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A cada dia, por uma hora, atletas de nível olímpico de todo o mundo têm um compromisso ao qual não podem faltar. A nadadora Dara Torres, que conquistou 12 medalhas olímpicas, encaixa esse horário entre seus treinamentos, seus afazeres pessoais e os cuidados com sua filha de três anos. Nicole Joraanstad, jogadora de curling, marca sua hora ao nascer do dia, mas diz que isso muitas vezes faz com que ela perca o sono. Bryan Clay, campeão do decatlo olímpico, prefere se colocar à disposição à noite, quando o mais provável é que esteja em casa com a família.
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Desde o dia 1° de janeiro, atletas de nível olímpico vêm tendo de marcar com três meses de antecedência um horário de uma hora por dia no qual os especialistas em testes de drogas saibam onde encontrá-los, de acordo com as novas regras da Agência Mundial Antidoping. E violar essas regras pode ter sérias repercussões. Perder três testes de drogas em um período de 18 meses conta como um teste de drogas com resultado positivo, e pode resultar em suspensão de um ou dois anos.
Porque o elemento surpresa é essencial para testes efetivos, os atletas também estão sujeitos a testes aleatórios, mesmo fora de competições, por 24 horas ao dia e sete dias por semana. E são testados ao competir. Jacques Rogge, presidente do Comitê Olímpico Internacional, disse que "o esporte hoje tem um preço a pagar pela suspeita". Mas alguns atletas afirmam que as regras foram longe demais.
"É absolutamente exagerado", disse Torres em entrevista por telefone. "Por que tornar o processo ainda mais trabalhoso quando já estamos sujeitos a tanta coisa? Chegamos a um ponto em que é preciso encontrar um meio-termo". Jamais haviam acontecido tantos protestos quanto à necessidade de testes fora dos períodos de torneio. Os atletas de quase todos os esportes, bem como os filiados a organizações como a Fifa, que regulamenta o futebol mundial, criticaram publicamente os regulamentos da agência.
Pelo menos uma contestação judicial às regras já está em curso. Um processo aberto por 65 atletas belgas, entre as quais a equipe de ciclismo Quick Step, uma das melhores do esporte, e seu astro Tom Boonen, alega que as novas regras representam violação das leis européias de defesa da privacidade. Ainda assim, a Agência Mundial Antidoping diz não ter recebido quaisquer queixas formais de atletas. Alguns deles, entre os quais a esquiadora alpina Lindsay Vonn, dizem preferir as novas regras.
Vonn afirmou que considera que os regulamentos são mais fáceis para ela porque só perderia um teste caso não viesse a ser localizada no endereço e horário previstos. Para ajudá-los a não perder testes, os atletas podem atualizar seus endereços e até alterar horários via mensagens de e-mail ou texto à agência antidoping. (Sob as regras anteriores, cinco atletas foram sancionados pela Agência de Doping dos Estados Unidos por terem perdido testes de drogas, de 2000 para cá.)
A tenista Venus Williams questionou a necessidade de a agência antidoping saber onde ela se encontra, quando esteja fazendo compras, por exemplo. "Creio que seja um sistema intenso demais", afirma. "Que pessoa dotada de livre arbítrio vai querer enviar mensagens informando sobre todos os seus paradeiros?", disse. A transição para as novas regras vêm sendo complicada, enquanto atletas de diferentes modalidades, culturas e países tentam aderir às mesmas regulamentações.
Em carta aberta publicada no mês passado no Reino Unido, 16 membros da equipe britânica de remo escreveram que as regras causavam "constante inconveniência e medo", e sugeriam que havia melhores maneiras de apanhar os trapaceiros.
Funcionários da Fifa declararam na semana passada que estavam esperando para saber se a agência antidoping reformularia suas regras. A Fifa quer que as regras sobre o paradeiro de atletas sejam aplicadas a times, e não a jogadores individuais, e que os futebolistas sejam testados apenas em seus locais de treino. A organização também afirma que os esportistas devem ficar isentos de testes durante suas férias.
