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 Flagrado com cachimbo de maconha, Phelps busca novos caminhos |
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Conquistar múltiplas medalhas de ouro seria como um parto: um esforço muito intenso para a Olimpíada de Pequim, seguido por uma pausa e depois um segundo período de intenso esforço para os jogos de 2012 em Londres.
Era esse o plano básico definido por Bob Bowman, o técnico de Michael Phelps, e aprovado por sua mãe, Debbie. E funcionou com perfeição. Ao longo de nove dias, na Olimpíada do ano passado, Phelps não cometeu quaisquer erros e superou o recorde do nadador Mark Spitz, conquistando oito medalhas de ouro.
Já que a parte de alta dificuldade do plano havia sido completada com perfeição, parecia haver menos necessidade de uma rede de segurança. Bowman iniciou a construção de sua cocheira no norte de Maryland e retomou as atividades como técnico de natação. Debbie Phelps passou a dedicar mais tempo a escrever suas memórias e ao trabalho como diretora da Windsor Middle School.
Pela primeira vez em sua vida, Phelps, 23, tinha tempo para ampliar seus interesses e seu círculo de influência.
Mas a idéia era dar a ele mais espaço para respirar, não tragar. Em fevereiro, uma foto de Phelps segurando um cachimbo de maconha começou a circular. Bowman estava errado em sua estimativa: nadar não seria a parte mais difícil do processo para Phelps. Definir seu caminho em terra sem orientação é que seria o verdadeiro problema.
Por quase 12 anos, Phelps havia sido protegido quase hermeticamente contra o mundo exterior. Nada em sua vida passava sem monitoração - do ritmo cardíaco às atividades sociais.
"Eu tinha esse objetivo gigantesco, e o atingi", disse Phelps na última semana. "Para poder fazer o que fiz, minha vida na juventude teve de ser como foi".
O plano que fez dele o mais perfeito nadador da história tinha uma falha, porém. Phelps se tornou uma pessoa unidimensional, alguém que, como ele mesmo admite, fica perdido sem a estrutura de seu esporte.
"A barganha é que ele não teve algumas das experiências que as pessoas costumam ter", diz Bowman. "Imagino que a questão seja decidir o que fazer a partir daqui. Creio que seja nisso que ele está trabalhando agora, na expansão de seus horizontes para além da natação".
A dimensão da tarefa é imensa - imagine não ter nem mesmo 25 anos e se ver forçado a descobrir como tornar os próximos 50 anos de sua vida significativos.
"Acredito que haverá muita coisa em minha vida que me animará", disse Phelps. "Os últimos 12 meses trouxeram algo que eu quis durante toda a minha vida e enfim consegui. Creio que no futuro outros interesses e objetivos terão a primazia em minha vida".
Phelps está explorando um ou dois novos caminhos. No ano passado, ele e Bowman compraram o Meadowbrook Aquatics, o complexo de esportes aquáticos que serve de base ao North Baltimore Aquatic Club. O objetivo é fazer dele uma academia de natação de classe mundial, mais ou menos como a academia de beisebol operada ali perto por outra lenda do esporte, Carl Ripken Jr.
"Consigo antever o empresário em que Michael vai se tornar nos próximos quatro a oito anos", diz Debbie Phelps.
E há também o golfe. Phelps disputou sua primeira partida algumas semanas atrás, e se divertiu muito, diz. Ele estava como que invisível, ainda que ao ar livre, e não havia um fã ou celular com câmera por perto.
Com três colegas de escola do segundo grau, os três golfistas entusiásticos, como testemunhas da façanha, Phelps completou a pista em 115 tacadas. "Eu disse a eles que assim que aprendesse melhor, iam penar para me enfrentar", conta Phelps, rindo.
Na quinta-feira passada ele estava treinando com pesos no Loyola College quando olhou pela janela e percebeu que a chuva tinha parado e o sol brilhava entre as nuvens. "Vou correr para a casa, pegar meus tacos e vou para a pista de golfe", disse a Todd Patrick, um de seus parceiros de treinamento.
Bowman e Debbie Phelps consideram que o golfe seja uma maneira de Phelps expandir sua rede de contatos e ganhar traquejo social. "Ele pode jogar golfe com os presidentes de todas as empresas norte-americanas, se quiser", disse Bowman. "Vai poder interagir com pessoas, o que acho ótimo".
Depois que a fotografia da festa começou a circular, Phelps poderia ter deixado de nadar em definitivo, e chegou a pensar nisso. Mas naquelas circunstâncias teria sido menos uma aposentadoria que um exílio, e desistir nunca foi uma de suas características.
