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Boxe
Quarta, 26 de agosto de 2009, 15h21  Atualizada às 15h37
Indianas veem boxe como caminho para classe média
 
Somini Sengupta
 
The New York Times
Índia foi um dos países que batalhou pela derrubada da barreira sexual
Índia foi um dos países que batalhou pela derrubada da barreira sexual
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Elas chegam de toda a Índia a esse grande e quente ginásio operado pelo governo. Antes de subir ao ringue, elas fazem uma mesura até que suas cabeças encostem no chão, como se estivessem entrando em um templo. A filha do dono de uma loja de doces dispara um gancho de direita. A filha de um pedreiro se encosta nas cordas, com o rosto coberto de suor. Saltitando e se esquivando, uma moça baixinha de Calcutá mantém os olhos semicerrados - ela deixou de ir ao casamento da irmã para estar aqui, lutando. O ruído do choque entre as luvas ecoa na construção cavernosa.

» Veja fotos do boxe

Em um país onde enfrentam muitos obstáculos, as jovens da Índia estão determinadas a fazer carreira no boxe.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou no começo do mês que o boxe feminino estará entre os esportes da Olimpíada de Londres, em 2012. A Índia foi um dos países que batalhou pela derrubada da barreira sexual nessa modalidade.

"Meu sonho está se realizando", disse Mangte Chungneijang Merykom, 27 anos, a mais conhecida boxeadora indiana.

Conhecida como Mary Kom, ela representa a maior esperança indiana no boxe internacional. Desde que a International Boxing Association criou o mundial feminino do esporte, em 2001, ela detém o recorde do torneio, com quatro medalhas de ouro.

Sem muito apoio do governo, as mulheres indianas se saíram surpreendentemente bem nos mundiais. A China é a mais feroz concorrente, e no último mundial, realizado em Ningbo, a equipe da casa levou 11 medalhas, seguida por cinco da Rússia e quatro cada para Índia e Estados Unidos.

Kom acaba de voltar de um período de treinamento em Pequim, e não demora a explicar a razão para essa superioridade: até os técnicos chineses estão em boa forma, e as atletas comem carne três vezes por dia. Os modestos centros de esportes indianos servem carne ou peixe uma vez ao dia. As atletas têm de lavar suas próprias roupas, a mão. Não há fisioterapeutas exclusivos para as boxeadoras lesionadas.

Não importa. O boxe representa uma nova espécie de liberdade para mulheres que chegam a esse antiquado e quente ringue em uma cidade da ponta sul da Índia.

Hema Yogesh, 16 anos, é filha de um agricultor que cultiva especiarias, e fugiu de casa para participar de seu primeiro campo de treinamento de boxe. O pai dela inicialmente ficou furioso. Mas quando ela levou para casa sua primeira medalha de ouro em uma competição regional, seus colegas de escola a homenagearam e o pai, ela conta, caiu no choro - como a própria Yogesh, que agora planeja competir internacionalmente. O boxe, afirma, a ensinou a ter "coragem".

Também alimentou suas ambições. Como a maioria das meninas participantes, ela considera o esporte como caminho para chegar à classe média. O governo indiano recompensa os atletas com cobiçados empregos públicos, em geral na polícia ou nas ferrovias. Ninguém na família de Yogesh teve um emprego público, até hoje.

Perguntada como seria sua vida sem o boxe, ela diz, com uma careta, que teria de ficar em casa cuidando das duas vacas da família.

Para outras mulheres, as recompensas do boxe são menos tangíveis: a confiança necessária a sair sem medo à rua, por exemplo. Ou, como diz a boxeadora Usha Nagisetty, a chance de ser alguém.

"Antes do boxe, eu nada tinha", diz Nagisetty, 24 anos, que está treinando em outro ginásio, na cidade de Bophal, centro da Índia. "Quem é Usha? Ninguém sabia. Eu era gorda. Tinha notas médias na escola. Não acreditava que a vida tivesse muito a oferecer".

A ascensão do boxe surge em meio a grandes mudanças na vida das mulheres indianas.

Preeti Beniwal, 22 anos, de Hisar, uma pequena cidade no norte do país, viu a mudança começar em sua família. No tempo de sua mãe, as mulheres precisavam saber tricotar e cozinhar, se queriam boas chances de casamento. Hoje, diz, as mulheres capazes de ganhar a vida levam vantagem. "A geração atual é diferente", diz Beniwal. "Se a mulher for autossuficiente, conseguirá uma boa casa, um bom marido".

Beniwal vê o boxe como caminho para a independência. Mas também está preservando outras opções. "Caso fracassemos nesse ramo", ela diz, sobre o boxe, "precisamos conhecer o trabalho básico de uma mulher", ou seja, ser mãe e mulher.

O Estado em que ela vive, Haryana, é notório por outra disparidade sexual - a prática de abortar fetos do sexo feminino é tão comum, na região, que o equilíbrio entre os sexos foi radicalmente alterado. Em certas porções de Haryana e outros Estados do norte da Índia, há menos de nove meninas para cada 10 meninos.

Kom, de sua parte, já encontrou lugar entre os mais famosos atletas da Índia. Tem emprego vitalício no departamento de polícia, e recebeu do governo um bangalô onde vive de graça, bem como uma série de outras lucrativas honrarias, entre as quais o maior prêmio esportivo que a nação confere, o Rajiv Gandhi Khel Ratna, cuja cerimônia de entrega será realizada esta semana. O prêmio vem acompanhado por uma recompensa de quase US$ 15 mil em dinheiro.
 

The New York Times