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Joaquim Cruz apoia críticas de Cielo e pede mudanças no esporte

25 jan 2011
08h41
atualizado às 18h11
Anderson Giorge Regio
Direto de Christchurch (Nova Zelândia)

Único brasileiro a ser campeão olímpico de atletismo em prova de pista, Joaquim Cruz está meio "desaparecido" dos holofotes no País. Aos 47 anos, o ex-corredor reside há 30 nos Estados Unidos, onde trabalha em San Diego em uma clínica de reabilitação de um hospital naval e atua em um centro olímpico de Chula Vista. Mas por que o medalhista de ouro dos 800 m em Los Angeles (1984) não tem uma atuação mais direta na política e preparação de atletas em sua terra natal?

Com duas medalhas olímpicas, Joaquim é o comandante de um instituto que leva o seu nome em Brasília, onde busca com a prática esportiva tentar ajudar crianças de origem carente. No entanto, está distante do Brasil, vem algumas vezes por ano para acompanhar o instituto e também participar de reuniões com a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo). Mas o ex-corredor está mais ligado ao atletismo americano e tem papel importante na equipe paraolímpica de atletismo.

Em uma conversa com jornalistas durante o Mundial Paraolímpico de Atletismo, em Christchurch, na Nova Zelândia, o medalhista de ouro de Los Angeles não poupa críticas à falta de rodízio no poder do esporte brasileiro e defende César Cielo, campeão olímpico dos 50 m em Pequim 2008 que recentemente criticou, em entrevista à revista Poder, a presença de Coaracy Nunes desde 1988 no comando da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos). "O Brasil precisa de ideias novas para acompanhar o resto do mundo", comentou.

Entre os exemplos de tempo no poder estão: Carlos Arthur Nuzman comanda o COB (Comitê Paraolímpico Brasileiro) desde 1995, Ricardo Teixeira é presidente da CBF desde 1989, Roberto Gesta de Melo está na CBAt desde 1987, entre outros. Antes de deixar a presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva também reclamou da falta de rotatividade. "Vocês podem ver os anos que os dirigentes estão lá e avaliar se melhorou ou não", completou Joaquim, em tom crítico.

Joaquim também citou a ligação do esporte com a educação nos Estados Unidos e afirmou que o Brasil teria de se preocupar em revelar tantos para 2020 e 2024, já que a preparação para o Rio 2016 está comprometida. "Se a gente não corrigir agora, passando a Olimpíada (de 2016) pode esquecer", comentou.

Veja trechos da entrevista:

Vida nos EUA
"Passo três ou quatro dias da semana trabalho, em Chula Vista, em um centro olímpico. E segunda, quarta e sexta no centro de reabilitação de um hospital da base naval de San Diego."

Projeto no Brasil
"Único projeto é o do instituto (Joaquim Cruz, no Distrito Federal) que continua. Nós vamos entrar em um novo ano e vamos modificar um pouquinho os eventos do instituto, melhorar um pouco mais."

César Cielo e críticas a Coaracy Nunes
"Nós estamos em uma posição que o atleta pode falar. No caso do Cielo, ele mora, treina e compete nos Estados Unidos, e tem know how (conhecimento) sobre o assunto. Infelizmente os nossos dirigentes não mudam muito. Ou porque (alegam) não existe gente nova ou porque não dão oportunidade. O esporte tem que evoluir."

"Não estou mais no esporte (dia a dia de comando da equipe paraolímpica dos EUA) e uma nova geração me aposentou (substituiu). Assim que tem de ser. O esporte é dinâmico, por isso tem que trazer gente nova e se renovar com ideias. Só assim o esporte pode ficar competitivo. O Brasil precisa de ideias novas para acompanhar o resto do mundo."

Longevidade no poder
"Eu não vou nem tocar nesse assunto (renovação). Você vê os anos que os dirigentes estão lá e você toma a conclusão. Eu estou morando nos EUA há 30 anos e agora estou em uma posição completamente diferente."

"Eu encerrei um ciclo que terminava na Paraolimpíada de Pequim (2008), depois tivemos uma reunião para Londres 2012 e me colocaram em uma nova posição."

"Estou acostumado a essa dinâmica. Em Christchurch, os americanos vieram com uma delegação com mais de 52 atletas e me pediram para vir e ajudar. Me contrataram agora para um novo programa já visando 2016. Lá tem planejamento e ação."

Trabalhar no Comitê Paraolímpico Brasileiro
"Antes eu e trabalhava como consultor, agora sou funcionário. Isso não me impede de conversar com o Brasil. Dois anos atrás, Londres (comitê britânico) quis me contratar. Conversei com minha mulher... Mas antes de mudar para Londres, eu gostaria de voltar para o Brasil."

"Tendo uma boa possibilidade, por que não? Eu não estaria indo para Rússia ou China (risos)..."

Convite da CBAt
"A CBAt me fez um convite logo depois que o Brasil ganhou o direito de sediar a Olimpíada (de 2016). Eles me ligaram para saber se eu gostaria de voltar. O problema que eu não estaria voltando sozinho, pois a minha família está toda nos EUA... Tem de ser uma coisa bem trabalhada..."

Falta de talentos nas pistas
"Nós temos um buraco enorme no esporte de base, não temos esporte nas escolas, então fica difícil tirar qualidade se não temos quantidade. a gente depende muito dos clubes e infelizmente o atletismo é de pessoas humildes."

"O garoto tem de apresentar o resultado primeiro para ter condições e esse é um problema sério. Se a gente não corrigir agora, passando a Olimpíada (de 2016) pode esquecer."

Esporte na escola
"Nós temos de corrigir o problema do esporte de base para tirar (talentos de) qualidade para 2020 e 2024. Precisamos introduzir o esporte na escola ontem, pois não conseguiremos de outra forma ter renovação. É muito difícil um programa funcionar em cinco anos."

Exemplo americano
"Nos Estados Unidos, educação no esporte começa dentro de casa. O papel é do pai de introduzir o esporte na vida da criança, levá-la a centros comunitários e o garoto vai se desenvolver. No segundo grau tem os programas de esportes para os estudantes, para o aluno-atleta e quem não quer praticar o esporte faz a educação física regular."

"No Brasil mudaram o sistema e a educação física foi integrada a grade, mas não ofereceram nenhuma opção ao estudante-atleta. Em 50 minutos quem consegue realizar um trabalho?"

"A educação física nos EUA também está ligada à grade escolar, mas há opção para o estudante que quer praticar o esporte. E é dali que vão se formar os atletas que vão cursas universidade e que vão receber bolsa praticar o esporte."

"É o modelo que todo mundo sai ganhando no processo: a comunidade ganha, o país ganha e o garoto também."

"Ele cursa a universidade e vai depois produzir de uma forma construtiva para a sociedade. A maioria nem vira atleta, vai ser professor, advogado, cientista..."

Joaquim Cruz faz críticas à falta de estrutura no Brasil
Joaquim Cruz faz críticas à falta de estrutura no Brasil
Foto: Anderson Giorge Regio / Terra
Fonte: Terra
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