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Mais Esportes
Segunda, 11 de maio de 2009, 16h51  Atualizada às 16h52
Política entra nos ringues de luta livre
 
Michael Brick
 
The New York Times
Luta livre é um dos esportes mais populares do país
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A publicidade falava em "invasão". Um ônibus fretado transportando duas dúzias de lutadores praticantes do estilo conhecido como "lucha libre" percorreu a Califórnia nas últimas semanas a fim de organizar combates repletos de máscaras coloridas, insinuações sexuais cômicas e um estilo de luta frenético e acrobático que levou a luta livre a se tornar um esporte quase tão popular quanto o futebol, no México. Os principais lutadores são musculosos, bonitos e ostentam longos cabelos, e parecem promissores para o mercado dos Estados Unidos.

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Mas o cerne da disputa envolve um conflito mais profundo que gira em torno das tensões raciais e estereótipos de uma comunidade imigrante oprimida. Entre os lutadores, os mais vis dos vilões são os membros da Legión Extranjera, gringos que insultam abertamente os espectadores, seu idioma e seu país. A invasão, nesse sentido, se refere à chance de que os heróis mexicanos consigam expulsar a Legião Estrangeira de seu território.

Da mesma forma que as ligas norte-americanas de luta livre desfrutaram de imensa popularidade nos dias finais da guerra fria, com personagens soviéticos pérfidos como Nikolai Volkoff e Krusher Krushchev, os empresários da lucha libre estão tentando atualizar sua narrativa e enquadrá-la aos nossos dias. Com a política de imigração e a violenta guerra das drogas no México ocupando a atenção das autoridades, o confronto caricato entre sul e norte no ringue encontrou uma audiência ávida na Califórnia, que abriga cerca de 37% dos 12 milhões de mexicanos que vivem nos Estados Unidos, de acordo com estimativa do Instituto de Política de Migração, uma organização sem fins lucrativos.

"Estamos em estágio inicial de nosso projeto nos Estados Unidos, e ainda concentrados em uma audiência hispânica", diz Steven Ship, um dos empresários, antigo executivo da indústria fonográfica que fechou acordo com a AAA, a principal liga mexicana de luta livre, para promover o esporte nos Estados Unidos. "Não procuramos a grande mídia, e não fazemos publicidade nela. Queremos que nossos combates sejam a coisa autêntica, tal como no México".

Aqui em Sacramento, uma cidade que ocupa o 19° posto no ranking de residentes legais mexicanos nos Estados Unidos, os empresários atraíram quase seis mil espectadores para uma noitada de combates, em um sábado do final de março. Os ingressos custavam US$ 20 ou mais, ainda que houvesse entradas gratuitas para algumas crianças. Daqui, os lutadores prosseguiram para San Jose, Los Angeles e San Diego, todas elas cidades que estão entre as 11 maiores comunidades de imigrantes hispânicos nos Estados Unidos, de acordo com o Departamento de Segurança Interna.

"É bom para o povo mexicano", disse Hugo Navarro, um dos espectadores. Morador de Stockton, Califórnia, ele estava com o filho Daniel, 5, e percorria a Arco Arena para tirar fotos com os lutadores. "É tradicional. E é um espetáculo para as crianças".

Entre os lutadores o tema da invasão era preservado cuidadosamente.

"É bom que as crianças os admirem, porque eles são exemplos", disse Alycia Armstrong, 20, que trabalha como anunciante de rounds nos combates, em um patriótico, mas quase invisível, biquíni vermelho, branco e verde - as cores do México.

A lucha libre não é uma competição real. Mas envolve muito improviso, boa dose de violência e considerável atletismo. Luchadores como Rey Misterio conseguiram encontrar espaço nas ligas profissionais de luta livre dos Estados Unidos, mas as produções mexicanas completas não receberam muita atenção no mercado norte-americano, a não ser em forma de paródia cinematográfica.

O fundador da AAA, António Peña, sucumbiu a um ataque cardíaco em 2006. No ano seguinte, seus herdeiros concordaram em enviar luchadores para tomar parte da turnê Warped, que envolve rock pesado, bebidas energéticas e muita cara feia. Os mexicanos atraíram a atenção, nem que fosse por parecerem tão bizarros.

Para a turnê da invasão, os organizadores programaram cinco combates por noite. O tema era uma trama de marketing que também funcionava como trama. Na lucha libre mexicana, a ação apenas pontua uma narrativa melodramática que envolve lealdades inconstantes, alianças complexas e um clima de profunda suspeita.

O primeiro combate envolvia Pimpinela, um lutador vestido de mulher que humilha os oponentes com beijos escandalosos, e seu parceiro, Mascarita Sagrada, que combate de máscara e tem apenas 1,38 metro de altura. O último opunha os astros La Parka e Mesias a equipes de vilões conhecidas como Black Family e Psycho Circus.

Entre esses dois combates, a principal batalha envolvia um duelo com a Legião Estrangeira. No ringue ao menos, o confronto vai além da caricatura racial, porque diversos membros da legião são latinos traidores e o campeão do lado mexicano, Vampiro, na verdade se chama Ian Hodgkinson - um canadense branco de 41 anos de idade que ganhava a vida como músico em bandas de glam rock de Los Angeles nos anos 80 antes que se reinventasse em forma de luchador. Como ele se tornou o defensor da honra mexicana nos ringues é algo que só uma canção folclórica poderia explicar.

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times