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Alpinismo
Domingo, 15 de junho de 2008, 11h58  Atualizada às 15h53
Brasileiro ajusta contas com Everest
 
Bruno Ceccon
 
Rodrigo Raineri/Arquivo/Divulgação
Após cume, Raineri fez as pazes com a montanha
Após cume, Raineri fez as pazes com a montanha
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O alpinista Rodrigo Raineri tomou uma das decisões mais difíceis da sua vida em 2005. A menos de 50m do cume do Everest, ele resolveu dar meia volta e descer a montanha por motivos de segurança. No ano seguinte, abortou a segunda tentativa de chegar ao topo após a morte de seu parceiro, Vitor Negrete. O brasileiro finalmente ajustou as contas com a montanha no último dia 28. Ao lado do médico Eduardo Keppke, ele escalou os 8.848m e atingiu o ponto mais alto do planeta.

» Veja fotos da escalada
» Rodrigo dedica escalada a parceiro Vitor Negrete

Rodrigo voltou ao Brasil no começo da semana passada após quase quatro meses de expedição. Cerca de 10kg mais magro, com mais cabelos brancos e menos neurônios, ele ainda tem dificuldades para colocar o sapato e falar ao telefone em função do constante formigamento que sente nos dedos das mãos e pés após enfrentar um longo período de exposição a temperaturas congelantes. Enquanto se recupera, o brasileiro saboreia a conquista e retoma a paz de espírito depois de se acertar com a montanha.

Desta forma, Rodrigo Raineri se torna um dos cinco brasileiros vivos que já viram o mundo deste ângulo único. O plano inicial de chegar ao topo sem usar cilindros de oxigênio foi descartado em função das condições climáticas adversas encontradas nesta temporada. A menos de uma semana no País, o atleta não descartou a idéia de voltar ao Himalaia para tentar o feito inédito no alpinismo nacional de escalar o Everest apenas com suas próprias forças.

Em entrevista ao Terra, o alpinista brasileiro contou algumas das dificuldades que precisou superar para finalmente alcançar o cume do Everest em sua terceira tentativa, como os obstáculos causados pela passagem da tocha olímpica pela montanha. Com a imagem do parceiro Vitor Negrete viva em sua mente, ele falou sobre as homenagens prestadas ao companheiro durante a escalada e contou seus próximos projetos.

Terra - Para um leigo, o alpinismo é um esporte difícil de entender. Por que você decidiu fazer da prática de subir montanhas a sua profissão e por que resolveu tentar escalar o Everest?
Rodrigo Raineri -
É muito difícil viver disso no Brasil, mas eu resolvi encarar o desafio. É uma coisa que gosto de fazer e que, apesar dos obstáculos, acho possível se você trilhar o caminho certo. O Everest é a maior montanha do mundo e sempre tive vontade de escalá-lo. Eu tentei duas vezes pela face norte. Na primeira vez, praticamente completei a escalada, pois faltaram poucos metros para o cume. Neste ano, a idéia era escalar sem oxigênio suplementar, porém não foi possível pelas condições climáticas. Mas a escalada foi muito bonita e valeu a pena. Cheguei a 8 mil metros sem oxigênio. Eu considero mais um projeto realizado.

Terra - Essa foi sua terceira tentativa de escalar o Everest. Na primeira, voltou a menos de 50m do cume. Na segunda, o Vitor morreu. Para você, escalar o Everest era uma questão de honra?
Rodrigo Raineri -
Não era somente uma questão de honra, eu precisava terminar minha história com o Everest. Eu passei maus bocados na montanha em 2006 e voltei com uma má impressão. Eu adoro escalar, mas cheguei a odiar a montanha. Estava meio magoado com o Everest, ficou uma impressão ruim para a minha família e para os brasileiros em geral. Tinha uma série de questões, eu tinha que terminar um ciclo. Para a minha família, também foi um alívio, porque eles sempre ficam apreensivos, mas isso é normal.

Terra - Mais do que simplesmente pisar no topo, você queria chegar sem usar cilindros de oxigênio suplementar. Por que esse desejo?
Rodrigo Raineri -
Para você ter uma idéia, aproximadamente 150 pessoas escalaram o Everest nessa temporada. A única que chegou sem oxigênio, morreu na descida. Ou seja, ninguém escalou sem oxigênio nesse ano. É muito mais difícil, muito mais complicado. Meu sonho inicial era escalar sem oxigênio. É a maneira mais justa, mais arrojada de escalar a montanha, mas não foi possível. Não vou arriscar perder alguma extremidade, uma perna, um nariz, um dedo ou até mesmo a vida pelo simples sonho de chegar sem oxigênio. Eu já saí do Brasil com um padrão de segurança estabelecendo que não tentaria com ventos superiores a 30km/h. Os ventos estavam a mais de 60km/h e preferi priorizar a segurança.

Terra - Você acha que sua conquista foi diminuída em função da decisão de usar os cilindros de oxigênio?
Rodrigo Raineri -
Pessoalmente, não é a mesma coisa. Sem oxigênio, é algo que eu considero maior, mas em termos de satisfação, eu considero a montanha escalada. Mesmo com oxigênio, foi uma escalada muito sofrida, estou muito satisfeito.

Terra - O seu grande projeto era chegar ao cume do Everest sem oxigênio. Você ainda pretende voltar à montanha para tentar realizar o feito?
Rodrigo Raineri -
É muito cedo para responder essa pergunta. Não sei.

