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Mark Bowen jogou futebol americano profissional na NFL durante sete temporadas, parte do tempo como um "rompedor de cunhas", um trabalho para o qual pessoas sensatas não costumam se candidatar porque envolve tentar romper uma formação com 450 kg de bloqueadores que correm de braços ou mãos dadas com o objetivo de proteger a corrida de retorno depois de um chute de reposição.
Bowen, hoje jornalista na National Football Post, estava a caminho de uma consulta com seu neurologista, semanas atrás, em parte devido a todas as ocasiões em que baixou a cabeça e tentou romper a cunha usando o capacete como aríete, e muitas vezes sem nem informar aos preparadores físicos sobre os golpes sofridos. A maior parte das lesões de Bowen aconteceu quando ele fazia parte da unidade de bloqueio às corridas de retorno: um ligamento rompido ou um pé quebrado.
Mas a cunha vai se tornar tão obsoleta quanto os capacetes de couro a partir da próxima temporada: uma mudança nas regras a proíbe, devido à nova ênfase, em garantir a segurança dos jogadores que tornou determinadas formações ilegais. Enquanto os técnicos de equipes especiais estão redefinindo suas jogadas, na pré-temporada do futebol americano, Bowen contempla com emoções contraditórias a eliminação de alguns dos elementos mais brutais e no entanto mais básicos de seu esporte.
"Você tem 45 m para ganhar velocidade, e aí tromba com uma porte de garagem. É essa a sensação", disse Bowen. "A jogada impressiona na TV, as pessoas cumprimentam o jogador quando ele se levanta, mas é muito dolorido. A violência é muito maior do que em uma jogada de choque em uma bola normal, porque o jogador vem em alta velocidade", afirmou.
A mudança de regra que proibirá a formação de cunhas na forma atualmente empregada - com três, quatro ou até cinco jogadores avançando juntos - surgiu em parte devido a experiências como as de Bowen. Não é que as equipes especiais (ou seja, as formações utilizadas em situações de reposição de bola e chutes de field goal) sofram muito mais lesões. Uma estatística mencionada por Mike Pereira, o diretor de arbitragem da NFL, informa que acontecem cerca de sete lesões a cada 100 jogadas de reposição ou chute, ante cinco lesões a cada 100 jogadas convencionais.
Mas a natureza das lesões - concussões e ferimentos de pescoço, em larga medida, causados quando o jogador abaixa a cabeça ao se aproximar da cunha - convenceram a liga de que era hora de mudar as regras que incidem sobre os times especiais.
Quando o comitê de competição da NFL se reuniu para discutir as alterações, convidou jogadores em atividade para assistir a vídeos de colisões causadas por formações de cunha ou grupo.
"Quando as colisões eram exibidas, era visível um tremor entre os jogadores", disse Pereira. "Quando solicitamos voluntários para enfrentar esse tipo de jogada, ninguém queria se oferecer. Ninguém quer a missão de romper esse tipo de formação. As jogadas de chutes de reposição e os retornos continuarão a existir, e queremos que continuam a ser parte do jogo, mas pretendemos torná-las o mais seguras que pudermos", disse.
Mike Westhoff, um dos mais respeitados técnicos de equipes especiais no futebol americano, insistiu que em seus 27 anos de profissão, jamais empregou o termo "rompedor de cunhas", e que não se recordava de jogadores que tivessem sofrido lesões ao exercer essa função.
"Não vou pedir que meus jogadores batam de cabeça contra uma picape em alta velocidade", disse Westhoff. "Isso seria estúpido. O objetivo da jogada é barrar uma ou duas pessoas, e se manter acima da cintura. Não pedimos que ninguém se sacrifique pelo time", disse.
Pode ser. Mas em um quadro no escritório de Westhoff no New York Jets, o diagrama da jogada a ser usada para a proteção ao retorno parece muito diferente. Em uma das versões, a cunha do time ofensivo está dividida em duas partes, com dois pares de jogadores correndo em dupla campo acima. Outra versão envolve uma dupla de jogadores correndo juntos e um terceiro defensor convergindo de outra direção sobre o jogador que antigamente teria a missão de romper a cunha.
No primeiro dia de treinamento dos novatos de sua equipe, Westhoff estava preparando um vídeo para Pereira, com quem ele se reuniu na semana passada para discutir como os árbitros deveriam apitar sobre as novas regras. A interpretação de Pereira sobre o que é ou não legal pode ser muito importante porque as penalidades por violação da nova regra são devastadoras: 15 jardas perdidas, contadas do local da falta, caso uma cunha seja formada intencionalmente. Se considerarmos que as cunhas em geral se formam a entre dez e 15 jardas da linha de touchdown da equipe ofensiva, na prática a penalidade recuaria a bola para entre cinco e sete jardas de sua linha de touchdown.
Pereira afirmou que intenção seria fator importante para determinar a marcação de uma falta. Caso três ou quatro jogadores venham a convergir no último momento para bloquear um adversário que tente impedir uma corrida de retorno, isso não será considerado como formação intencional de cunha, e portanto não haveria falta, diz Pereira.
Trata-se de uma área de indefinição que causa confusão entre os técnicos, ainda que Westhoff se tenha declarado um pouco menos preocupado depois de sua conversa com o dirigente. "Se a regra vai ser adotada, é porque a intenção dela é não permitir a formação de cunhas", disse Westhoff antes da reunião. "Mas se quatro jogadores da equipe ofensiva estiverem unidos no ponto de impacto, qual é a diferença prática? Nosso esporte é jogado a mil milhas por hora", ele disse.
A maioria dos técnicos de equipes especiais consideram que as jogadas de retorno de chutes de reposição sejam variações de jogadas longas de corrida. E comparam a eliminação da cunha a forçar um técnico de ataque a operar com apenas quatro bloqueadores em lugar de cinco. "Isso realmente é o ponto focal das jogadas de retorno", diz Bobby April, técnico de equipes especiais do Buffalo Bills. "E com isso tudo muda".
"Creio que veremos retornos mais curtos", diz Bowen. "Os defensores poderão atacar mais o jogador que está carregando a bola. Creio que o corredor que faz o retorno correrá alguns riscos, porque os defensores chegarão a ele mais rápido e haverá algumas colisões fortes para os jogadores que carregam a bola em tornos. Quando uma regra é mudada, isso simplesmente resulta em outras mudanças no resto do jogo", disse Bowen.
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