| The New York Times |
 Reinvenção da cidade beneficiou o time de futebol americano local |
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Na sexta-feira passada, como em todas as sextas-feiras em que há jogos de futebol americano na Canadian High School, campeã estadual do esporte no Texas, uma bandeira negra e dourada foi hasteada na Main Street, diante da City Drug Soda Fountain. Um cartaz desenhado saudava os Wildcats na vitrine do Treasure's Beauty Salon. Mais adiante na mesma rua, no tribunal do condado de Hemphill, o distintivo do clube, na forma de uma pata de gato selvagem, decorava as unhas pintadas de preto e dourado que Sally Henderson exibia.
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Antes que um salão de manicure fosse inaugurado em Canadian, uma cidade pequena, próspera e ambiciosa na região rural do Texas, Henderson viajava 70 quilômetros de carro, até Pampa, ou 160 quilômetros, até Amarillo, para fazer as unhas com as cores do time, nos dias de jogo.
"Meu marido está contente porque não preciso mais viajar", diz Henderson, 52 anos, uma entusiástica assistente administrativa no tribunal do condado e mulher do xerife local. "Eu sempre parava no Wal-Mart, e a cada vez que fazia as unhas terminava gastando US$ 300".
Depois do fim de um boom do setor de energia, em 1985, o centro de Canadian se esvaziou. Mais de uma dezena de edifícios ficaram abandonados, alguns dos quais lacrados. Mas a cidade de 2.233 habitantes aprendeu a conviver com os ciclos de expansão e contração do setor de petróleo e gás natural, e no final dos anos 90 se refez como um centro regional de turismo ecológico. As lojas da rua principal foram restauradas, uma churrascaria famosa abriu as portas e um cinema com a mais recente tecnologia foi inaugurado.
Canadian é uma cidade tanto casual quanto hospitaleira, mas a cordialidade de cidade pequena vem acompanhada por esperteza metropolitana nos negócios. A cidade é um inesperado polo de transações de commodities, e serve como pregão alternativo ao de Nova York - ainda que com operadores que calçam botas de cauboi. E a reinvenção da cidade terminou por beneficiar da mesma maneira o time de futebol americano da Canadian High, o Canadian Wildcats.
Até 1992, a escola jamais havia vencido um jogo de playoff. Dois anos atrás, sob o comando do técnico Kyle Lynch, o Wildcats adotou um estilo ofensivo moderno e conquistou o título da segunda divisão estadual em 2007; em 2008, venceu o título da primeira divisão texana.
Nesta temporada, o time disputou quatro partidas e venceu todas, a despeito de ter perdido 20 integrantes que se formaram no ano letivo passado. A equipe está em busca do terceiro título consecutivo, e escola, cidade e time estão ligados por um senso compartilhado de orgulho, tradição, altas expectativas e reinvenção.
"Aqui, você precisa viajar 150 quilômetros para comprar roupas de baixo", diz Tresea Rankin, 50 anos, dona da lanchonete Rankin, que fornece seu famoso pão fermentado a sete restaurantes da região. "Você sempre tem a escolha entre fazer parte do mundo mais amplo ou criar um mundo próprio. Nós escolhemos criar o nosso".
Em termos de geografia e sustentabilidade, Canadian contesta muitos estereótipos da região rural do oeste do Texas. A região não é plana, mas ondulada, e em lugar de seca ela é verdejante. A cidade pode ser conservadora em termos sociais e políticos, mas demonstra um espírito cívico progressista.
Canadian evitou definhar por conta do êxodo da população para áreas urbanas, como aconteceu com outras pequenas cidades locais. Algumas delas não conseguem nem manter um time de 11 jogadores para o futebol americano. Em 1993, havia 83 escolas públicas no Texas que jogavam futebol americano com times de seis atletas, e esse número subiu a 125 hoje, de acordo com Granger Guntress, que opera um site sobre o futebol americano em versão de seis jogadores.
Canadian, porém, começa a treinar jogadores de futebol americano na terceira série, e conta com quase 100 meninos entre a nona e a 12ª séries - a maioria dos quais filhos de famílias trabalhadoras. Deles, 63 jogam nos times da escola.
"Nossa especialidade é a audácia", diz Laurie Ezzell Brown, editora do Canadian Record, o jornal local. "Não aceitamos o destino reservado às empoeiradas cidades da região. Chegou um momento em que decidimos que não queríamos definhar e morrer".
Brandon Robinson, o aluno de quarto ano colegial que serve como armador para o Canadian Wildcats e registrou 44 passes de touchdown e 3.269 jardas na temporada passada, chegou de Guthrie, Oklahoma, em 2007; seu pai, dono de uma empresa que aluga escavadeiras, anunciou à família que "nós vamos nos mudar para o boom do petróleo".
"Eu não queria aceitar e briguei com ele por muito tempo", diz Robinson.
Mas assim que chegou a Canadian, ele rapidamente se acomodou em uma cidade na qual, a cada quinta-feira, os moradores esperam ansiosamente que seja hasteada a bandeira verde que informa a chegada de uma nova edição do Canadian Record; na qual o próspero empresário Buddy King carrega uma vassoura e sacos de lixo em sua picape para varrer as ruas quando preciso; na qual uma proposta que está em debate no conselho escolar garantiria que todas as crianças da cidade tenham a oportunidade de fazer um curso superior, não importa a situação econômica de suas famílias.