Terra - Durante 18 anos, você fez aventura com o Vitor Negrete. No Everest, teve o Eduardo Keppke como parceiro. Como foi o relacionamento entre vocês durante a escalada?
Rodrigo Raineri -
Nosso relacionamento foi perfeito. Durante toda a expedição, não tivemos discussão alguma. Nessas expedições, é comum discutir, porque tem muita tensão e stress. Nosso relacionamento foi muito bom e ao mesmo tempo bem produtivo. A presença dele descontraiu bastante o ambiente. Além disso, aumentou a segurança, porque eu não estava sozinho. Foi uma ótima parceria.

Terra - Nesse ano, ao invés de contratar uma agência de viagem para organizar a sua expedição, você decidiu viajar por contra própria e cuidar de toda a logística. Por que tomou essa decisão? Acha que foi uma iniciativa acertada?
Rodrigo Raineri -
Decidi organizar tudo sozinho para baratear os custos e aumentar o controle sobre a expedição. Eu tinha muita autonomia para tomar as decisões sobre tudo: barracas, alimentação, cardápio, tudo. As tomadas de decisão eram simples de serem feitas. A equipe enxuta também ajudou bastante. Ao mesmo tempo, eu tive que enfrentar problemas que não teria com uma grande empresa. No final das contas, acho que foi bem positivo.

Terra - Nas duas primeiras tentativas, você escalou pela face norte, do lado chinês. Neste ano, por que resolveu tentar pelo sul, no território nepalês?
Rodrigo Raineri -
Tem vários motivos. Primeiro, pelo fato de já ter ido duas vezes pelo norte. Na verdade, meu sonho inicial era pelo sul. Em 2007, também houve rumores de que o norte estaria fechado, o que acabou se concretizando. Além disso, pelo sul eu já conhecia a aproximação. Deste lado, como tem somente o povo nepalês, acaba sendo menos complicado do que no norte, que tem muitos chineses.

Terra - Para promover os Jogos Olímpicos, os chineses levaram a tocha até o cume do Everest. Como isso influenciou a sua escalada?
Rodrigo Raineri -
A passagem da tocha influenciou na questão do timing, porque eles fecharam a montanha e ninguém podia passar do Acampamento 2. Atrapalhou todo o meu planejamento de aclimatação à altitude. Como todas as expedições ficaram atrasadas, isso gerou um fluxo muito grande de pessoas tentando chegar ao cume nos mesmos dias. Por isso, eu resolvi atacar o cume no dia 27 e não nos dias 21 e 22, quando a previsão do tempo também era boa.

Terra - Você acha que a passagem da tocha foi prejudicial aos alpinistas e ao povo que vive no Himalaia ou serviu para divulgar o esporte e o local?
Rodrigo Raineri -
Para o alpinismo, acho que foi negativo, porque várias expedições foram canceladas. Tem muita gente que trabalha e mora na região que depende disso. Eles usam os clientes que querem subir o Everest como um meio de vida. Essas pessoas acabaram esperando o ano inteiro e não puderam trabalhar. A idéia é legal, mas não é motivo para fechar a montanha. Eles poderiam ter levado a tocha junto com outros alpinistas. Tinham 16 tochas olímpicas, não entendi. Pode ter ajudado a divulgar o local e o Tibete, mas para o alpinismo, foi negativo.

Terra - Você esteve no Himalaia pela primeira vez em 2003. Ao longo dos anos, consegue perceber algum tipo de degradação ambiental no lugar?
Rodrigo Raineri -
É perceptível como o desgelo na montanha aumenta a cada ano, tem cada vez mais pedras e menos gelo. A presença humana sempre gera degradação. A quantidade de lixo acumulado na montanha aumenta. Sempre tem impacto, mas ele está diminuindo, porque as pessoas estão mais conscientes e pressionadas a respeitar o meio-ambiente. Isso também é reflexo do trabalho de uma ONG que cuida do Everest.

Terra - Quais são as diferenças físicas entre o Rodrigo que deixou o Brasil em março e o que voltou na semana passada?
Rodrigo Raineri -
Depois de uma expedição como essa, você perde muito peso. Além disso, perde massa muscular, gordura e massa óssea, porque acaba tirando do seu corpo tudo que precisa e vai digerindo os nutrientes. Minhas extremidades continuam formigando, atrapalha um pouco. Ontem fui tentar tirar um adesivo de um lugar e não consegui. A sapatilha de escalada, que é bem apertada, também não consigo calçar. Se eu quisesse escalar nesse final de semana, por exemplo, não daria.

Terra - Como foi a sensação de finalmente pisar no lugar mais alto do mundo e alcançar o objetivo perseguido nos últimos anos após tantas dificuldades?
Rodrigo Raineri -
Foi super legal. Eu fiz uma homenagem para o Vitor, para o meu filho e pedi uma descida segura. Eu estava emocionalmente bem estável, bem concentrado. Não tinha aquele alvoroço de descer a montanha para comemorar. Quando você passa muito tempo no topo, isso desgasta demais. Eu comemorei um pouco e vibrei, mas emocionalmente não me alterei muito. A comemoração mesmo foi nos acampamentos mais baixos.

Terra - Depois de chegar ao topo do Everest, você já tem mais algum objetivo em vista?
Rodrigo Raineri -
Meu próximo projeto envolve o vôo livre de paraglaider. Essa pratica nasceu na montanha como uma espécie de pára-quedas para salvar os alpinistas e descer. Hoje em dia, é uma coisa que está super desenvolvida. Tenho o projeto de escalar e descer voando de vários cumes. Em agosto, vou para o Mont Blanc. Ainda nesse ano, quero voltar ao Himalaia e no ano seguinte, tentar no Aconcágua.


 

Redação Terra