio da experiência que a Fifa tem. A Fifa já fez quantas Copas do Mundo? É um processo de aprendizado. Nós estamos aprendendo com a Fifa. Você precisa ter uma equipe séria, competente, que saiba trabalhar com planejamento financeiro. O orçamento é dinâmico, revisado de acordo com a sua execução. Teremos de prestar contas a cada três meses. O importante é que há um comprometimento total. O Brasil só sai ganhando com esse projeto. Depois fica uma herança para o próprio futebol brasileiro.

Terra - Na sua opinião, quais os pontos em que o Brasil precisa trabalhar mais para cumprir o que foi acordado no caderno de encargos com a Fifa?
Langoni - Eu acho que é na questão dos estádios, que hoje, não teriam condições de receber nenhum jogo do Mundial. Na infra-estrutura, o maior desafio do Brasil, em algumas regiões é o transporte. A questão energética, eu acho que vai ser superada. O problema principal do Brasil que vai ter de ser equacionado, e é prioridade hoje de qualquer governador, é a segurança. Então, eu acho isso uma grande contribuição que a Copa do Mundo pode nos dar. Então você vê. O Pan, nesse ponto de vista (da segurança) foi um verdadeiro sucesso. Eu acho que o Brasil, em matéria de grandes eventos, sabe muito bem administrar. É uma Copa organizada no País inteiro. Até lá, vamos ter de avançar na área de segurança pública que é um grande desafio para o dia-a-dia do cidadão brasileiro.

Terra - O que o modelo brasileiro terá de diferente dos apresentados até hoje por outros países que sediaram um Mundial?
Langoni - De uma certa forma, o modelo brasileiro de Copa do Mundo de 2014 é um modelo inovador, porque ele vai privilegiar o investimento privado. E aí há uma coincidência favorável, que é importante que o público entenda. Primeiro, toda a administração da Copa, que a gente chama de gestão do evento, é 100% financiada pela Fifa. Não há um centavo de recursos públicos, ou seja, o comitê organizador da Copa... Hoje eu trabalho no Comitê de candidatura. A partir da aprovação, ou seja, de terça-feira, você tem a transição do Comitê de Candidatura para o Comitê Organizador.

Redação Terra