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Mais Esportes
Quarta, 5 de agosto de 2009, 15h38 
Iraquianas desafiam tradição para treinarem luta livre
 
Sam Dagher
 
The New York Times
Mesmo diante de ameaças, iraquianas treinam luta livre
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No mundo árabe, trata-se de um esporte incomum, mas um técnico aqui de Diwanyia decidiu criar uma equipe de luta livre feminina, em janeiro, a primeira da história do Iraque. As lutadoras adoraram a ideia, e já sonham competir em uma Olimpíada.

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Mas muita gente nesta cidade ao sul de Bagdá, que como boa parte do Iraque é religiosa, conservadora e governada em larga medida de acordo com as tradições tribais, deseja que as 12 jovens da equipe abandonem o esporte de imediato.

Um morador disse que elas deveriam ser "massacradas", caso persistam. Um líder religioso xiita afirmou que a equipe deveria ser proibida, porque luta livre pode resultar em promiscuidade e "transgressões" contra o islamismo.

Como resultado da pressão, quatro das lutadoras originais deixaram a equipe. Mas as demais, por enquanto ainda motivadas pela promessa de mais democracia e igualdade que foi feita aos iraquianos depois da invasão norte-americana em 2003, optaram por desafiar as ameaças.

"As pessoas acham que somos mulheres fáceis porque praticamos um esporte", diz Ikram Hamid, 25, uma das integrantes. Farah Shakir, 17, também lutadora, diz que "isso é algo de muito diferente, para o Iraque, mas gosto do desafio".

É justo ressalvar que não é apenas a luta livre feminina que preocupa os tradicionalistas. "Tenho informações de que a luta masculina também é problemática, por conta de toda a fricção que acontece", disse o xeque Hussein al-Khalidi, um líder religioso que usa um turbante branco tradicional e faz parte do Legislativo provincial.

Mas foram as mulheres que causaram controvérsia, talvez em parte devido às suas ambições. Três outras equipes foram formadas no Iraque depois que surgiu a de Diwanyia, com o apoio da federação de luta livre do país. Em junho, elas realizaram um campeonato, vencido pelas lutadoras de Diwanyia, que serviu como prova classificatória para um torneio asiático de luta livre, em setembro.

Alguns moradores locais apreciam as lutadoras e sentem que elas representam um desafio necessário aos líderes tribais e religiosos estabelecidos, cujo domínio sobre a sociedade e os cidadãos se estreitou depois da invasão de 2003. Um desses simpatizantes, Haidar Walid, 20, define a equipe como "sinal de evolução e liberdade".

A controvérsia em Diwanyia é indicadora de uma luta mais fundamental que ocorre em toda a sociedade iraquiana. O domínio dos grupos armados xiitas e sunitas que forçavam os iraquianos a seguir suas normas de moralidade se afrouxou, o que foi refletido nas eleições provinciais de janeiro pelo bom desempenho dos partidos laicos e relativamente liberais.

Em uma escaldante manhã recente, as lutadoras se reuniram no ginásio de Diwanyia, que só podem usar quando os lutadores homens estão ausentes. Algumas vestiam véus e outras apenas calções e camisetas.

Depois do aquecimento, Shakir e suas colegas formaram duplas e começaram a praticar os movimentos padronizados do esporte, sob orientação do técnico Hamid al-Hamdani, o criador da equipe, e dois assistentes, todos os quais lutadores profissionais.

A luta livre feminina é um esporte internacionalmente reconhecido, e chegou às olimpíadas nos jogos de Atenas. Dois outros países árabes, Egito e Marrocos, também têm equipes. Mas as lutadoras de Diwanyia podem enfrentar mais obstáculos a caminho do ouro. A federação iraquiana de luta livre aceitou a equipe, mas um dirigente da organização se recusou a vir a Diwanyia para a competição de junho, porque temia ser assassinado, de acordo com Hamdani.

Em maio, líderes tribais irados apresentaram uma petição ao conselho provincial pela proibição à equipe, depois que uma estação de TV mostrou uma das lutadoras praticando com técnico.

A equipe desde então vem mantendo a discrição e respeitando os costumes locais. Durante o treinamento, as meninas contam com a presença fiscalizadoras de Nawal Khadim, a mãe de Shakir, e quando saem do ginásio usam véus pretos que cobrem seus corpos dos pés à cabeça. Ainda assim, muitas delas são provocadas e xingadas sempre que arriscam ir ao mercado. Sofrem ostracismo na escola e constante pressão de parte de seus professores.

Nawal Kadhim, que tem cinco filhas na equipe, recentemente foi aconselhada por parentes a sair da cidade, e recebeu mensagens ameaçadoras em seu celular.

"As mulheres perderão sua feminilidade", disse um morador de Diwanyia, Faris Abbas, 42, que como a maioria da população local desaprova a equipe.

Um líder tribal, Gaith al-Kassir, 53, afirma que o esporte é uma violação dos preceitos islâmicos e das tradições tribais. "Se as mulheres quiserem, podem praticar esportes em casa", disse.

Como no caso de muitas outras questões, os líderes xiitas estão divididos, no que tange à luta livre feminina. Alguns deles afirmam que o esporte nada tem de mau, desde que as mulheres se mantenham devidamente cobertas, enquanto outros o consideram como "absolutamente proibido", de acordo com um dos técnicos da equipe, que consultou as autoridades religiosas na cidade de Najaf.

Tradução de Paulo Migliacci.
 

The New York Times