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Quarta, 24 de dezembro de 2008, 19h26 
Ídolo dos Giants exalta mudança de vida
 
Jere Longman
 
The New York Times
Livro do time da escola mostra foto de Brandon Jacobs
Livro do time da escola mostra foto de Brandon Jacobs
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O livro do time de futebol americano da Assumption High School contém uma fotografia do mais famoso estudante da escola, Brandon Jacobs, quando ele marcou seu primeiro touchdown como corredor do New York Giants, na NFL. Por sobre a foto, uma manchete proclama que "trabalhar com afinco sempre dá resultado".

Trata-se do mais fatigado dos clichês esportivos. Mas, no caso de Jacobs, representa igualmente um testemunho de perseverança em um momento difícil, quando ele simplesmente poderia ter desaparecido de vista em sua cidade natal, Napoleonville, Louisiana, da mesma maneira que a cana-de-açúcar cai dos caminhões e fica espalhada pelo acostamento da rodovia 1 durante a temporada da colheita, no final do ano.

Como menino, Jacobs conta, seu temperamento era explosivo e era bastante comum que ele arranjasse brigas. Aparentemente classificado como incorrigível, ele foi transferido para uma classe de alunos com problemas educacionais e parecia estar a caminho de uma vida de expectativas acadêmicas limitadas. Ao terminar o segundo grau, ele receberia um certificado de conclusão de curso e não um diploma. Com sorte, poderia se tornar mecânico ou funileiro. Ou poderia trabalhar em uma das usinas de cana ou em uma das indústrias químicas que têm fábricas instaladas ao longo do rio Mississipi.

Entrar para uma faculdade parecia fora de questão. E uma carreira no futebol americano profissional era quase certamente uma perspectiva que jamais se concretizaria.

Que a história tenha apresentado final diferente é uma prova da persistência de Jacobs e da rede de segurança oferecida por pequenas aldeias como Napoleonville, uma comunidade de 700 moradores situada à margem do Bayou Lafourche, cerca de 100 quilômetros a oeste de Nova Orleans. Parentes próximos e distantes não só acolhiam Jacobs em suas casas como o admoestavam quando necessário. Aos 10 ou 11 anos de idade, ele foi morar com uma tia que não admitia comportamento rude. Por isso, ele canalizou sua energia para a disciplina do futebol americano.

E encontrou apoio entre os educadores das escolas de segundo grau e os olheiros das universidades, que perceberam que ele não era de forma alguma estúpido, se bem fosse um sujeito turrão; e perceberam nele determinação, capacidade e uma qualidade afetuosa. Aos 26 anos, Jacobs conquistou um título no Super Bowl e continua estudando para obter seu diploma em sociologia - uma realização que quase todo mundo a não ser ele mesmo consideraria improvável.

"Para ele, teria sido fácil fracassar", diz Herbert Washington, amigo próximo de Jacobs e armador do time da escola de segundo grau no qual ele jogava, onde hoje ele faz parte da equipe de técnicos de futebol americano. "Ele tinha todos os motivos para desistir. Mas em lugar disso aproveitou da melhor maneira possível uma situação que começou tão desfavorável".

Na cidade, Jacobs é conhecido como "Toby", o nome de um personagem do seriado "Raízes". Trata-se de uma referência ao seu tamanho imponente. No segundo grau, ele já tinha 1,90 metro e pesava 108 quilos, apenas 12 quilos abaixo de seu peso atual. Porque sempre foi maior do que os demais garotos, ele costumava intimidar os colegas, no ensino primário e no ginasial - um valentão de escola. Mas costumava defender os amigos e era muitas vezes desafiado a se defender em seu bairro, conta Washington. Brigas eram freqüentes. Uma ou duas vezes, Jacobs e seus amigos vandalizaram carros.

"Tomar decisões estúpidas, andar com o pessoal errado", diz Jacobs. "Quando você cresce nesse tipo de situação, é difícil não passar parte da sua vida como uma pessoa desse tipo".

