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 Jogos de Inverno serão realizados em fevereiro do ano que vem |
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O gelo parece ser um elemento muito simples - água a temperaturas muito baixas. E, no verão, seu lugar preferencial é dentro de um copo. Mas para as pessoas contratadas pelo comitê organizador de Vancouver a fim de produzir formas complexas de gelo necessárias para a Olimpíada de Inverno da cidade, que começa em fevereiro do ano que vem, ele é uma ciência de tempo integral.
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Além dos desafios usuais envolvidos na criação de superfícies de gelo que atendam às necessidades de diferentes esportes em diferentes arenas, a localização de Vancouver apresenta dificuldades adicionais, dada sua combinação entre altitude ao nível do mar e alta umidade, única entre as cidades que já serviram de sede aos Jogos Olímpicos de Inverno.
Se somarmos a isso as habituais exigências da mídia eletrônica quanto à transmissão dos eventos - conjuntos adicionais de refletores e horários inflexíveis de realização são apenas algumas delas -, os chamados "icemeisters" talvez se vejam tentados a pedir alguns cubos de gelo a mais para um drinque bem forte.
Seis meses antes da data da Olimpíada, eles já começaram a comandar um movimentado calendário de eventos e sessões de treinamento, com o objetivo de testar os limites de sistemas de refrigeração e avaliar os efeitos dos espectadores que estarão presentes nos locais e da ação dos atletas sobre o gelo. Eles estão testando sistemas de filtragem de água e circulação de ar e treinando equipes de trabalhadores para a tarefa de reparar as superfícies de gelo.
Cerca de metade das provas olímpicas acontecerão sobre superfícies de gelo com 2,5 a 5 cm de espessura, cuidadosamente preparadas para cada evento. Variando de arena a arena, o gelo precisa ter temperatura, textura, composição e até cor específica (mais um fator pelo qual a televisão merece agradecimentos), quer esteja distribuído por sobre uma vasta superfície no interior de um ginásio ou na encosta de uma montanha.
É preciso que ele mantenha sua consistência durante semanas, a despeito dos esforços colaborativos de seus tradicionais inimigos - que variam dos óbvios, como o sol, objetos cortantes e trenós metálicos com peso de mais de 600 kg, a ameaças menos previsíveis como portas de ginásio abertas, espectadores e o efeito dos rodopios de patinadoras de 42 kg.
"Não se pode simplesmente fazer gelo de uma mesma maneira", diz Hans Wutrich, encarregado da superfície do novo ginásio de curling, cujo processo final de preparo envolve uma aspersão delicada de gotículas de água cientificamente configuradas e fortes o bastante para alterar o curso de 20 quilos de granito deslizando sobre o gelo.
Os cinco especialistas em gelo, todos os quais dotados de fortes conexões para com o Canadá, tem grande experiência em jogos passados. Para criar o melhor gelo possível, eles ajudaram a projetar novas instalações e a desenvolver reformas de locais existentes. Visitaram as estações de tratamento de água de Vancouver para estudar o principal ingrediente de seu produto. E tentam levar em consideração todas as possibilidades de danos ou deterioração do gelo.
Considerem o desafio que precisa ser enfrentado por Tracy Seidz, encarregado do gelo para as competições de bobsled, luge e tobogãs, no Whistler Sliding Centre.
A pista repleta de curvas sinuosas, com cerca de 1,5 km de comprimento, começa a uma elevação de 939 metros e cai até os 787 metros. Em fevereiro, é comum que haja neve na porção mais alta e chuva na mais baixa. Mas também pode ocorrer o contrário.
As porções retas da pista têm forma de U. As curvas de alta inclinação são em forma de C, e as bordas da pista atingem altura de cerca de 4,5 metros, em uma borda afilada que parece desafiar a gravidade e permite aos equipamentos velocidades de mais de 150 km/h.
Partes da pista estão em ângulo que as expõem ao sol do meio-dia. Outras partes ficam sempre sob a sombra. Algumas das provas acontecerão à noite.
