Com mais de 70 mil por jogo, Manchester tem melhor média da Inglaterra
Foto: Getty Images
Após o início na última quarta-feira, a série de cinco reportagens diárias sobre a viabilidade financeira do futebol, em sua segunda parte, mostra os principais formatos de administração dos clubes europeus de ponta e, principalmente, o que ser aplicado no futebol brasileiro.
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Manchester United, Milan, Liverpool, Inter de Milão, Juventus, Chelsea, Fenerbahce, Shakhtar Donetsk e CSKA Moscou. O que todos esses clubes europeus têm em comum? Se você respondeu elencos estelares, estádios sempre cheios, muitos títulos e grandes faturamentos, não errou. Mas faltou um detalhe importante: há, por trás de todos eles, um dono pagando a conta por tudo isso.
O modelo não é comum a todos os clubes europeus, mas especialmente em Itália e Inglaterra e os gigantes do Leste Europeu, a forma comum de administração é essa - o México, que tem a liga economicamente mais forte da América Latina, é outro caso. Apesar dos altos rendimentos em patrocínios, exploração de mídia, direitos de televisão e marketing, a grandeza é completada pelos investimentos particulares.
"Os clubes grandes na Itália sobrevivem porque recebem injeção financeira por parte do proprietário. O dono sempre entra com dinheiro para concluir a operação", explica Leonardo, diretor do Milan. E foi a partir desse modelo, abrindo as portas para grandes investidores, que o Campeonato Inglês saiu das cinzas e se transformou na terceira liga esportiva em faturamento do planeta, com US$ 5,5 bilhões (cerca de R$ 13,1 bi), ultrapassando a NBA.
Graças aos investidores que adquiriram os clubes, hoje o Inglês tem dez equipes entre as 30 que mais faturam em todo o planeta e pode pagar, aproximadamente, 1,4 bilhões de euros (R$ 4,2 bilhões) em salários para seus jogadores - na Itália, paga-se pouco mais que a metade desse valor. O sucesso fora de campo também fideliza os torcedores no país que inventou o futebol. Na última temporada, os estádios da primeira divisão por lá tiveram 93% de taxa de ocupação. Números que permitem aos ingleses receber o título de principal liga do futebol.
Entender as peculiaridades de cada país, porém, é fundamental para traçar um modelo próprio de sucesso para o futebol brasileiro. Na Inglaterra, os investidores e proprietários são de dimensão global, como o emirense Mansur Bin Zayed al Nahyan, do Manchester City, o norte-americano Malcolm Glazer, do Manchester United, e o russo Roman Abramovich, do Chelsea, mas esse quadro é diferente na Itália, por exemplo, onde Silvio Berlusconi e Massimo Moratti, respectivamente, usam Milan e Inter de Milão como caminho para outras aspirações.
"O que ocorre é que o futebol não é o fim, e sim o meio do negócio na Itália. Os grandes empresários italianos têm clubes que funcionam como plataformas. O futebol faz parte disso e de um contexto local, que é assim naturalmente. É uma ferramenta de comunicação, uma vitrine para um grupo maior. Isso causa problemas econômicos e a gestão financeira não é ideal", explica Paulo Velasco, publicitário especializado em gestão do futebol e com passagem pela Juventus.
Berlusconi, primeiro ministro da Itália e o homem por trás do Milan, por exemplo, é ainda o dono da Midiaset, império local de comunicação, e foi eleito pela revista Forbes como o mais rico homem italiano, com uma fortuna aferida em quase U$ 20 bilhões (cerca de R$ 47,5 bilhões).
Espanha é o modelo mais próximo do Brasil
Hoje, a realidade administrativa mais próxima dos clubes brasileiros é a dos espanhóis, onde não há donos e nem o aspecto de empresa, mas se mantém o caráter de instituição esportiva para gigantes como Real Madrid e Barcelona. Tentativas de abrir o Real para investidores, inclusive, já foram rechaçadas com vigor pelos torcedores merengues.
Na Espanha, repartida por rivalidades históricas regionais, cada clube tem sua identidade própria e retrata de maneira fiel a identidade da maioria de seus torcedores. Na capital Madri, por exemplo, o Real se porta como o representante da elite, enquanto o Atlético tem o proletariado como sua identidade. O orgulho catalão é indissociável do Barcelona e implica em todo o seu entorno. Desde o fato de ter o segundo maior quadro de associados do planeta à forma vistosa característica de jogo, pode se dizer que a equipe azul-grená é, como diz o próprio slogan, "mais que um clube".
"O futebol é reflexo da sociedade em cada país e isso ocorre na Espanha, em que passa pelos dois grandes. É um formato interessante, em que há uma alma clara, uma identidade, e o modelo de negócios é reflexo disso", observa Paulo Velasco, lembrando que os clubes espanhóis faturam uma enormidade com produtos licenciados, camisas e carnês antecipados de todos os jogos. Bem distante da realidade brasileira, ainda, com produtos piratas, cambistas e guardadores de carro, por exemplo, agindo com impunidade, tirando receita dos clubes e desvalorizando a imagem particular do produto futebol.
A possibilidade de importar alguns conceitos do modelo de negócios na Espanha não quer dizer que o Brasil não possa formar seu próprio formato para encontrar mais fontes de receitas e tornar o futebol financeiramente mais viável e menos deficitário. "A questão passa por profissionalização, remuneração aos dirigentes e cobranças por resultados. É difícil imaginar, por exemplo, os grandes de São Paulo com proprietários. Mas podem ter uma gestão profissional. Não é copiar e colar o que se faz lá fora, é ver como funciona e ter o zelo de adaptar à nossa realidade", defende Velasco.
- Especial para Terra

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