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Automobilismo
Sexta, 24 de julho de 2009, 21h15 
Fanáticos celebram máquinas que "bebem" metanol
 
Dana Jennings
 
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A despeito de uma manhã de chuva forte, por volta das 15h de uma terça-feira recente o pátio de estacionamento da Stafford Motor Speedway havia se transformado em uma aldeia ensolarada ocupada por trailers, barracas e veículos com tração nas quatro rodas, acompanhados por cadeiras dobráveis bambas e toldos instalados de forma ainda mais precária. Era uma espécie de maloca dedicada aos prazeres da alta velocidade.

Crianças e cachorros corriam e caminhavam pela área pantanosa de acampamento. Os cachorros de vez em quando se detinham para latir e uivar diante do rugido dos motores que se espalha por essa pista de corridas no nordeste de Connecticut. Nas churrasqueiras, filés estavam sendo cozidos; havia barulho de talheres e de latas de bebida sendo abertas.

Mas embora essa convivência sociável, os filés no ponto e as cervejas Budweiser geladíssimas parecem ótimos, o motivo para que toda essa gente estivesse reunida era só um: assistir às ferozes máquinas da categoria International Supermodified Association, ou ISMA, em uma prova de 50 voltas que seria disputada naquela noite.

Estamos falando de automobilismo de raiz, aqui. Não é um esporte de família, não é um esporte de massa, as provas não são transmitidas pela TV; temos apenas torcedores viciados em velocidade, em corridas de resultado completamente imprevisível e, possivelmente, no cheiro de metanol. Os herois a que eles vêm assistir, muitos dos quais precisam manter empregos regulares porque as corridas pagam muito mal, são pilotos como Chris Perley, conhecido como "foguete Rowley", de Massachusetts; Bentley Warren, de Kennebunkport, Maine, que celebrará seu 69° aniversário este ano; e Liquid Lou Cicconi, de Aston, Pensilvânia.

Já os torcedores são figuras como Lee e Pam Vinal, de Dracut, Massachusetts, que chegaram ao autódromo com um motorhome chamado "Journey", e acompanhados por um cachorro chamado Shillelagh. Os Vinal planejam viajar para assistir a cinco ou seis provas nesta temporada, mas Pam Vinal, que cresceu acompanhando corridas de stock cars na Carolina do Norte ¿"isso é um modo de vida, por lá"- jamais imaginou que terminaria preferindo os supermodificados.

"Por muito tempo ela preferia não assistir aos super", diz Lee Vinal sobre os carros, que com seus largos aerofólios, pneus de corrida ultralargos e motores de alta potência, se parecem mais com mariposas mutantes do que com automóveis.

"Mas quando você começa a assistir, não consegue largar", diz Pam, que estava usando uma camisa da ISMA. "São mais rápidos que os stock cars, e fizemos amizade com os pilotos".

Os Vinal gostam tanto dos carros da ISMA que a companhia de Lee, a Lee A. Vinal Excavation, é um dos patrocinadores do número 88, pilotado por Ben Seitz. E em 2007 foi a principal patrocinadora do carro pilotado por Mike Ordway Jr.

Tentando explicar por que se dispõe a viajar centenas de quilômetros a fim de assistir às provas, Lee Vinal, que é fã da categoria há 30 anos, diz que "jamais vi uma corrida chata entre os super. Nunca temos aquelas provas em que ninguém ultrapassa".

Ele estava se referindo às provas da Nascar, especialmente nos grandes circuitos como Daytona e Talladega, nas quais os carros são de fato maravilhas da engenharia mas muitas vezes seguem uns aos outros, capôs colados à traseira do carro à frente, por centenas de quilômetros, como se estivessem participando de uma procissão a 290 km/h.

Mas os carros da ISMA vivem se ultrapassando nos circuitos ovais inclinados da categoria, diz Vinal. "Eles manobram muito, e não se sabe o que farão a seguir", diz.

Ainda que sejam rápidos ¿os melhores completam uma volta no circuito de 800 metros de Stafford em cerca de 16 segundos, com média de 184 km/h-, o ponto forte dos carros da ISMA é a manobrabilidade, propiciada por motores de 800 HP.

O nordeste dos Estados Unidos é o polo desse tipo de prova, e o Oswego Speedway, em Nova York, serve como santuário central da categoria. Mas a temporada de 2009 também inclui corridas no Ohio (Sandusky e Toledo), Michigan (Berlin Raceway, em Marne) e Ontário, Canadá (nos circuitos de Delaware e Cayuga International).

E não faltam outros campeonatos que os fãs do automobilismo podem acompanhar de Estado a Estado, como a World of Outlaws Sprint Car Series, a Pro All Stars Series, a True Value Modified Racing Series e a USAC Silver Crown Series, para carros compactos. Mesmo a Nascar oferece campeonatos paralelos ao principal, com corridas entre caminhões e monopostos.

Mas os torcedores reunidos em Stafford naquela noite de julho gostam mesmo é dos super, ainda que também estejam prestando atenção às ameaçadoras nuvens de chuva. Os torcedores de automobilismo, como os agricultores ou os estudiosos de discos voadores, estão sempre de olho no céu.

A Stafford Motor Speedway tem a cara clássica das pequenas pistas frequentadas pela ISMA e seus fieis torcedores. Há carrinhos vendendo sanduíches de salsicha italiana com pimenta e cebola, bolinhos fritos e açucarados e cerveja gelada. Os alto-falantes tocam country moderno -Josh Turner cantando sobre seu "Long Black Train" - e bonés de beisebol são comuns, com logotipos como os da John Deere, Home Depot, Hoosier Racing Tires.

É a espécie de pista que Rick Swift, de Danbury, New Hampshire, conhece bem.

Swift, mecânico de dois pilotos que disputam provas de terra na categoria Sprint Cars of New England, acompanha corridas desde os nove anos, e sua voz ainda revela entusiasmo juvenil ao falar sobre os atrativos que a velocidade dos supermodificados oferecem.

"É a prova definitiva de monopostos", diz Swift, que já pilotou em pistas como a Thompson Speedway, em Connecticut, e a velha Westboro Speedway, em Massachusetts. "É veloz, seguro e jogo limpo. Gosto da velocidade e da ferocidade da disputa".

E uma vantagem adicional de ser torcedor da ISMA é que, quando a chuva retarda a prova em duas horas, como naquela noite, você pode voltar ao trailer, abrir uma cerveja e relaxar até que os motores voltem a rugir.

Tradução: Paulo Migliacci ME
 

The New York Times