Pela metade de setembro, com a pista refrigerada por meio de tubulações que percorrem o concreto, Seitz e sua equipe vão borrifá-la com água de mangueiras até que exista uma camada de gelo de cerca de 2,5 centímetros de espessura. Isso é espesso o bastante para evitar que as máquinas sofram força de mais de 5G nas curvas mais sinuosas, e ao mesmo tempo fino o suficiente para que o sistema de refrigeração sob o gelo combata as ameaças ao gelo que surgem na superfície.
O truque é manter o gelo, não importa que forças estejam operando contra ele, sempre em temperaturas da ordem de quatro a cinco graus negativos. Se a temperatura ficar mais alta, as camadas externas se tornam pegajosas. Mais baixa, o gelo se torna quebradiço e pode se romper. Quaisquer inconsistências podem ser perigosas, até mesmo fatais.
"Queremos garantir que o gelo não mude consideravelmente em meio ao calor de uma disputa", diz Seitz. As competições podem durar diversas horas, ele aponta. E a conquista de medalhas é muitas vezes decidida por frações de segundo.
Até mesmo as provas disputadas em locais fechados têm gelo que costuma ser formado da mesma maneira - por sobre uma camada de concreto que disfarça um emaranhado de tubos de refrigeração. A água é acrescentada em camadas finas porque isso resulta em gelo mais forte do que encher um rinque com uma camada de 2,5 cm de espessura, como se ele fosse uma espécie de forma de gelo gigante.
"A água em Vancouver é incrível", diz Mark Messer, o icemeister do Richmond Olympic Oval, no qual acontecerão as provas de velocidade da patinação. "É muito, muito limpa. Temos uma unidade de filtragem em uso no Richmond, e ela chega a tornar a água limpa demais. É necessário ter uma pequena proporção de impurezas lá para manter a coesão das coisas".
Messer, cujo emprego real é o de gerente de uma fábrica e especialista em gelo na pista olímpica de patinação de Calgary, Alberta, definida como "o gelo mais rápido do mundo", conduziu experiências "que nos dessem uma combinação de muito deslizamento e muita aderência, para que o gelo não rache quando é refrigerado".
Por sobre sua fina base, o gelo é pintado, em geral de um tom conhecido como "cinza televisão". Ele parece branco se comparado com a cor do concreto, e cria um fundo discreto e propício à transmissão televisiva do caleidoscópio de cores que vemos deslizar em alta velocidade por sobre a pista. Linhas e logotipos são pintados ou aplicados como decalques.
Sensores são instalados no gelo antes que as camadas finais sejam acrescidas. Outros sensores medem a temperatura e umidade do ar no complexo, e alertam sobre as menores mudanças. Controles semelhantes estarão instalados nos dois ginásios de hóquei, comandados por Dan Craig, gerente geral de ginásios da National Hockey League.
Para Vancouver, a maior preocupação é a umidade, que é de em média 80% em fevereiro. O objetivo é mantê-la abaixo dos 50% em todas as arenas, e abaixo dos 40% na maioria delas, mesmo que esteja chovendo muito do lado de fora. Quando o ar úmido encontra o gelo, cria geada. "Quando surge geada, não se tem como remover aquela precipitação do gelo", diz o icemeister Kameron Kiland, como se estivesse descrevendo uma mancha de vinho tinto sobre um tapete branco.
Os ginásios de Vancouver contam com muitos aparelhos para reduzir a umidade, em número superior ao de qualquer Olimpíada de Inverno precedente. Os espectadores entrarão por meio de grandes corredores protegidos por lonas, que separam o exterior da superfície de gelo.
"O maior problema para nós é a admissão dos espectadores", diz Kiland, que supervisionas o gelo do Pacific Coliseum, onde ocorrerão as competições de patinação artística (para as quais gelo macio é melhor) e de velocidade em pista curta (para as quais é preciso gelo duro). "Se temos um ginásio com mais de 13 mil torcedores, que entram todos usando casacos que retêm umidade a trazem para dentro, é preciso propiciar alguma secagem antes que eles entrem no espaço de competição".
E a última coisa sobre a qual os fãs molhados estarão pensando será o gelo e toda sua complexa transparência.
Tradução: Paulo Migliacci ME.
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