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Sexta, 20 de fevereiro de 2009, 15h29 
Homens anônimos da NHL separam brigas e levam soco
 
Dave Caldwell
 
Getty Images
David Clarkson e Erik Reiz trocam socos em partida da NHL
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O jogo número 793 dos 1.230 que compõem a temporada da NHL, a liga profissional de hóquei sobre o gelo da América do Norte, incluiu uma troca de socos entre David Clarkson, do New Jersey Devils, e Erik Reitz, do New York Rangers. Os dois tiraram os capacetes e se atracaram, e depois conseguiram se equilibrar o suficiente sobre o gelo para trocar socos. Clarkson caiu sobre Reitz, pondo fim à briga.

» Veja fotos das brigas

Dois juízes, Tony Sericolo e Derek Nansen, chegaram rapidamente para separar Clarkson e Reitz e, mais importante, mantê-los separados. Cada jogador recebeu uma penalidade de cinco minutos pela briga, e os torcedores das duas equipes, no Prudential Center em Newark, os aplaudiram. Sericolo e Nansen mais tarde tiveram de separar nova briga, entre Mike Rupp, do Devils, e Colton Orr, do Rangers. Mas seu esforço passou quase despercebido.

É assim que vivem os juízes de linha do hóquei, os homens mais anônimos do rinque.

Eles separam brigas entre jogadores furiosos e se esforçam por evitar discos disparados em alta velocidade, mas a despeito do perigo eles ganham exatamente para não aparecer. O salário de um juiz de linha é semelhante ao dos árbitros, entre US$ 100 mil e US$ 300 mil ao ano: decente, mas não se pode compará-lo aos polpudos pagamentos recebidos pelos jogadores.

"O nosso trabalho não é sermos percebidos", diz Brian Murphy, 44, que está em sua 21ª temporada como juiz de linha da NHL e preside a associação dos árbitros da organização. "Ninguém, no final do jogo, vai dizer que fizemos um bom trabalho".

A intensificação da disputa por vagas de playoff, nessa altura do ano, torna cada decisão de arbitragem mais importante. Nos playoffs da Stanley Cup, uma decisão de arbitragem pode bastar para encerrar a temporada de um time ou levá-lo à próxima etapa.

Os jogos da NHL contam com equipes de arbitragem formadas por quatro pessoas. Os dois árbitros, que usam braçadeiras laranja sobre seu uniforme listrado, supervisionam o jogo e definem as penalidades. Os juízes de linha fazem quase tudo mais - deixam cair o disco para as situações de disputa de posse, marcam os impedimentos e as jogadas irregulares. Só não podem ter medo da possibilidade de se machucar.

"Caso você comece a se preocupar com essas coisas, prejudicaria seu trabalho", diz Sericolo, 40 anos. Ele vive em Altamonte, Nova York, perto de Albany, e tem três filhos; trabalha como juiz de linha da NHL desde 1998.

Os juízes de linha precisam se posicionar para decidir rápida e corretamente. Ocasionalmente, ficam no caminho dos jogadores. Em 9 de fevereiro de 2008, em uma partida entre o Rangers e o Philadelphia Flyers, o veterano juiz de linha Pat Dapuzzo terminou envolvido em uma colisão entre dois jogadores na linha azul.

Ele havia saltado para evitar um choque entre Steve Downie, do Flyers, e Fedor Tyutin, do Rangers. Mas Tyutin derrubou Downie, e a lâmina do patim deste cortou o juiz de linha no rosto.

Dapuzzo, 50 anos, morador de Rutherford, Nova Jersey, planejava deixar o rinque depois da temporada 2008/9, mas o jogo entre Flyers e Rangers foi o último em que trabalhou. Sofreu fraturas faciais e ruptura de nervos, e perdeu a maioria de seus dentes. O juiz de linha aposentado conta que ainda sofre com os efeitos de uma concussão.

"Há altos e baixos", disse Dapuzzo em recente entrevista por telefone. "Levei um tranco fortíssimo ao tomar aquele golpe no rosto".

A parte mais evidentemente perigosa do trabalho, porém, vem na separação de brigas entre os jogadores.

"Em geral, deixamos que briguem", diz Scott Cherrey, 32 anos, um canadense de Drayton que está em sua primeira temporada como juiz de linha da NHL. "Eles são pesos pesados, e quando querem brigar não há como separar. Mas precisamos garantir que a briga não se torne desleal ou arriscada".

Segundos depois da lesão de Dapuzzo, irromperam duas brigas entre o Flyers e o Rangers, e o juiz de linha restante teve de intervir.

"O esporte é físico, é rápido, e é preciso estar em ótima forma para fazer o trabalho", diz Sericolo.

Os árbitros costumam apitar entre 73 e 75 partidas a cada temporada regular, diz Murphy. São os primeiros patinadores a entrar no rinque antes do início de um período e os últimos a sair no final. Estão em movimento durante todos os 60 segundos de uma partida.

A maioria dos juízes de linha trabalha décadas sem sofrer lesões sérias. Ray Scapinello, 62, foi juiz de linha por 33 anos antes de se aposentar em 2004 depois de 2,5 mil jogos de temporada regular. Em novembro, Scapinello, conhecido como "Scamp", se tornou o 15° árbitro a ganhar espaço na galeria da fama do hóquei.

Perguntado em entrevista telefônica sobre o número de vezes em que havia sido atingido por um disco em sua carreira, Scapinello, que vive em Guelph, Canadá, respondeu com "incontáveis". Ele riu, e disse que ainda tinha "uma ou duas tatuagens" deixadas pelos discos de hóquei.

Os juízes de linha fazem o trabalho que fazem porque amam o hóquei. Não é incomum que, depois das partidas que apitam, vão juntos a um bar para assistir a um jogo noturno. Dapuzzo, mesmo depois de suas lesões, continua a treinar um time juvenil de hóquei de primeira qualidade, cujos jogadores incluem seu filho de 15 anos. "Não vou ficar sentado me achando um coitadinho", disse Dapuzzo.

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times