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 Mecenas bancam grandes europeus, mas Espanha pode ser modelo
12 de março de 2009 15h56 atualizado em 13 de março de 2009 às 10h08

Com mais de 70 mil por jogo, Manchester tem melhor média da Inglaterra. Foto: Getty Images

Com mais de 70 mil por jogo, Manchester tem melhor média da Inglaterra
Foto: Getty Images

Após o início na última quarta-feira, a série de cinco reportagens diárias sobre a viabilidade financeira do futebol, em sua segunda parte, mostra os principais formatos de administração dos clubes europeus de ponta e, principalmente, o que ser aplicado no futebol brasileiro.

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Manchester United, Milan, Liverpool, Inter de Milão, Juventus, Chelsea, Fenerbahce, Shakhtar Donetsk e CSKA Moscou. O que todos esses clubes europeus têm em comum? Se você respondeu elencos estelares, estádios sempre cheios, muitos títulos e grandes faturamentos, não errou. Mas faltou um detalhe importante: há, por trás de todos eles, um dono pagando a conta por tudo isso.

O modelo não é comum a todos os clubes europeus, mas especialmente em Itália e Inglaterra e os gigantes do Leste Europeu, a forma comum de administração é essa - o México, que tem a liga economicamente mais forte da América Latina, é outro caso. Apesar dos altos rendimentos em patrocínios, exploração de mídia, direitos de televisão e marketing, a grandeza é completada pelos investimentos particulares.

"Os clubes grandes na Itália sobrevivem porque recebem injeção financeira por parte do proprietário. O dono sempre entra com dinheiro para concluir a operação", explica Leonardo, diretor do Milan. E foi a partir desse modelo, abrindo as portas para grandes investidores, que o Campeonato Inglês saiu das cinzas e se transformou na terceira liga esportiva em faturamento do planeta, com US$ 5,5 bilhões (cerca de R$ 13,1 bi), ultrapassando a NBA.

Graças aos investidores que adquiriram os clubes, hoje o Inglês tem dez equipes entre as 30 que mais faturam em todo o planeta e pode pagar, aproximadamente, 1,4 bilhões de euros (R$ 4,2 bilhões) em salários para seus jogadores - na Itália, paga-se pouco mais que a metade desse valor. O sucesso fora de campo também fideliza os torcedores no país que inventou o futebol. Na última temporada, os estádios da primeira divisão por lá tiveram 93% de taxa de ocupação. Números que permitem aos ingleses receber o título de principal liga do futebol.

Entender as peculiaridades de cada país, porém, é fundamental para traçar um modelo próprio de sucesso para o futebol brasileiro. Na Inglaterra, os investidores e proprietários são de dimensão global, como o emirense Mansur Bin Zayed al Nahyan, do Manchester City, o norte-americano Malcolm Glazer, do Manchester United, e o russo Roman Abramovich, do Chelsea, mas esse quadro é diferente na Itália, por exemplo, onde Silvio Berlusconi e Massimo Moratti, respectivamente, usam Milan e Inter de Milão como caminho para outras aspirações.

"O que ocorre é que o futebol não é o fim, e sim o meio do negócio na Itália. Os grandes empresários italianos têm clubes que funcionam como plataformas. O futebol faz parte disso e de um contexto local, que é assim naturalmente. É uma ferramenta de comunicação, uma vitrine para um grupo maior. Isso causa problemas econômicos e a gestão financeira não é ideal", explica Paulo Velasco, publicitário especializado em gestão do futebol e com passagem pela Juventus.

Berlusconi, primeiro ministro da Itália e o homem por trás do Milan, por exemplo, é ainda o dono da Midiaset, império local de comunicação, e foi eleito pela revista Forbes como o mais rico homem italiano, com uma fortuna aferida em quase U$ 20 bilhões (cerca de R$ 47,5 bilhões).

Espanha é o modelo mais próximo do Brasil

Hoje, a realidade administrativa mais próxima dos clubes brasileiros é a dos espanhóis, onde não há donos e nem o aspecto de empresa, mas se mantém o caráter de instituição esportiva para gigantes como Real Madrid e Barcelona. Tentativas de abrir o Real para investidores, inclusive, já foram rechaçadas com vigor pelos torcedores merengues.

Na Espanha, repartida por rivalidades históricas regionais, cada clube tem sua identidade própria e retrata de maneira fiel a identidade da maioria de seus torcedores. Na capital Madri, por exemplo, o Real se porta como o representante da elite, enquanto o Atlético tem o proletariado como sua identidade. O orgulho catalão é indissociável do Barcelona e implica em todo o seu entorno. Desde o fato de ter o segundo maior quadro de associados do planeta à forma vistosa característica de jogo, pode se dizer que a equipe azul-grená é, como diz o próprio slogan, "mais que um clube".

"O futebol é reflexo da sociedade em cada país e isso ocorre na Espanha, em que passa pelos dois grandes. É um formato interessante, em que há uma alma clara, uma identidade, e o modelo de negócios é reflexo disso", observa Paulo Velasco, lembrando que os clubes espanhóis faturam uma enormidade com produtos licenciados, camisas e carnês antecipados de todos os jogos. Bem distante da realidade brasileira, ainda, com produtos piratas, cambistas e guardadores de carro, por exemplo, agindo com impunidade, tirando receita dos clubes e desvalorizando a imagem particular do produto futebol.

A possibilidade de importar alguns conceitos do modelo de negócios na Espanha não quer dizer que o Brasil não possa formar seu próprio formato para encontrar mais fontes de receitas e tornar o futebol financeiramente mais viável e menos deficitário. "A questão passa por profissionalização, remuneração aos dirigentes e cobranças por resultados. É difícil imaginar, por exemplo, os grandes de São Paulo com proprietários. Mas podem ter uma gestão profissional. Não é copiar e colar o que se faz lá fora, é ver como funciona e ter o zelo de adaptar à nossa realidade", defende Velasco.

Especial para Terra