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Ciclismo
Quinta, 9 de julho de 2009, 23h18  Atualizada às 23h26
Alemanha desconfia de seus ciclistas, mas tem astro em ascensão
 
Juliet Macur
 
Getty Images
Tony Martin disputa o Tour de France
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Quando Tony Martin era criança, na Alemanha, costumava acompanhar atentamente pela TV o desempenho de Jan Ullrich na Volta da França.

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Como milhões de outros de seus compatriotas, ele não perdia uma transmissão das provas do certame nas quais Lance Armstrong e Ullrich muitas vezes se enfrentavam diretamente. A rivalidade entre eles se tornou uma das mais fortes na história recente da disputa.

"Eu sempre quis chegar àquele ponto e poder disputar um Tour de France, porque Jan Ullrich era um verdadeiro superastro, e era também o meu ciclista favorito", disse Martin na quarta-feira, antes do início do estágio cinco da disputa. "Mas quando surgiu a revelação de que na verdade ele havia trapaceado durante todo aquele tempo, e percebi que grande número de ciclistas usavam doping, fiquei muito decepcionado. Aquilo tudo fez com que eu questionasse se esse esporte era realmente algo de que eu desejava participar".

Martin, 24, decidiu persistir no ciclismo apesar dos escândalos, e se manteve fiel a essa decisão. Até agora, a escolha parece ter sido muito favorável a ele.

Disputando sua primeira Volta da França, em sua segunda temporada como integrante da equipe Columbia-HTC, Martin ocupava a segunda posição na classificação geral, depois do segundo estágio.

Mas, entre os líderes da prova, ele era o ciclista mais jovem, e possivelmente aquele a quem foi atribuída a mais difícil das tarefas: restabelecer a credibilidade do ciclismo como esporte, na Alemanha.

Ullrich, seu heroi e campeão da Volta da França em 1997, se aposentou do ciclismo em 2007, depois de ver seu nome vinculado a uma quadrilha que promovia o uso de doping via medicamentos sanguíneos, na Espanha. Esta semana, as autoridades esportivas da Suíça notificaram que haviam iniciado procedimentos disciplinares contra Ullrich, que vive no país e corria com uma licença de ciclismo suíça, por violações de seu código de ética relacionadas ao uso de doping e ao caso espanhol.

"A popularidade do ciclismo na Alemanha não tinha nenhuma base histórica. Ela estava vinculada à popularidade de apenas um ciclista: Jan Ullrich", disse Rolf Aldag, um alemão que trabalha como diretor da equipe Columbia e foi ciclista profissional no passado. ¿Quando ele se viu apanhado em um escândalo de doping, na companhia de um grande número de outros ciclistas, o povo alemão realmente se distanciou do esporte. Mas minha esperança é a de que Tony possa ajudar a reconstruir a reputação do ciclismo alemão¿.

Em maio de 2007, Aldag e outro ex-ciclista profissional alemão, o velocista Erik Zabel, admitiram ter usado o EPO, um agente que eleva o teor de oxigênio no sangue, na metade dos anos 90, quando corriam pela antiga equipe Deutsche Telekom.

Em seguida, em julho do mesmo ano, o ciclista alemão Patrik Sinkewitz foi apanhado em um teste antidoping que constatou nível inaceitável de testosterona, em uma das etapas da Volta da França. Na Alemanha, a reação a essa sucessão de escândalos de doping foi tangível. A ARD, uma rede de televisão estatal alemã, cancelou sua cobertura da prova. Posteriormente, Sinkewitz admitiu o uso de medicamentos para melhora de seu desempenho atlético, entre os quais o EPO.

Ainda que a ARD tenha retomado a disputa das provas na Volta da França em 2007, decidiu uma vez mais restringir sua cobertura quando novos casos de doping surgiram no mundo do ciclismo, no ano passado.

Bernard Kohl, que terminou a Volta da França em terceiro lugar, no ano passado, correndo pela equipe alemã Gerolsteiner, foi apanhado em um exame antidoping pelo uso do CERA, outro agente de oxigenação sanguínea, e depois disso abandonou o esporte. O ciclista alemão Stefan Schumacher também foi apanhado usando CERA em um exame antidoping durante a Olimpíada de Pequim, em 2008.

