| The New York Times |
 Sem-tetos disputam futebol em Nova York |
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Os jogadores cabeludos, uniformizados precariamente em camisas vermelho tijolo e chuteiras usadas, provêm do Haiti, Togo, México, Honduras e do Harlem. Já o time de camisas pretas ostenta rostos lisos, cabelos bem aparados, uniformes novos e diplomas de universidades como a Carnegie Mellon, Syracuse e Pace, além de escolas na China e na Austrália.
A maioria dos jogadores de preto são colegas de trabalho no Royal Bank of Canada, e parte do elo que os une se deve à nuvem negra que pende sobre o mercado financeiro. O time vermelho, igualmente, tem circunstâncias financeiras como traço de união: todos eles vivem juntos no mesmo endereço temporário, um abrigo para moradores de rua em Wards Island.
Certa noite recente, as duas equipes se defrontaram no Chelsea Piers, talvez o complexo de futebol mais procurado pelos jovens profissionais de Manhattan, e agora também a sede das partidas do mais novo time da Street Soccer USA, uma rede que inclui times formados por moradores de rua em 16 cidades dos Estados Unidos, criada em 2005 em Charlotte, na Carolina do Norte, e controlada pela Help USA, uma rede nacional de serviços aos moradores de rua.
A idéia por trás dos times de futebol de moradores de rua é a seguinte: tome um grupo de pessoas pobres, desconectadas de qualquer ritmo rotineiro de vida e desprovidas de muitas expectativas e futuro ou de formas de exercício físico. Acrescente futebol.
Em Ann Arbor, Michigan; Austin, Texas; Minneapolis; St. Louis; e Washington, o programa leva crédito por ajudar participantes a encontrar alternativas à moradia de rua. Existe até mesmo uma Copa do Mundo dos moradores de rua, cuja edição deste ano, a sétima, acontece em setembro em Milão, na Itália.
"Quando estou em campo, sinto que não posso fazer nada de errado", disse Dexter Burnett, 47, que jogava futebol em sua Jamaica natal, onde a velocidade que ostentava em campo lhe valeu o apelido de "Pepper" (pimenta).
Ele foi demitido no final do ano passado de um emprego como assistente em um consultório médico. "Jogar me permite deixar de lado a preocupação com a minha situação, por um instante, e simplesmente relaxar e aproveitar o momento".
A liga de futebol de moradores de rua é idéia de Lawrence Cann, 31, que já esteve entre os melhores jogadores do futebol universitário norte-americano, pelo Davidson College, e se transferiu no final de 2008 de Charlotte para Nova York, que abriga uma das maiores populações de rua dos Estados Unidos, estimada em 35 mil pessoas, mas até agora não tinha time estabelecido de futebol de pessoas de rua.
Com a ajuda de alguns voluntários, Cann limpou um empoeirado ginásio que vinha sendo usado como armazém, no abrigo de Wards Island, um pedaço de terra no meio do East River. Ele recrutou alguns poucos jogadores, relutantes, prometendo que não seriam punidos por desrespeitar o horário de retorno do abrigo, 22h.
Em um dos primeiros treinos, certa noite chuvosa de março, era evidente que pelo menos duas das pessoas reunidas em um círculo haviam bebido. A maioria dos presentes não falava muito inglês. E nem mesmo sabiam os nomes uns dos outros.
"Ei, cara", chamou um jogador antes de fazer um passe desajeitado que passou muito longe do alvo.
Percebendo a situação, Cann importou uma prática conhecida nos treinos iniciais de futebol de quase qualquer equipe em início de temporada: antes de fazer um passe, o jogador tem de chamar pelo nome o recebedor.
Ele instruía a equipe em inglês e espanhol. Disse que quem aparecesse bêbado ou chapado para os treinos não poderia participar naquela noite, mas estava autorizado a voltar sóbrio na semana seguinte. E entre corridas, passes e chutes, os jogadores tinham de conversar com o técnico sobre os seus objetivos fora de campo, sua busca de empregos e seu estado de espírito.
Das 30 pessoas que apareceram para os treinos, apenas seis deixaram, de voltar para novas sessões.
