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Ronaldo
Terça, 6 de maio de 2008, 10h31  Atualizada às 10h30
Caso Ronaldo mostra comportamento machista no futebol
 
Alexei Barrionuevo
 
Getty Images
Atacante Ronaldo ainda se recupera de lesão no joelho
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Em uma cidade famosa pela tolerância sexual, os homens que brilham nos gramados estão sujeitos a um padrão mais exigente de masculinidade. Na segunda-feira, os torcedores brasileiros de futebol receberam inconformados a notícia de que o astro do futebol Ronaldo Nazário de Lima, conhecido apenas como Ronaldo no mundo do esporte, havia sido interrogado pela polícia depois de convidar três travestis a acompanhá-lo a um quarto de motel.

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Ronaldo, atacante do Milan, da Itália, disse que tentou dispensar os travestis, depois de pagá-los, quando descobriu que eram homens. Mas um dos homens argumentou que não havia recebido a quantia combinada, e a polícia interveio, tornando público um momento privado e expondo a seriedade com que alguns brasileiros encaram a visão de futebol como um esporte másculo.

A prostituição é legal, aqui, e Ronaldo não enfrenta acusações criminais. O comportamento dele foi "no máximo imoral", disse o delegado Carlos Augusto Nogueira, encarregado da investigação.

Mas nem todos os torcedores brasileiros parecem dispostos a esquecer e perdoar. As informações sobre a noitada selvagem de Ronaldo, que se encerrou por volta das oito da manhã, se tornaram manchete no Brasil.

É bom ressaltar que as críticas que ele vem recebendo ficam bem aquém do que aconteceria em países nos quais a prostituição é ilegal e os costumes sexuais menos tolerantes. Ainda assim, o fato de que o incidente de Ronaldo tenha conquistado espaço nas primeiras páginas brasileiras por alguns dias, e servido de piada a muitos cartunistas e blogs serve como prova de que padrões diferentes se aplicam aos jogadores de futebol.

Muitos torcedores consideram o futebol como um esporte profundamente masculino, e seus jogadores mais famosos devem ser todos exemplos de heterossexualidade.

"Os torcedores não se incomodam por os jogadores de futebol saírem com prostitutas", disse o antropólogo brasileiro Roberto da Matta. "Mas muitos deles questionarão a masculinidade do jogador, agora".

Fernando Santos é um deles. "Eu acho que, por trás de portas fechadas, muita coisa aconteceu entre Ronaldo e aqueles três travestis", disse Santos, 45 anos, que estava tomando uma cerveja depois de uma partida de futebol com amigos. "Se ele voltar a jogar no Brasil, o pessoal da arquibancada vai xingar".

Ewerton Correa, que estava sentado ao lado, ofereceu uma prévia: "Estão dizendo que Ronaldo vai levar três novos jogadores para o time, e pagará seus salários", comentou Correa, 36 anos, causando risadas aos colegas de futebol.

Para Ronaldo, 31 anos, provar sua masculinidade nunca foi problema. Desde que foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira, aos 17 anos, seu nome sempre esteve ligado a diversas mulheres bonitas ¿ modelos e celebridades.

Duas ex-namoradas que posaram para a revista Playboy em 1998 são conhecidas como "Ronaldinhas". Um ano mais tarde, Ronaldo se casou e teve um filho. Quatro anos mais tarde, se divorciou. Esteve noivo da modelo e apresentadora brasileira Daniela Cicarelli, e mais tarde namorou com a modelo brasileira Raica Oliveira.

Agora, sua imagem como lendário conquistador foi obscurecida por ele ter aparentemente acreditado pelo menos por algum tempo que os travestis eram mulheres.

"O meio do futebol brasileiro realmente se distancia de qualquer traço de homossexualidade, a despeito de a sociedade em geral aceitar os homossexuais", disse Sócrates, um ex-astro do futebol que se tornou médico e colunista de jornal.

Ronaldo sempre foi tratado de maneira reverente pela mídia brasileira ao longo dos anos, em função de seu desempenho notável no esporte. Ele cresceu no humilde bairro carioca de Bento Ribeiro e fez quase toda sua carreira em times do exterior, tornando-se um dos jogadores mais bem pagos do mundo. Ele volta ao País regularmente para defender a Seleção e é o maior artilheiro na história das copas do mundo de futebol, com 15 gols.

Mas sua carreira enfrenta dificuldades devido a constantes lesões nos joelhos, a mais recente das quais, sofrida em fevereiro, pôs fim à sua temporada e gerou especulações de que o atacante, três vezes premiado como melhor jogador do mundo pela Fifa, esteja pensando em abandonar a carreira, o que ele nega. Alguns comentaristas brasileiros estão apostando que ele ainda jogará em algum time do País.

O incidente envolvendo Ronaldo não é a primeira vez em que as expectativas quanto à opção sexual de um jogador de futebol causam controvérsia no Brasil. Em São Paulo, cidade que abriga uma das maiores paradas mundiais do orgulho gay, o diretor de um conhecido time de futebol em agosto passado acusou um meio-campista de outra equipe de homossexualidade. O jogador apresentou queixa-crime contra o dirigente por difamação.

O juiz Manoel Maximiniano Junqueira Filho desconsiderou a queixa, afirmando que o futebol "é um esporte viril" e "não homossexual". Ele sugeriu que jogadores homossexuais deveriam deixar os times que defendem ou criar uma liga própria para seus jogos. Depois de receber críticas, o juiz retirou sua decisão.

Já existe um time de travestis. A equipe Roza FC joga perto de Bento Ribeiro, o bairro em que Ronaldo cresceu. Determinados a se enquadrar à paixão nacional pelo futebol, acredita-se que eles formem o único time de travestis no futebol mundial, segundo Alex Bellos, autor de "Futebol: Soccer the Brazilian Way".

"Eles estão dizendo que também podem jogar futebol", afirma Bellos. "É uma maneira de tentar conquistar aceitação".

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times