Este ano, a ARD decidiu que exibiria ao vivo para os alemães apenas os 30 minutos finais da prova decisiva da Volta da França.

"Existe sempre a esperança de que esses atletas sejam capazes de correr sem doping, mas muita gente está cética a respeito", disse Michael Ostermann, repórter no site da ARD que este ano está cobrindo sua sexta Volta da França. "Fomos alvos de mentiras demais por ciclistas alemães que declararam que estavam correndo sem recorrer a qualquer trapaça. Assim, por que deveríamos acreditar naquilo que um ciclista tenha a dizer, agora? É essa a maneira pela qual muitas pessoas estão raciocinando, neste momento".

Martin, cuja equipe tem entre suas prioridades promover a competição ética, sabe que seu desempenho aqui ¿e sua capacidade de atingir esse desempenho sem o benefício de medicamentos que estimulem sua capacidade atlética- poderia significar muito para o povo da Alemanha.

Há 15 ciclistas alemães envolvidos na disputa da Volta da França este ano, entre os quais Andreas Klöden, da equipe Astana, mas Martin é o mais novo dos grandes nomes do esporte, em seu país. Ele afirma compreender que representa não só o futuro do ciclismo na Alemanha mas também o futuro do ciclismo como um esporte limpo. Os pais do atleta estavam preocupados com a sua decisão de continuar praticando o ciclismo, ele afirma, depois da onda de admissões de doping e de escândalos quanto a isso no esporte, alguns anos atrás.

Mas Martin os convenceu a permitir que continuasse praticando o ciclismo. Diz que os persuadiu de que desejava ser um símbolo da mudança.

"Para mim, vem sendo uma excelente experiência, em um momento como o atual, ver jovens ciclistas como eu ascendendo e prometendo defender um ciclismo limpo", diz Martin. "É isso que as pessoas desejam ver no esporte, e essa atitude faz com que seja uma verdadeira alegria para mim qualquer sucesso que eu venha a conquistar aqui". Mas ainda restam dúvidas quanto à possibilidade de doping pendendo sobre ao menos um dos ciclistas alemães que estão participando da Volta da França: Klöden.

Sinkewitz, que foi companheiro de Klöden na extinta equipe T-Mobile de ciclismo, alegou que o colega era parte do uso sistemático de doping que os ciclistas da equipe praticavam. Dois médicos da Clínica da Universidade de Freiburg, que trabalharam para a equipe no passado, disseram que todos os ciclistas que a integravam usavam medicamentos para melhorar seu desempenho atlético, no período entre 1995 e 2006, época em que tanto Klöden quanto Sinkewitz fizeram parte do elenco da T-Mobile.

Klöden, que jamais foi apanhado usando substâncias proibidas em um exame antidoping, conquistou três vice-campeonatos consecutivos na Volta da França, entre 2004 e 2006, e continua a negar que tenha usado doping em qualquer momento de sua carreira.

Klöden se recusa a comentar sobre o assunto, afirmou Philippe Maertens, porta-voz da equipe Astana.

"Ele está cansado de jornalistas alemães que continuam a persegui-lo onde quer que esteja para tentar levá-lo a falar sobre doping", disse Maertens. "Terminou por assumir a posição de que deseja apenas competir em sua bicicleta, porque não tem nada a esconder. Nossa equipe conduziu investigações sobre ele e constatamos que está limpo, superlimpo".

Johan Bruyneel, diretor da equipe Astana, disse que as acusações com relação a Klöden jamais lhe causaram dúvidas sobre o atleta. "Ele ajuda muito a nossa equipe", disse Bruyneel. "Talvez seja o ciclista mais forte da equipe nas provas disputadas contra o relógio".

Para Martin, a inocência ou culpa de Klöden não importa muito, mas o fato de que o colega tenha escolhido se manter afastado da imprensa suscitou novas dúvidas sobre a questão do doping entre os ciclistas alemães.

"Os jornalistas não sabem que opinião devem ter a respeito dele", diz Martin. "Espero que esteja limpo, mas não se pode ter certeza de que qualquer dos nossos ciclistas está limpo, excetuados eu e meus colegas de equipe. Meu objetivo é fazer parte de uma nova espécie de ciclismo, um ciclismo limpo, e acredito que os resultados disso tenham sido bastante favoráveis para mim até agora".

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times