"Todo mundo nos recebeu muito bem", diz Robinson.
A atual recessão causou um baque na prospecção de petróleo e gás natural e custou entre 400 e 500 empregos locais, estimam funcionários municipais. Mas Canadian continua a manter um dos mais prósperos distritos escolares do Texas, com 798 alunos da pré-escola ao segundo grau; o valor dos imóveis controlados pelo conselho escolar foi estimado em US$ 1,5 bilhão na mais recente avaliação.
Todos os alunos da sétima à 12ª séries receberam laptops do distrito. A equipe de tênis conta com quatro quadras na escola. A pista de atletismo usada para treinar a equipe campeã do Estado acaba de receber um novo piso. O time de futebol americano tem um campo com grama artificial, uma sede social com 780 metros quadrados que será inaugurada no mês que vem, e um sistema sofisticado de estatísticas computadorizadas capaz de acompanhar as jogadas dos times oponentes nos últimos cinco anos.
Todos os treinos são gravados em vídeo e estão disponíveis em um site, no qual Lynch os assiste a cada noite depois que seus dois filhos vão dormir. Em algum momento do futuro, ele planeja fornecer a senha do site aos seus jogadores.
"Não queremos que todas as jogadas cheguem ao YouTube¿, diz Lynch, 44 anos, rindo.
O futebol americano é o traço de união na cidade, diz Rankin. O filho dela, Jed, era jogador de defesa até se formar em 2008, e foi considerado o melhor jogador de defesa na primeira divisão texana na temporada passada. A edificação ao lado de sua casa, conhecida como "Galpão da Fama", exibe artigos de jornal, o uniforme de Jed e a camisa que ela usou (sem lavar) para assistir a cada partida da equipe na temporada campeã de 2007.
O futebol americano também reflete os ideais cívicos de Canadian: cuidar uns dos outros e batalhar por excelência em todos os aspectos. Salem Abraham, 43 anos, cuja família de origem libanesa tem papel importante na cidade há um século, saiu de Canadian para estudar finanças na Universidade Notre Dame mas retornou e hoje administra um fundo de hedge com US$ 450 milhões sob administração.
Em 1998, Canadian começou a promover o turismo por meio da construção de trilhas para caminhada e de excursões para observar a fauna local, e Abraham deu início a um projeto de US$ 3 milhões para renovar a área central da cidade.
Ele investiu mais de US$ 1 milhão na reconstrução do Palace Theater, um cinema com um século de idade, e instalou o avançado sistema de som desenvolvido por George Lucas e um sistema de projeção digital que, segundo o empresário, só existe em outras 68 salas dos Estados Unidos.
Ao criar um parque para skate, ele contratou o skatista Tony Hawk como consultor. Abraham é membro do conselho escolar, que, devido à riqueza gerada pelo petróleo, gás natural e agricultura, emitiu US$ 34 milhões em títulos de 2002 para cá - US$ 30,5 milhões dos quais vencem no ano que vem - a fim de melhorar suas instalações esportivas, laboratórios, bibliotecas e um auditório de 700 lugares que, espera o empresário, atraia espetáculos à cidade. O pai de Abraham, um médico aposentado, transformou a mansão de 750 metros quadrados da família em galeria de arte.
"Ninguém se mexe para contemplar coisas comuns", disse Abraham, sobre seu desejo de atrair à cidade visitantes de toda a região vizinha. "É preciso o máximo de esforço. Temos de ser excelentes".
O lema do time de futebol americano é "212 graus" - o ponto de fervura da água (em graus Fahrenheit). "Se a temperatura fica nos 99 graus, a água não tem força alguma", diz Lynch. "Mas basta um grau a mais de esforço e ela ferve, gerando vapor. Com vapor, é possível mover uma locomotiva".
Lynch insiste em que seus jogadores saibam vencer e perder com dignidade. O Wildcats não troca provocações com os adversários em campo, ajuda a equipe adversária a deixar o campo quando joga em casa e ouve com respeito os hinos das equipes oponentes.
"Odeio futebol americano, mas quero fazer parte do esforço", diz Diana McGarr, 64 anos, veterana professora de inglês da Canadian High School. "Adoro Kyle; ele é severo mas positivo".
Como em outras partes do Texas, o futebol americano é quase uma religião laica, por aqui. Quando Tandi, a filha de Rankin, quis marcar seu casamento para o dia 23 de outubro, a mãe vetou, transferindo o evento para o dia seguinte.
"O dia 23 era uma sexta", diz Rankin. "Tínhamos jogo contra a Booker naquela noite".
Quando chegarem os playoffs, em novembro, Rankin fornecerá sanduíches para as viagens da equipe, como fez nas temporadas dos dois títulos.
"Meu pão está invicto", afirma.
Mas até mesmo no Texas há limites para o apoio da cidade a um time escolar. Os planos para um centro coberto de treinamento foram cancelados depois que alguns moradores se queixaram do custo. Outras pessoas acreditavam que era melhor que o time treinasse a céu aberto, nas mesmas condições em que vai jogar.
"Não queremos criar atletas de estufa", diz a editora Ezzell Brown.
Tradução: Paulo Migliacci ME
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