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Natação
Segunda, 19 de outubro de 2009, 09h29  Atualizada às 09h31
Cielo quer ser lembrado como "rei" das provas de velocidade
 
Ana Carla Gomes
 
AP
Cielo quer dominar todas as provas de velocidade
Cielo quer dominar todas as provas de velocidade
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Sua vida nem sempre foi de certezas. Em Auburn, nos Estados Unidos, Cesar Cielo já se pegou pensando, às 5h35, o que estava fazendo longe de casa, cansado, indo para mais um treino. Mas foi recompensado nos Jogos de Pequim (2008) e no Mundial de Roma (2009). Até o fim do ano, ele curte o sucesso no Brasil, mas sem esquecer que quer ser ainda mais rápido nos 50 m e 100 m livre e marcar uma Era na natação.

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O Dia: Sua vida mudou completamente desde 2008?
Cesar Cielo: Depois da Olimpíada, já teve um momento completamente novo, que deu uma experiência muito boa para o que está acontecendo agora. Uma mudança grande foi mesmo após a Olimpíada.

O Dia: Tem curtido os convites fora das piscinas?
Cesar Cielo: Acho bacana este tipo de coisa como a campanha da Mr. Cat. É um negócio fora do meu meio e, ao mesmo tempo em que tiro foto, sei que não preciso me cobrar muito porque não sou modelo.

O Dia: E os treinos?
Cesar Cielo: Estou treinando como antes do Mundial, mas a cobrança está bem menor. Não estou me privando de comer "tranqueiras" (besteiras), ou de fazer um evento que me faça perder um treino.

O Dia: Antes, você não podia beber, sair à noite e tinha um "acordo" para não namorar. Foi sacrificante?
Cesar Cielo: Eu sabia que, se ganhasse a Olimpíada, a festa seria muito maior. Quando eu estava treinando para a Olimpíada, eu não estava mais nesse sistema do contrato da universidade, e mesmo assim não saía. Senão, ficava me torturando.

O Dia: Bateu uma dúvida?
Cesar Cielo: O tempo todo. A gente põe todas as fichas numa coisa incerta. Existe 1 milhão de pessoas fazendo a mesma coisa. Tem um momento que eu vou contar para meus filhos um dia. Era inverno, tinha nevado e ficou uma camada de gelo na calçada. Fui para o treino de mau humor, escorreguei e caí na rampa. Olhei para o relógio e pensei: "São 5h35 da manhã, eu estou com frio, cansado, estou longe da minha família. O que estou fazendo com a minha vida?".

O Dia: Em Pequim, veio a certeza de que valeu a pena...
Cesar Cielo: Aqueles 30 segundos em que você vê o placar e o momento do pódio são o pagamento. Foi bacana o que o Celso, um dos editores da Vip, me falou. Ele queria que eu desse uma volta numa Ducati para chegar na festa da Vip e meus patrocinadores não deixaram. Se cair não posso competir. Falei que não podia, mas que a moto era muito bacana. Ele pegou minha medalha e falou: "Você trabalha a vida inteira, economiza dinheiro e compra a moto. Já isso aqui é resultado de muito esforço e ninguém compra".

O Dia: As medalhas do Mundial estão no cofre também?
Cesar Cielo: Estão juntas com as da Olimpíada, para dar sorte (risos). Não tenho aquela coisa de olhar a medalha todo dia. Gosto de olhar a prova. Se quero a emoção, é só assistir ao pódio.

O Dia: Dá vontade de chorar ao rever as imagens?
Cesar Cielo: Eu seguro, mas dá vontade. Fico arrepiado. No pódio, a emoção bate como se fosse um filme, com os momentos difíceis. Para o Mundial, foi uma temporada fácil em relação a problemas. Para a Olimpíada, rolou um estresse louco, minha mãe teve que ir para lá, cheguei até a fazer acompanhamento com psicólogo.

O Dia: Como é o assédio?
Cesar Cielo: É espontâneo. Teve um cara que me pediu um controle remoto novo porque no meio da prova ele começou a bater o controle na parede e quebrou (risos).

O Dia: Você tem algum ritual?
Cesar Cielo: Eu gosto de ter tudo planejado, o horário em que eu vou aquecer, colocar o maiô, ouvir um pouquinho de música, desligar para me concentrar na prova e rezar um pouquinho.