Mas a expectativa é de que a agência antidoping não ceda, pelo menos por enquanto. "Não creio que decisões apressadas de mudar as regras atuais devam ser tomadas, mas a regra de horários certamente será reavaliada", disse Beckie Scott, ex-campeã olímpica de ski cross, pelo Canadá, e membro do comitê de atletas da agência antidoping. "Caso a resposta geral dos atletas seja negativa, teremos de reconsiderar".
David Howman, diretor geral da agência, disse que as regras haviam sido implementadas a fim de padronizar o sistema e as sanções, a fim de nivelar a concorrência. Ele afirma que as regras simplificam a vida dos atletas. Apenas os designados por suas federações internacionais ou agências nacionais antidoping como atletas de elite estão sujeitos às normas de horário.
Sob o sistema anterior, muitos atletas tinham de estar disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, ou podiam perder um teste. Agora, o horário de uma hora é escolhido pelo atleta a qualquer momento entre as 6h e às 23h.
"Não lamento pelos atletas, porque é isso que a vida trouxe para todos os nós", disse Howman. "As demais pessoas precisam enfrentar a segurança nos aeroportos, ter seus movimentos monitorados. Tudo isso porque um pequeno grupo de pessoas estragou as coisas para todas as demais". No passado, atletas, agentes ou técnicos podiam receber um telefonema dos responsáveis pelos testes notificando-os de que um deles aconteceria. Agora é proibido notificar os atletas com antecedência da visita da equipe de teste.
Para atletas como Joraanstad, que deve disputar a Olimpíada de Inverno de 2010 pela seleção americana de curling, isso representa problema, já que ela vive em um condomínio e o pessoal de teste precisa se anunciar na portaria antes de subir. "Muita coisa incômoda e estranha me passa pela cabeça quanto a esse novo sistema", disse Joraanstad, cuja hora designada começa às 6h. "Eu queria poder dizer que eles subissem até o terceiro andar e quebrassem a janela de alguém para chegar à minha casa. Jamais perderia um teste".
Os atletas olímpicos dos Estados Unidos assistiram a um vídeo no ano passado no qual as novas regras de localização eram explicadas. Havia ainda alguma confusão, Alguns atletas acreditavam que seriam testados apenas durante sua hora. Mas os testes aleatórios continuam a ser parte essencial do sistema. Clay, campeão do decatlo olímpico, descobriu isso quando a equipe de teste surgiu em sua academia fora da hora marcada. Até agora, ele não passou por nenhum teste realizado na hora definida por ele.
"Se existe alguma maneira de tornar o procedimento menos invasivo para os atletas, deveria ser encontrado", disse Clay, que foi voluntário em um programa da agência antidoping dos Estados Unidos que envolvia testes adicionai, no ano passado. "Queremos apanhar aqueles que trapaceiam, mas também queremos levar uma vida normal, ou o mais normal possível".
Um comitê independente da União Européia para a proteção de dados e da privacidade vai divulgar um parecer sobre o regulamento no começo de abril.
Kristof de Saedeleer, o advogado que representa os atletas no processo coletivo belga, diz que o novo regulamento é "repressivo demais e desproporcional quanto ao direito à privacidade". "Agora os atletas estão em prisão domiciliar uma hora por dia", ele disse. "Depois, ficarão sujeitos a isso 24 horas por dia. Os atletas desejam sinalizar que as regras atuais foram longe demais.
Os queixosos no caso, praticantes de esportes tão diversos quanto o ciclismo vôlei e futebol, apóiam testes fora de competição, mas não a qualquer custo, disse. Ainda assim, há atletas que não questionam os novos requerimentos. Ryan Lochte, três vezes medalha de ouro na natação olímpica, perdeu dois testes no ano passado por não atualizar sua localização. Um terceiro teste perdido representaria suspensão automática, e ele perderia a Olimpíada de Pequim. Agora, seu assistente cuida das atualizações.
Lochte diz que as novas regras agravam o estresse da vida de um atleta, mas valem a pena. "As agências antidoping só estão tentando manter nossos esportes o mais limpos que puderem", disse. "Assim, não creio que seja exagero lhes dar uma hora por dia se você deseja honestamente provar que está limpo".
Tradução: Paulo Migliacci ME.
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