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Liga de futebol feminino dos EUA enfrenta batalha difícil

09 de julho de 2009 11h05 atualizado às 12h38

A liga de futebol feminino tem desafios assustadores pela frente. Foto: The New York Times

A liga de futebol feminino tem desafios assustadores pela frente
Foto: The New York Times

Sempre foi difícil tentar atrair as atenções dos americanos para o futebol. Atrair suas atenções para os esportes coletivos femininos é ainda mais difícil. Assim, convencê-los a acompanhar uma nova liga de futebol feminino profissional em um período de profunda recessão pode ser a mais complicada das tarefas.

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No entanto, com esperanças intensas mas expectativas modestas, a liga Women's Professional Soccer (WPS) deu início à sua primeira temporada, em abril. A liga, composta por sete equipes, não tem contrato de transmissão televisiva, seu orçamento para mídia é modesto e o número de patrocinadores importantes é baixo. E existe também a necessidade de superar um histórico adverso: sua predecessora, a Women¿s United Soccer Association, criada devido a uma onda de entusiasmo pela modalidade que tomou o país depois da vitória dos Estados Unidos na Copa do Mundo de futebol feminino de 1999, faliu depois de apenas três temporadas.

Mas os momentos de dificuldade podem servir como uma forma de aprendizado, e as pessoas associadas à nova liga afirmam que contam com um plano que permitirá que sua empreitada se mantenha em funcionamento por mais tempo do que o esforço precedente.

A liga operada como empresa, que detinha o controle de todos os times, queimou investimentos da ordem de US$ 100 milhões (cerca de R$ 200 milhões) e superestimou o valor de seus patrocínios, o público que atrairia e a audiência de televisão que seus jogos obteriam agora é coisa do passado.

E a organização que a substituiu é muito mais enxuta. A licença para montar um time custa apenas US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 3 milhões), o orçamento anual para os salários das jogadoras é de no máximo US$ 565 mil (cerca de R$ 1,13 milhão) e os orçamentos de marketing são modestos. Para reduzir os custos, as equipes levam apenas 16 das 18 jogadores que formam seus elencos nas viagens para partidas fora, e a decisão do campeonato será travada no estádio da equipe que estiver liderando a competição.

"É preciso ter um certo espírito de pioneirismo", disse Joe Cummings, presidente e gerente geral do Boston Breakers, que trabalhava para a equipe na antiga liga e continua a fazê-lo na nova. "Se você não estiver disposto a fazer sacrifícios em termos de gestão, esse não é o lugar ideal para você".

A liga teria sua primeira temporada em 2008, mas preferiu esperar mais um ano para dar a diversas equipes adicionais uma oportunidade de preparação. Entre a data originalmente planejada e aquela em que o torneio de fato começou, os mercados financeiros despencaram, os gastos dos consumidores encolheram e os orçamentos de mídia desapareceram.

O plano de emergência da organização passou a ser considerado como plano principal. O Boston Breakers reduziu à metade duas metas de patrocínio, para US$ 300 mil (cerca de R$ 600 mil), e mesmo assim ficou US$ 50 mil (cerca de R$ 100 mil) abaixo do objetivo. A equipe deve fechar 2009 com um prejuízo da ordem de US$ 1 milhão (cerca de R$ 2 milhões).

Diversas equipes estão produzindo juntas transmissões de suas partidas pela web, a fim de economizar custos. O Washington Freedom compartilha de parte da estrutura administrativa do D. C. United, um time masculino que disputa o certame da Major League Soccer.

Cummings e os demais executivos da liga afirmam que a recessão forçou os times a funcionar mais como empresas iniciantes. Eles estão utilizando o Twitter e o Facebook para divulgação, em lugar de comerciais no rádio ou televisão. Os treinamentos de pré-temporada foram conduzidos em seus estádios ou em áreas de treinamento próximas, e não no exterior. As jogadoras visitam acampamentos de treinamento de futebol e shopping centers, a fim de atrair mais interesse para as partidas.

"A economia certamente ocupa nossas atenções", disse Kristin Luckenbill, goleira do Breakers, antes da partida contra o Washington Freedom no Harvard Stadium, no final do mês passado. "Podemos nos apresentar aos espectadores como uma alternativa de entretenimento a preço mais baixo".

De fato, a liga inteira vem se apresentando como uma opção de preço acessível para as pessoas interessadas em assistir esportes ao vivo. Os ingressos para as partidas do Breakers têm preço inicial de US$ 13 (cerca de R$ 26). Os detentores de carnês de temporada podem trocar ingressos de uma partida específica pelos de outra. O estacionamento e a alimentação no estádio saem mais barato do que em outros esportes profissionais, e a realização de piqueniques pelos torcedores em torno dos estádios é encorajada.

"Serei franco: com ingressos a US$ 25 (cerca de R$ 50) por jogo, e 10 partidas por temporada o custo total fica em US$ 250 (cerca de R$ 500)", diz Hugh Taylor, um executivo bancário que adquiriu quatro carnês de temporada para sua família e outros seis para sua empresa.

