| Getty Images |
 Furacão Katrina causou estragos em Nova Orleans em 2005 |
|
Enquete |
Os EUA falharam na recuperação de Nova Orleans?
|
 |
|
|
 |
Busca |
|
Busque outras notícias no Terra:
|
 |
|
Bradley Sylve está na posição familiar que os velocistas tomam ao início de uma prova, na área de treinamento da South Plaquemines High School - os pés na base de apoio, o queixo curvado na direção do peito. Mas há algo de estranho: a linha de partida fica em um campo de futebol e não em uma pista de atletismo.
» Russa de 18 anos bate recorde mundial nos 50 m costas
Que Sylve tenha vencido as provas dos 100 e 200 m no campeonato estadual de atletismo da Louisiana no ano passado, quando ainda calouro, já impressiona o suficiente, bem como o fato de que ele é um dos dois corredores mais rápidos dos Estados Unidos em sua faixa de idade.
Mas o que mais impressiona sobre a velocidade que Sylve vem demonstrando é que South Plaquemines não tem pista de atletismo. O oval mais próximo fica a 65 quilômetros, nos subúrbios de Nova Orleans. Durante o ano escolar, ele só corre em pistas com superfície preparada quando participa de competições.
Todo o treinamento de Sylve como velocista acontece no campo de futebol americano da South Plaquemines High School, e ele usa chuteiras em lugar de sapatilhas de corrida, o que limita sua capacidade de refinar as partidas balísticas, na prova dos 100 m, e torna impossível ensaiar exatamente o percurso da curva nos 200 m.
"Isso não nos incomoda", diz Sylve, que completou 16 anos em janeiro, tem 1,78 metro e pesa 75 quilos. "O que importa é correr".
O sucesso dele reflete a perseverança e o espírito de improvisação das aldeias das regiões baixas da paróquia de Plaquemines, uma região pesqueira e petroleira rural e isolada que foi devastada pelo furacão Katrina em 2005.
A recuperação ainda está longe de completa, na península, que fica no ponto em que o rio Mississipi encontra o Golfo do México. Um parque de trailers da Agência Federal de Administração de Emergências (Fema), nas proximidades, ainda abriga uma dúzia de famílias que não puderam voltar às suas casas, alguns caixões do cemitério local não foram sepultados de novo e a pequena população está ainda mais vulnerável a tempestades costeiras devido à erosão.
Ainda assim, há um persistência na comunidade que se evidencia principalmente no apego ao esporte. A South Plaquemines High School, que tem 208 alunos e adotou o desafiador nome "Hurricanes" furacões para suas equipes de esportes, venceu os campeonatos estaduais de futebol americano em 2007 e 2008, e está na disputa pelo título estadual de atletismo em 2009.
Treinar para provas de velocidade em uma superfície gramada não é incomum, em certas regiões. Usain Bolt, da Jamaica, o homem mais veloz do mundo, iniciou sua carreira em uma pista de grama, com curvas e faixas marcadas com piche. A South Plaquemines High School não conta nem com essa formalidade mínima - tem apenas um campo de futebol americano, cuja grama não é nem mesmo aparada antes da temporada do futebol.
A escola consolidada, formada em 2006, recebe estudantes das comunidades de Port Sulphur, Buras e Boothville-Venice, todas devastadas pelo furacão. Antes do Katrina, existia uma pista mal cuidada de atletismo na região, em Fort Jackson. Mas a tempestade inundou os baixios da paróquia de Plaquemines com seis metros de água, e isso destruiu o revestimento de borracha da pista e rachou o cimento que o embasa. Agora, só resta o campo de futebol americano.
Existe pelo menos uma vantagem em treinar na grama, diz Cyril Crutchfield, técnico de futebol americano e atletismo da escola: "A grama evite cortes em caso de queda", ele diz. "A única desvantagem que vejo é que ela não permite que ele se aperfeiçoe em alguns fundamentos. Por mais que trabalhe, é impossível simular a curva".
Por isso, o técnico improvisa. Usando cones e cavaletes empregados para treinar futebol americano, ele delimita uma curva em um dos extremos do campo, para que Sylve e seus colegas de equipe possam treinar para os 200 metros rasos. Para praticar a largada nas provas de 100 metros, ele fixa as bases na linha inicial do campo de futebol americano.
Provas de velocidade não dependem de velocidade apenas, mas de força e durabilidade. Os Hurricanes treinam forte com pesos. No inverno e no verão, quando começa o condicionamento físico para o atletismo e o futebol, respectivamente, eles também correm séries repetidas de 200, 500 e 800 metros, bem como provas de 300 metros com obstáculos. Também galgam correndo e descem correndo a barragem de quase cinco metros de altura que contém as águas do Mississipi.
Como no caso de muitos velocistas jovens, diz Crutchfield, Sylve precisa levar o treinamento mais a sério e continuar a aperfeiçoar sua largada, com uma passada maior da perna direita e conduzindo o joelho esquerdo à frente, e não para cima. Em fevereiro, em uma prova preliminar para o campeonato estadual de atletismo em pista coberta, Sylve registrou tempo de 6s31 para a prova dos 55 m, o terceiro resultado mais veloz para a distância na história do atletismo da Louisiana.
Tradução de Paulo Migliacci.
|