| The New York Times |
 Vitória sobre astro da natação não faz francês esquecer Jogos |
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O francês Fred Bousquet não hesitou ao se ver nadando na raia ao lado de Michael Phelps, domingo à noite. Aproveitando sua vasta experiência, ele conquistou larga vantagem nos 50 metros da prova de 100 metros em estilo livre do torneio Charlotte UltraSwim, e venceu sem ser ameaçado pelos concorrentes.
A margem de vitória de Bousquet foi de 82 centésimos de segundo com relação a Phelps, o que equivale a uma derrota acachapante, como se Roger Federer perdesse sem vencer sequer um game em uma partida preparatória para o Aberto da França.
Mas a vitória, por melhor e mais gratificante que tenha sido, não mudou a história. Quando os nadadores deixaram o Centro Aquático do Condado de Mecklenburg, Phelps, 23 anos, continuava a ser o vencedor de oito medalhas de ouro na Olimpíada de Pequim, enquanto Bousquet, 28 anos, ainda era um dos quatro excelentes nadadores franceses que fracassaram em impedir sua conquista.
Nove meses depois dos jogos, Bousquet continua a questionar a lógica dos dirigentes da natação francesa logo antes da prova do revezamento 4 x 100, que segundo ele custou à equipe sua chance de conquistar a imortalidade.
"Eu considero a federação responsável pela derrota", disse.
A busca da perfeição que Phelps encetou na China deveria ter se encerrado assim que começou. Depois de vencer nos 400 metros medley, Phelps era membro da equipe dos Estados Unidos na prova de revezamento 4 x 100 metros em estilo livre, e no segundo dia da competição os norte-americanos chegaram à final em considerável desvantagem diante dos favoritos, os franceses.
Nenhuma equipe de revezamento francesa havia conquistado o ouro olímpico, mas essa história estava por mudar. A julgar pelos seus tempos nas eliminatórias, os franceses pareciam invencíveis. E nos dias anteriores à prova, era assim que se sentiam. "Estávamos muito confiantes", disse Bousquet. "Talvez demais".
No período de treinamento pré-olímpico, os nadadores determinaram a ordem que prefeririam para os revezamentos. "Fomos nós que nos reunimos e discutimos todas as combinações concebíveis", afirmou Bousquet.
Amary Leveaux, decidiram, deveria ser o primeiro a entrar na água, a fim de aproveitar ao máximo suas largadas fantásticas. Depois, contrariando as convenções do esporte, viria Alain Bernard, que havia estabelecido um recorde mundial para os 100 metros estilo livre cinco meses antes. O nadador mais rápido em geral disputa a primeira ou a última etapa. Mas Bernard acreditava que encontraria muita facilidade na segunda etapa, e que "encontraria a melhor braçada", na definição de Bousquet.
Os franceses também estavam antecipando que os australianos usariam seu nadador mais rápido, Eamon Sullivan, na primeira etapa, de modo que ele pudesse reconquistar seu recorde mundial. Os franceses acreditavam que seria melhor para Bernard entrar na água sem saber se o seu recorde mundial havia ou não sido superado.
Fabien Gilot faria a terceira etapa, e a prova seria concluída por Bousquet, a peça chave nas equipes francesas de revezamento em 2000 e 2004.
"Meus colegas de equipe me disseram que confiavam em mim, porque eu tinha a experiência e sabia como derrotar os nadadores norte-americanos", conta Bousquet.
Competir contra os norte-americanos é prática comum pata Bousquet, que estudou em Auburn e conquistou seis títulos universitários de natação nos Estados Unidos. Nos meses que precederam os jogos de Pequim, ele continuou a treinar em Auburn, apesar das críticas que isso lhe valeu por parte da federação francesa, diz.
Ele suspeita que sua preferência por ficar nos Estados Unidos e treinar com Brett Hawke, seu técnico universitário, influenciou a decisão que os dirigentes tomaram pouco antes que os franceses entrassem na piscina para o aquecimento da prova final do revezamento 4x100.
Os dirigentes informaram os nadadores de que haviam alterado a ordem. Leveaux ainda faria a primeira etapa, mas seria seguido por Gilot e Bousquet, com Bernard na parte final. Os nadadores ficaram atônitos, conta Bousquet, que se irritou. "Alain me acalmou", ele diz. "Disse que se sairia bem".
Bousquet acrescenta que "sei que vou enfrentar problemas por contar a história, mas não me importo. O que acredito é que quem encerra o revezamento sempre recebe todas as atenções, e as câmeras se concentram nele. Nossa federação estava tão confiante na vitória, não importa a ordem dos nadadores, que desejava ter o rosto de Alain nas câmeras. Não creio que tenham decidido assim para me prejudicar, mas por preferirem Alain, que era o sujeito deles".
Como todos agora sabem, o plano fracassou. Sullivan abriu pela Austrália, batendo o recorde de Bernard. Atrás de Sullivan vinha Michael Phelps, que estabeleceu um recorde norte-americano e colocou os Estados Unidos em segundo, duas posições adiante dos franceses.
Na terceira etapa, Bousquet ultrapassou o norte-americano Cullen Jones e deixou os franceses com imensa vantagem, mas Bernard cometeu três erros táticos que se provaram dispendiosos.
Nadou rápido demais os primeiros 50 metros, um sinal claro de nervosismo. Nadou perto demais da linha de separação de raias, o que permitiu ao experiente finalizador norte-americano, Jason Lezak, aproveitar o seu vácuo. E, nos 25 metros finais, quando Lezak estava se aproximando, Bernard decidiu olhar para trás para conferir a posição do norte-americano, o que prejudicou ligeiramente as suas braçadas. Os Estados Unidos conquistaram o ouro, superando os franceses por oito centésimos de segundo, ou uma unha. Bousquet voltou aos Estados Unidos com uma medalha e um novo objetivo no histórico da natação: ser o primeiro a baixar o tempo de 21 segundos para os 50 metros livres.
No campeonato nacional francês, em abril, ele atingiu essa meta, com tempo de 20,94 segundos. No mundial de natação de Roma, este ano, os franceses tentarão vingar a derrota olímpica no revezamento 4x100. E os nadadores poderão decidir a ordem em que competirão, disse Bousquet.
Tradução: Paulo Migliacci ME
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