"Se eu tivesse optado por assistir o Red Sox, o preço seria de US$ 40 (cerca de R$ 80) a US$ 50 (cerca de R$ 100) por pessoa. Os preços dos esportes profissionais mais importantes são ridículos".

Ainda assim, a liga de futebol feminino tem desafios assustadores pela frente. Embora alguns dos jogos sejam transmitidos ao vivo pelo canal de esportes da rede de TV Fox, entre outros, a organização não tem um contrato de transmissão televisivo. Isso custa receita à liga, e especialmente a priva da publicidade que uma rede de televisão poderia oferecer.

"Temos um mercado nos Estados Unidos onde as verbas mais fortes de patrocínio estão vinculadas a contratos de transmissão televisiva, porque os anunciantes não fazem nada que não inclua televisão", disse Donna Lopiano, renomada consultora de marketing esportivo. "As chaves do reino não estão disponíveis facilmente para os novos esportes, masculinos ou femininos".

A despeito dos esforços empreendidos para ampliar seus atrativos, os torcedores básicos da liga continuam a ser meninas que jogam futebol e suas pais - uma audiência potencialmente grande, da ordem de 377 mil jogadoras de futebol feminino registradas nas escolas de segundo grau dos Estados Unidos.

Mas porque muitas delas deixam de praticar o esporte quando entram na universidade, as equipes precisam encontrar novos torcedores o tempo todo. Persuadir os pais, especialmente, a acompanhar o esporte quando suas filhas saem de casa e deixam de praticá-lo, tampouco é tarefa fácil.

"Precisamos sair do gueto que nos define como um exemplo para as meninas", disse Andry Crossley, diretor de desenvolvimento de negócios do Boston Breakers. "Não se vai muito longe caso os pais que acompanham os jogos o façam com o mesmo interesse que demonstram ao levar suas filhas a um restaurante temático infantil".

Os esportes profissionais femininos como um todo estão passando por um período difícil nos Estados Unidos. Em dezembro, a WNBA, na liga de basquete feminino profissional parcialmente subsidiada pela NBA, perdeu um de seus principais times, o Houston Comets, que não conseguiu manter as portas abertas diante da recessão. Os elencos das equipes de toda a liga foram reduzidos.

A LPGA, que organiza o golfe profissional feminino, abandonou alguns de seus torneios devido à perda de importantes patrocinadores, e a Sony Ericsson WTA Tour, do tênis feminino, antecipa queda de 20% em sua receita nesta temporada do esporte.

Os patrocinadores da liga de futebol feminino apontam com frequência para o fato de que contrataram as melhores jogadoras do mundo, entre as quais a brasileira Marta e Kristine Lilly, por muito tempo a líder da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos. Esse nível de talento, afirmam, servirá para atrair torcedores interessados em assistir a futebol do mais alto nível.

De fato, o maior grupo de espectadores das partidas da liga transmitidas pela Fox Soccer Channel são os homens que acompanham a versão masculina do esporte, diz David Sternberg, vice-presidente de operações da Fox Cable Networks.

Mas atrair número considerável de torcedores homens aos estádios é outra história. Doug Logan, antigo comissário da Major League Soccer e hoje presidente da federação de atletismo de pista dos Estados Unidos, diz que os esportes coletivos são "fundamentalmente tribais", e que as ligas de esportes femininos enfrentam dificuldades para obter esse tipo de apoio.

"O sucesso de bilheteria requer uma torcida tribal, e não apenas um furgão lotado de meninas que jogam futebol e assistem a uma partida por ano", disse Logan. "Se o seu modelo de negócios depende do futebol juvenil, não vai dar certo".

Muitos dos mais de três mil torcedores que assistiram à recente partida entre o Breakers e o Freedom eram jovens. Grupos de meninas, algumas com os uniformes de seus times, saltitavam pelo estádio, enquanto os pais assistiam à partida sentados, perto delas. Outras das torcedoras corriam até o alambrado para tirar fotos com as câmeras de seus celulares. Muitas ficaram no estádio depois do jogo para pedir autógrafos.

No ano que vem, novas equipes passarão a disputar o campeonato da liga, em Atlanta e Filadélfia, e o objetivo da organização é ter 14 times em 2014. O grupo conta com acordos de patrocínio com a Puma, Hint Water e Advocare, e afirmou que está perto de anunciar mais três contratos. As equipes têm atraído públicos de entre quatro mil e cinco mil espectadores às suas partidas, e a audiência de televisão é da ordem de mais de 41 mil, em média, o que equivale ao número médio de espectadores de uma partida na temporada regular da Major League Soccer.

"Não tenho ilusões de que estaremos rolando em dinheiro dentro de três ou cinco anos", diz David Halstead, um dos sócios do Philadelphia Independence, que entrará no torneio da liga no ano que vem. "Mas temos algumas pessoas interessadas em ver algo de novo no horizonte".

Tradução de Paulo Migliacci.

The New York Times
The New York Times