Além disso, "ainda amo nadar", disse Phelps, que está inscrito para o Grande Prêmio de Natação dos Estados Unidos, em Charlotte, Carolina do Norte, neste final de semana - a sua primeira competição desde Pequim. O plano dele é se aposentar, definitivamente, depois dos jogos de 2012. Ele não sabia o que responder quando um televisor ligado em um canal de esportes informou que o armador Brett Favre, um gigante do futebol americano, estava considerando voltar a jogar depois de sua segunda aposentadoria. Phelps chamou Bowman, apontou para a tela e disse. "Isso nunca vai acontecer comigo".
Quando chegou a hora de fazer flexões, Phelps colocou um colete com pesos de 20 quilos e perguntou aos colegas de equipe quantas flexões eles tinham feito. Depois, com os braços trêmulos pelo esforço, ele se esforçou para fazer mais.
Na piscina, Phelps não é introspectivo. Quando perguntado se a natação era uma expressão de sua vida ou um refúgio contra o que acontece fora das piscinas, ele respondeu com olhar sem expressão, dizendo que "nunca nem pensei sobre isso".
Mas ele já pensou que talvez algumas pessoas venham a lembrá-lo mais por um cachimbo de maconha do que por todas as duas medalhas olímpicas de ouro. "Foi um erro estúpido, com o qual terei de conviver pelo resto da vida", disse Phelps, acrescentando que "se as pessoas encaram com reprovação algumas das coisas que fiz, ou pensam menos de mim por conta delas, é algo que não me é possível controlar".
Muita coisa está além de seu controle, hoje. Entre as sessões na água, em um treinamento recente, Phelps perguntou a Bowman se o técnico já havia comido no Sullivan¿s, um restaurante famoso pelos filés. "Não", respondeu Bowman, "mas sei que você já esteve lá".
Phelps iniciou um novo percurso na piscina. "Como você sabia?", ele perguntou, ao terminar. "Bem", disse Bowman, "você esteve lá com 14 amigos, comeu um filé à Nova York, dividiu uma porção de frutos do mar com o pessoal da mesa e todo mundo parece ter se divertido muito".
Phelps ficou boquiaberto. Bowman disse que a visita ao Sullivan¿s havia surgido em seus alertas do Google, que ele utiliza para acompanhar as notícias sobre Phelps. "Onde quer que você vá", Bowman lembrou ao pupilo, "estará criando notícia".
Quando Bowman descobriu sobre a foto incriminadora, tirada em uma festa fechada na Universidade da Carolina do Sul, em novembro, ficou furioso. "Essa foi uma das piores decisões que você poderia ter tomado", disse.
O técnico não se deixou convencer pela explicação de Phelps, de que acreditava estar entre amigos. Lembrou ao pupilo que ele não pode ter certeza de quem realmente o apoia, agora.
"Michael quer conhecer pessoas e se abrir um pouco para elas, mas isso simplesmente não funciona", disse Bowman. "É preciso que ele sempre considere todo mundo com ceticismo, o que eu considero um pouco triste".
Bowman não aceita a idéia de que Phelps tenha escapado sem muito problema ao incidente. A federação nacional de natação dos Estados Unidos o suspendeu por três meses, com base apenas em provas circunstanciais e não em qualquer teste de drogas que ele tenha falhado.
"Imagine se todas as pessoas no mundo fossem informadas quanto a um dos momentos privados de sua vida sobre as quais você se sente embaraçado", disse Bowman. "Você consegue imaginar que, em qualquer lugar do mundo a que vá, as pessoas saberão a respeito disso e terão uma opinião quanto a você? Creio que esse seja um preço muito alto a pagar".
O fato de que Phelps faturou dezenas de milhões de dólares em contratos publicitários deveria fazer diferença? Cada contrato assinado significava que ele estava essencialmente concordando em personificar a melhor imagem que os Estados Unidos fazem de si mesmos ¿ o espírito de determinação, a pureza de propósitos, o senso de dever.
"Só porque você ganha muito dinheiro não significa que a pessoa tenha de ser perfeita 24 horas por dia", diz Bowman. "Ganhar muito dinheiro não faz de ninguém um super-homem".
Nos últimos meses, Debbie Phelps muitas vezes teve vontade de gritar "por que vocês não deixam meu menino ser humano?" Mas é esse exatamente o ponto. O plano mestre original, ainda que fosse brilhante, não levava em consideração o fato de que Michael é um simples mortal.
Tradução de Paulo Migliacci.
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