O Dia: E a mania de se estapear antes das provas?
Cesar Cielo: Faz um tempo, eu estava assistindo a uma competição de halterofilismo e vi um técnico estapeando o cara. Ele falou: "Quanto mais forte o tapa, mais peso". Eu pensei: "Por que não vou nadar mais rápido se eu me bater?". Agora, na natação, fica uma barulheira antes da prova, todo mundo se batendo.

O Dia: Seus óculos foram banhados na água do Vaticano. Você é muito religioso?
Cesar Cielo: Sou, mas não sou de ficar indo na igreja. Mas sou do interior, fiz primeira comunhão...

O Dia: Está sempre em Santa Bárbara D'Oeste?
Cesar Cielo: Sempre vou lá. Meu pai é um dos médicos mais antigos da cidade. Às vezes, deixo com ele um bloquinho de assinaturas para ele dar aos pacientes que pedem. Às vezes, alguém vai bater no portão para pedir autógrafo.

O Dia: Ainda tem sonhos?
Cesar Cielo: Já ganhei as maiores competições. Mas a busca é de bater na borda e falar: "Esse é o tempo que eu mereço fazer". Ou ganhar uma competição o mesmo número de vezes que meus ídolos ganharam. Para quando chegar em 2020, o pessoal falar que, em 2008 e 2010, alguém dominou as provas de velocidade por um tempo. Tenho vontade de ser mais ou menos como o Pieter van den Hoogenband, da Holanda, e o Popov.

O Dia: Já pensou em encarar o Michael Phelps nos 100m?
Cesar Cielo: Ele é o cara da natação. Ele não vai entrar na prova de qualquer jeito. Mas a gente tem que confiar na nossa velocidade.

O Dia: Fora das piscinas, tem selecionado o que fazer?
Cesar Cielo: É difícil eu ir num programa em que vão ficar falando de futebol e vou ficar boiando. Nem sei a tabela do campeonato.

O Dia: Como convive com o interesse pela vida pessoal?
Cesar Cielo: Tento manter minha vida pessoal para mim. Na verdade, o pessoal quer me ver nadando, ganhando.

O Dia: Como concilia a agenda com a da Carol (a namorada, Carol Francischini)?
Cesar Cielo: Dá para conciliar tudo, desde que você se planeje. Mas é difícil, como eu vejo minha família uma vez por semestre e como eu não vi meu pai desde janeiro até o Mundial, em agosto.

O Dia: Para essa campanha da Mr. Cat, é verdade que você pediu Photoshop nos pés?
Cesar Cielo: Às vezes, em foto, fico com pé de pato. Nada que me incomode muito. Foi uma brincadeira com o pessoal da loja porque é difícil achar sapato do meu tamanho aqui no Brasil. Eu brinquei: "Vocês têm tamanho 46? Senão, vão ter que mandar um Photoshop aí". Mas eles têm!

O Dia: Tem outra cisma?
Cesar Cielo: Meus braços são grandes. Quando eu vou comprar terno tenho que mandar fazer.

O Dia: Dá para ganhar dinheiro com a natação?
Cesar Cielo: Consegui juntar um pouquinho. Mas não chega perto do futebol. A natação é um pouco injusta. Se você comparar o Phelps com o Federer ou com o Tiger Woods, verá que o salário dele é um quarto do dos caras. No Brasil é mais difícil. Tenho um amigo vice-campeão mundial, o Felipe França, que não consegue fechar patrocínio.

O Dia: Pensa em algum dia voltar a treinar no Brasil?
Cesar Cielo: Talvez, com as construções que a gente fará para a Olimpíada, e se tiver um legado bacana já depois dos Jogos de 2012, e houver um investimento maior. Se eu sentir que em 2013 ou 2014 o Brasil está pronto para ser um lugar de treinar os melhores do mundo, eu volto.

O Dia: Já pensou em como será a aposentadoria?
Cesar Cielo: Vou continuar até a hora em que estiver ganhando (risos). Pode ser 2016, 2020. E sigo no esporte. Já tem um projeto em Santa Bárbara de piscinas públicas. E outro de alto rendimento. Será como a Cidade da Natação e pode ser opção para a Seleção fazer clínicas ou até treinos.


 

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