Talvez seu tamanho o fizesse sentir um certo desajeito quando era mais novo, e isso explicasse em parte seu gênio terrível, dizem os amigos. Talvez lhe faltasse autoconfiança porque ele ocasionalmente gaguejava quando ficava nervoso. Ou podia se sentir humilhado quando outras crianças zombavam dele e o provocavam por ele estar na classe dos alunos atrasados.

"Quando um aluno é enviado para a classe especial, as pessoas pensam que ele deve ser retardado, lento", diz Washington. "E isso certamente fazia com que ele tivesse ainda mais vontade de brigar".

No segundo grau, muito depois de Jacobs ter deixado as brigas no passado, os times adversários ainda continuavam tentando provocá-lo e levá-lo a perder a calma. "Ele sabe ler? Como é que vocês combinam as jogadas?", diziam os oponentes. Uma escola rival teria supostamente feito uma referência cruel à suposta falta de inteligência de Jacobs em uma reunião de torcida, conta Washington, com um sujeito interpretando o papel de um corredor que avançava sempre na direção errada.

Mas com o tempo Jacobs aprendeu a canalizar sua raiva para a estrutura que o esporte oferece. Janice Jacobs, sua mãe, fez o melhor que podia para criar bem um filho voluntarioso, conta Brandon. Mas ele foi morar com sua tia e tio, Dianne e Willie Cheavious, porque eles tinham dois meninos quase de sua idade. Começou a jogar futebol americano com os primos, e a respeitar as regras impostas pela tia, conhecida como Teesie. "Não vou servir de babá para você", ela disse ao sobrinho, explicando que se ele aprontasse na escola, o plano dela era chutar alguma coisa - e não estava falando de uma bola de futebol.

"Ele sabia que eu estava falando sério", diz Cheavious, 55 anos, especialista em serviços familiares e comunitários em um programa educacional da paróquia de Assumption.

Ainda que Jacobs se tenha tornado jogador profissional, ele continua a ser sobrinho de Cheavious, e tem a obrigação de apresentar uma atitude que honre sua cidade natal. Tradução: ele deve correr com a bola, marcar o touchdown, entregar a bola ao juiz e abrir mão de um de seus passatempos prediletos, bater boca com os adversários.

Depois que Jacobs discutiu com um jogador do Pittsburgh Steelers, em partida desta temporada, Cheavious e sua irmã, a mãe de Brandon, foram assistir a um jogo no Giants Stadium. Logo depois que ele as apanhou no aeroporto, Cheavious conta que deu um peteleco na cabeça do sobrinho e disse que "nunca mais quero ver aquilo".

Janice Jacobs ri com a história, e diz Brandon certamente entendeu o recado. "Ele jogou muito bem e seu comportamento foi exemplar", ela disse. O único momento em que ele apareceu demais foi quando jogou para a mãe a bola com a qual marcou um touchdown em uma vitória por 35 a 14 sobre o Dallas Cowboys.

Mesmo que uma lesão no joelho esteja prejudicando sua temporada, Jacobs começa parecer tão confiante na NFL quanto parecia na adolescência, uma época em que ele corria em postura ereta e procurava colisões com os defensores adversários, conta Don Torres, que foi seu técnico na Assumption Hugh.

O relacionamento entre eles quase terminou antes de começar. Quando Jacobs era ainda calouro, em 1997, ele foi promovido ao time principal da escola mas logo desistiu. Queria mais oportunidades de jogo, e de qualquer forma achava que fosse melhor jogador de basquete que de futebol americano, conta Jacobs. E o clima na cidade era quente e úmido demais para o futebol.

Torres imediatamente sentiu que a culpa era sua. Antes de Jacobs, ele jamais havia escalado um calouro diretamente no time principal. O menino tinha tamanho suficiente para jogar, mas ainda lhe faltava maturidade. "Eu simplesmente pensei que ele era um daqueles jogadores que não gostam de contato físico, apesar de seu tamanho imenso", diz Torres.

