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Pai abre portas do Jardim Ângela e mostra passado de Leandro Damião

14 set 2011
10h17
atualizado às 10h31
Dassler Marques
Direto de São Paulo

Seu Natalino ainda conserva o mesmo bigode, aparado de forma cuidadosa semanalmente, mesmo antes de se tornar o pai de Edimar, Leandro e Jéssica. Também continua sendo o roupeiro alegre do Tupicity, clube da várzea paulistana. Para chegar a sua humilde casa, segue sendo necessário subir as vielas do Jardim Ângela, um dos mais populares bairros de São Paulo. Mas, ali em seu quarto com pouco mais de 15 metros quadrados, a coleção de camisas dele, o pai de Leandro Damião, não para de crescer.

» Vídeo mostra Leandro Damião nos tempos da várzea

A lista de camisas é cada vez maior, mas seu Natalino recebe o Terra de moletom colorado, com o número 22, o de Damião na Copa Libertadores de 2010. No quarto, ele tem uniformes do Corinthians, do Estrela da Saúde, Tupicity, Atlético de Ibirama, Internacional e, claro, Seleção Brasileira. Essa última o "bigode de ouro" recebeu cuidadosamente do filho, na última semana, depois do gol da vitória no amistoso entre Brasil e Gana. Nesta quarta-feira, contra a Argentina, espera mais.

"Geralmente ele me promete gols. Ele me ligou na segunda-feira e estava todo entusiasmado. Argentina é jogo duro, não é mole, mas depois desse gol contra Gana ele vai longe", conta Natalino, homenageado por Leandro Damião com o tradicional gesto do bigode na comemoração após o primeiro gol com a amarelinha. Na noite desta quarta, às 21h50 (de Brasília), ele estará na frente da televisão de olho no filho, o homem do momento no futebol brasileiro.

Em seis dias, Leandro Damião desafiou a lógica. Na segunda-feira retrasada, contra Gana, fez o gol do Brasil, que venceu por 1 a 0 em Londres. Na quarta-feira, já estava com a camisa 9 do Internacional, no Beira-Rio. Atuou desde o início contra o América-MG e marcou um na vitória colorada. Domingo, em São Paulo, marcou três contra o Palmeiras, então dono da melhor defesa da Série A. Chegou a 40 gols só neste ano. O valor de seus direitos econômicos, cobiçados por Barcelona, Arsenal e Porto, não para de aumentar. A rescisão de 50 milhões de euros já não parece coisa de outro mundo.

Se tudo tem sido diferente para Leandro Damião, Seu Natalino, verdade seja dita, já está disposto a também mudar de rotina. Há alguns meses, recusou quando a nora sugeriu que deixasse a comunidade do Jardim Ângela para morar em um condomínio paulistano. "Prédio cheio de gente eu não ia querer. Melhor continuar aqui por enquanto". Mas ele tem uma ideia clara para quando encontrar com Leandro novamente.

"Ele tem tido coisas que eu nunca tive nesses 49 anos. Então eu quero ficar perto dele, lá em Porto Alegre. Quero passear, quero curtir com ele, quero aproveitar um pouco disso", fala o "bigode de ouro", com simplicidade, timidez e o olhar sempre para baixo. Os domingos, ele planeja, voltarão a ser como antes, quando o prazer era acompanhar Leandro Damião.

Na infância de Leandro e Edimar, o irmão mais velho, Seu Natalino só sabia trabalhar. Por 13 anos, foi caseiro de um condomínio. Trabalhava de segunda a sábado, das 7h às 19h. O programa de domingo era sempre o mesmo: levar os filhos para o campo para jogar bola. Mas, ele admite, não imaginou que Damião pudesse se tornar homem de 40 gols em 47 jogos disputados nesta temporada. "Era o sonho da família, mas ninguém ia pensar que fosse ocorrer tudo tão rápido".

Noc e Júnior, que conviveram com Leandro Damião no Tupicity, seu time na várzea, também não conseguem acreditar que ele virou tudo isso. "Quem poderia imaginar", se questiona Júnior. É verdade que, em 2007, o centroavante dava sinal. Leandrão, como era conhecido, foi uma das estrelas da Copa Família Tupicity, com 16 times do Jardim Ângela em disputa. Naquele ano, foi campeão, artilheiro e fez gol na final. Também havia participado da Copa Kaiser, com o Estrela da Saúde, e até marcou três gols.

Naquela época, lembra Natalino, Damião já dava mostras de que seria um homem responsável, de comportamento exemplar e jamais expulso pelo Inter. "Ele só teve duas namoradas. A Nádia, a segunda, é a mulher dele até hoje", conta o pai, que apesar da distância impunha uma educação rígida ao pupilo. Leandro se casou no civil em julho e deve fazer uma cerimônia religiosa em breve, em São Paulo.

"Bom de escola ele nunca foi, mas não aprontava. Era divertido, inteligente, mas matava aula para jogar futebol. Eu ficava sempre monitorando... ligava do trabalho para saber se estava em casa e nunca deixei ficar parado pelas esquinas, que só dá encrenca. Também não deixava jogar fliperama, porque isso não dá nada de bom", conta orgulhoso.

Os outros dois filhos, ele diz, também estão bem encaminhados. Jéssica, a caçula, estuda e trabalha para ser professora em Jardim Alegre, no Paraná. É lá que mora com a avó de Leandro. "Olha aqui a foto dela. É uma princesa. Se fizer teste para modelo, passa na hora", mostra Natalino - a filha é alta e magra, como Damião. Edimar, "que jogava muito", recentemente deixou o emprego de motoboy para trabalhar com telemarketing. É outro que continua morando no Jardim Ângela.

No fundo, seu Natalino celebra o sucesso de uma vida dedicada aos filhos. Desde que se separou de Rosa, a mãe de Leandro, ele mora sozinho. "Tenho uma quase esposa. Minha futura esposa. Estamos juntos há 14 anos, mas cada um na sua casa", lembra. Nos planos de morar em Porto Alegre, ela é que vai ter que escolher. "Já avisei a nega velha. Se quiser ir comigo, vamos embora. Mas não casei até hoje por causa disso. Quero acompanhar o Leandro".

O primeiro passo, recentemente, já foi dado. Seu Natalino era faxineiro de um edifício em Jaguaré, bairro de São Paulo. Pediu dispensa do trabalho para ir a Porto Alegre e, animado com os gols de Leandro Damião, demorou seis dias para voltar. O jeito foi se demitir. Agora, ele sabe que é a hora de descansar e surfar na onda do camisa 9 da Seleção Brasileira. Nada mais justo para o "bigode de ouro".

Fonte: Terra
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