Depois de uma festa que se estendeu madrugada adentro em Miami e de dormir uma hora e meia, Jimmie Johnson foi levado na manhã da segunda-feira à sede do canal de esportes ESPN, em Bristol, Connecticut. E, não muito tempo depois de chegar, se encontrou por acaso com o ex-técnico de futebol americano Mike Ditka.
Johnson acabara de se tornar o segundo piloto na história da Nascar, e o primeiro dos últimos 30 anos, a vencer três títulos consecutivos. Ainda assim, achou que precisava se apresentar. Ditka, que comenta partidas da NFL na ESPN, o interrompeu de imediato.
"Ele me disse que sabia quem eu era, me chamou de campeão e disse que eu era uma dinastia", contou Johnson em entrevista coletiva telefônica, na última terça-feira.
Lá estava: dinastia. Parece que só agora Johnson começa a perceber que, ao igualar o feito de Cale Yarborough, que conquistou três títulos consecutivos da Nascar entre 1976 e 1978, ele e sua equipe de corrida, usando carros que pertencem a Rick Hendrick, se tornaram uma verdadeira dinastia, uma potência do esporte.
Richard Petty e Dale Earnhardt venceram cada qual sete títulos da Nascar, mas nenhum dos dois conquistou três campeonatos consecutivos. (Ainda que ambos tenham conquistado quatro títulos em cinco anos ¿ Petty em 1971, 1972, 1974 e 1975, e Earnhardt em 1990, 1991, 1993 e 1994).
Johnson, um piloto de 33 anos oriundo de El Cajon, na Califórnia, é muito respeitado pelo seu estilo agressivo mas constante de pilotagem; para vencer, no entanto, ele tem de contar com a resistência e velocidade dos carros preparados por seu chefe de equipe, Chad Knaus, e com os esforços de dezenas de outros engenheiros e mecânicos.
Foi uma vitória conquistada em equipe. Ao falar na terça-feira sobre seu terceiro título consecutivo, Johnson usava a palavra "nós", para incluir seus companheiros de equipe. E a conquista do título também foi difícil, se levarmos em conta o fato de que Johnson teve de superar diversos concorrentes sérios.
Johnson venceu em sete das 36 provas da Sprint Cup, mas não foi o líder, e nem mesmo o segundo colocado, naquela categoria. Carl Edwards, que terminou o campeonato 69 pontos atrás de Johnson, venceu nove provas, incluindo a de encerramento da temporada, no domingo. Kyle Busch teve oito vitórias.
Edwards também obteve mais dinheiro do que Johnson por suas vitórias. Mas o campeão garantiu seu terceiro título em parte por evitar a colisão múltipla causada por Edwards durante uma prova em Talladega, em 5 de outubro, durante as 10 corridas que formam os playoffs da temporada da Nascar.
"Eu quase me envolvi em três ou quatro colisões naquele dia, e tive sorte por escapar a todas", disse Johnson.
No final de semana seguinte, em uma prova na Lowe¿s Motor Speedway, em Charlotte, Carolina do Norte, a caixa de ignição do Ford de Edwards falou sem motivo aparente, e ele concluiu a prova em, 33°. Johnson tinha 168 pontos de vantagem sobre o adversário, e faltavam apenas cinco corridas. Bastava manter a regularidade para garantir o título.
Uma seqüência de três títulos consecutivos é incomum para equipes em qualquer esporte. Nenhum time de futebol americano venceu três Super Bowls em seguida. O New York Yankees, que venceu a World Series do beisebol em 1998, 1999 e 2000, é a única equipe de beisebol em 34 anos a conquistar um tricampeonato. O New York Islanders, que venceu o campeonato de hóquei sobre o gelo da NHL de 1980 a 1983, foi o último time da categoria a conquistar três Stanley Cups.
Ainda que equipes dotadas de grandes recursos financeiros, como a Hendrick Motorsports, tenham vindo a dominar a categoria ¿ Hendrick, Joe Gibbs e Jack Roush respondem entre eles pelos últimos nove títulos da Nascar -, a concorrência no interior dessas organizações se tornou impiedosa. Considerem o caso de Jeff Gordon.
Gordon, um dos sócios do Chevrolet número 48 pilotado por Johnson, também é piloto de Hendrick. Conquistou seu quarto título na Nascar em 2001, alguns meses antes de seu 30° aniversário, mas não voltou a vencer um campeonato desde então. Ele nem mesmo venceu uma prova da Sprint Cup este ano.
Casey Mears, o menos conhecido dos quatro pilotos da Hendrick Motorsports (o quarto é Dale Earnhardt Jr.) vai deixar a equipe, e será substituído pelo formidável veterano Mike Martin, que estará voltando às pistas em tempo integral, depois de duas temporadas em que se limitou a disputar algumas provas.
Porque a Nascar na semana passada proibiu testes em suas pistas na temporada de 2009 a fim de economizar custos, Johnson disse acreditar que a distância entre as equipes de elite e as menores deve se ampliar na categoria. Mas acrescentou que Edwards havia conseguido estabelecer uma vantagem.
"Ainda sinto que estamos abaixo do número 99 em certas pistas", disse Johnson na terça-feira, se referindo a Edwards pelo número de seu carro. "E isso vai nos impedir de melhorar nosso desempenho em alguns dos ovais inclinados de 2.400 metros".
Johnson disse que sua esperança era a de que as equipes conseguissem acumular dados sobre as pistas nos treinos de sexta-feira, antes de cada prova. Mas já estava discutindo as prioridades da temporada 2009 menos de 48 horas depois do final do campeonato de 2008 ¿que sua equipe terminou por cima.
Johnson anunciou que estava planejando uma viagem de férias com sua mulher Chandra, talvez para a Ásia, antes de se dirigir a Daytona para a prova de abertura do campeonato de 2009, em fevereiro. Depois, ele planeja chegar a um resultado que nenhum piloto de stock cars jamais atingiu nos Estados Unidos ¿ nem mesmo Yarborough, seu ídolo de infância. "É excelente ter garantido um lugar na história", disse. "Mas ainda assim quero correr em busca de melhores resultados", encerrou.
Tradução: Paulo Migliacci ME.

- The New York Times


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