Mas o técnico reconsiderou quando Jacobs estava começando o segundo ano, e o acolheu de volta à equipe de futebol americano. A Assumption High começou a temporada de 1999 com três derrotas, mas Jacobs mudou de posição no ataque e a escola venceu sete partidas consecutivas. Com isso, ele recebeu uma carta da Universidade da Geórgia, que lhe oferecia uma possível bolsa. Isso levou Jacobs a mudar. "Eu consegui ver que estava a caminho de ser alguma coisa na vida", ele disse.

No terceiro ano, em 2000, Jacobs recebia a bola entre 30 e 40 vezes e foi o corredor mais eficiente do estado da Louisiana, com 3.025 jardas conquistadas ao longo da temporada. A Assumption High venceu suas 13 primeiras partidas naquele ano, mas terminou derrotada nas semifinais diante da John Curtis Christian School, uma potência do futebol americano colegial, instalada em um subúrbio de Nova Orleans. Depois da partida, Jacobs subiu nos ônibus da equipe da Curtis e cumprimentou os adversários um a um. Essa demonstração de espírito esportivo convenceu J. T. Curtis, técnico que venceu 23 títulos estaduais com a escola, de que Jacobs "tem chance verdadeira de sucesso". Ele acrescentou que "era perceptível que ele apreciava o jogo tal com deve ser jogado: de forma dura, mas com lealdade".

Jacobs era ágil e veloz, e seu peso não o atrapalhava em nada. E havia começado enfim a estudar nas classes convencionais de sua escola. "Todo mundo compreendia que ele era uma pessoa talentosa, e que merecia aquela oportunidade", diz Donna Alleman, coordenadora do currículo de educação especial na Assumption High naquela época.

Mas o esforço acadêmico que ele começou a demonstrar parecia ter surgido tarde demais. Faltavam a Jacobs os cursos de matemática, inglês e ciências que o tornariam elegível para seleção por um time de futebol americano de uma das grandes universidades. A carreira dele parecia encerrada. Mas a Universidade Auburn interveio e informou Jacobs de que ele poderia estudar no Coffeyville Community College, do Kansas, o que permitiria que ele conquistasse seu diploma de segundo grau e um diploma pré-universitário ao mesmo tempo. De lá, poderia se transferir a um curso universitário de quatro anos.

Jacobs concluiu seu último ano em Assumption, jogando basquete, e depois se mudou para Coffeyville, em março de 2001, conta Torres. As exigências acadêmicas eram elevadas e o clima era frio. Jacobs tinha saudade de casa. O primo Chad Cheavious insistia em que ele deveria agüentar, e não voltar para casa. E tia Teesie tampouco queria saber de queixas: ele precisava ter pulso firme e concluir o que havia começado.

E Jacobs conseguiu, sendo admitido na Universidade Auburn para o ano letivo e temporada de 2003. No entanto, teve de enfrentar a forte concorrência de dois outros corredores que faziam parte da equipe, Ronnie Brown e Carnell Williams, ambos mais tarde contratados por times da NFL. Por isso, Jacobs se transferiu para a Universidade do Sul do Illinois, e foi selecionado pelo Giants na quarta rodada do processo seletivo de 2005.

Ele é casado com Kim Jacobs, e os dois têm um filho chamado Brayden. Por insistência da mulher, Jacobs continuou os estudos. De acordo com sua tia, só lhe faltam 12 créditos para conseguir seu diploma em sociologia. "Estou muito orgulhoso dele", diz Torres, seu técnico no segundo grau. "Ele galgou as montanhas mais altas para chegar onde está".

Depois de sua vitória no Super Bowl, Napoleonville organizou uma parada para Jacobs, e ele pretende retribuir o presente nas próximas férias de verão. Torres diz que a Assumption High bem poderia usar uma sala de exercícios. Cheavious diz que o centro comunitário precisa de um laboratório de computação e de aconselhamento para drogados. "Quero colocar alguma coisa lá para a garotada", disse Jacobs, refletindo em voz alta. "Quadras de basquete. Aparelhos de ginástica. Criar acampamentos. Algo positivo. Não quero que os moleques achem que precisam arrumar encrenca só para terem o que fazer".

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times