"É preciso de alguma coisa que ajude a manter a mente ocupada, por aqui¿, disse Woods Matthews, 45, um participante frequente, cujas longas tranças voam enquanto ele corre em campo. "É por isso que as pessoas ficam tão irritadas no abrigo. Não temos como nos exercitar, estamos presos lá, e surgem brigas".
Enquanto os jogadores procuravam superar suas dificuldades pessoais, Cann começava a procurar oponentes.
O Chelsea Piers, com suas modernas instalações, está entre os mais caros dos complexos de futebol de Nova York - um pacote de 10 partidas custa US$ 2,45 mil-, e normalmente tem uma lista de espera de mais de 25 times. Mas os problemas da economia levaram diversas equipes patrocinadas por empresas a deixarem de lado seus horários. Cann conseguiu obter doações para cobrir o custo de inscrição, a Nike doou equipamentos e o Chelsea Piers forneceu as camisas, como faz para todas as equipes que jogam lá.
Chegar ao local é uma viagem de 70 minutos, para a equipe do abrigo: tomam o ônibus M35 até o Harlem, um metrô para o centro, e depois caminham 800 metros pela West Side Highway.
Os jogadores de rua perderam sua primeira partida por 14 a quatro, jogando sem quaisquer reservas. Na semana seguinte, os adversários eram funcionários da Bloomberg, a companhia de informações financeiras, cujos jogadores pareciam curiosos, de forma polida.
"Acho que, por serem moradores de rua, eles talvez joguem de modo agressivo", previu Louis Brun, 22.
O Street Soccer NY perdeu de novo, por 11 a cinco. Enquanto as equipes se dirigiam ao vestiário, Barnett puxou papo com um adversário, perguntando se a Bloomberg estava contratando.
"Se o meu pessoal puder ir a campo e se sentir confortável conversando com pessoas novas, sem se frustrar, isso vai ajudá-los a se integrar", disse Cann. "Um dia terminarão por conseguir empregos e por manter seus apartamentos".
Ele já estava percebendo progressos. Um jogador deixou o abrigo e voltou a morar com a família. Outro, Jarvis Strose, que se recusava a participar de reuniões com assistentes sociais e sempre violava o horário de retorno, em seus dois anos como morador de rua, chegou no horário em todos os treinos semanais. Um assistente social disse a Cann que um terceiro homem, que desenvolveu um distúrbio nervoso depois de ser espancado na prisão, estava começando a se recuperar do trauma devido ao exercício.
Na terça-feira, o Street Soccer NY enfrentou o Gunners, um time composto principalmente por funcionários do Royal Bank of Canada.
Chris Lodgson, 25, que joga na zaga central da equipe dos moradores de rua, veio direto de seu novo emprego no café da Bloomingdale. Estava planejando se mudar do abrigo para um apartamento em Washington Heights, mas continuará a jogar pelo Street Soccer, que ele diz ter sido fundamental para que recuperasse o prumo.
"Não quero dizer que tudo voltou ao normal, mas voltei a me sentir como eu mesmo", afirma. "Duas semanas atrás, em campo, foi a primeira vez que esqueci meus problemas. Esqueci minha situação, e o que eu estava passando".
Na terça, o time de vermelho saiu em vantagem, com passes fluidos e os jogadores se chamando pelos nomes para preparar jogadas. O pessoal que estava no campo vizinho se aproximou da cerca para assistir.
"É o time dos moradores de rua?", perguntou um espectador, erguendo as sobrancelhas. "Uau, eles jogam bem".
Strose marcou seu quarto gol na partida, e saiu do campo ofegante. Matthews, que o substituiu, logo errou um chute a gol, mas os colegas de time o encorajaram.
"Quando começamos, eles não sabiam jogar", diz Cann. "Não sabiam passar. Não confiavam uns nos outros".
Placar final: moradores de rua 10, banqueiros quatro. Cann, cercado pelos jogadores alegres, parecia aliviado. "Realmente precisávamos de uma vitória", ele disse. Ainda aplaudindo, ele disse aos jogadores: "Cumprimentem os adversários!".
Tradução de Paulo Migliacci
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