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Entre amigos, uma medalha de ouro é perdoável

3 mar 2010
17h00

Para os torcedores do Pittsburgh Penguins, está tudo perdoado.Mais de 17 mil torcedores - muitos dos quais vestiam a camisa vermelha e branca que Sidney Crosby defendeu na seleção nacional canadense de hóquei- estavam aglomerados no Igloo, saudando freneticamente o astro e capitão do Penguins pelo ouro olímpico conquistado, antes do início da partida contra o Buffalo Sabres, na terça-feira.

Mas a medalha de prata conquistada pelos Estados Unidos tampouco foi esquecida. Ryan Miller, goleiro do Sabres e da seleção norte-americana, e eleito como melhor jogador do certame de hóquei olímpico, estava entre os participantes da olimpíada - cinco jogadores em cada time- que foram apresentados antes do jogo. Quando o nome do goleiro foi anunciado, uma ovação estrondosa tomou o rinque, e alguns torcedores também gritaram "USA! USA!"

Miller, que teve folga na partida, agradeceu os aplausos, cumprimento os fãs com o taco. No começo, os sentimento da audiência com relação a Crosby pareciam contraditórios. Quando seu gol, feito na prorrogação e que deu o ouro ao Canadá com vitória por três a dois sobre os Estados Unidos, foi exibido no telão, surgiram vaias.

Mas quando nome dele foi anunciado, os apupos se tornaram aplausos. Crosby fez uma assistência para o primeiro gol da vitória do Penguins por três a dois, e jogou quatro minutos a menos que sua média de 21 por partida.

"Eu provavelmente poderia ter jogado mais", disse ele. "Mas todos os jogadores estavam bem, e o jogo de equipe foi forte". Ouvir os torcedores de seu time aplaudir Miller não incomodou Crosby.

"Não espero que eles fiquem felizes com aquilo", ele declarou sobre a vitória canadense. "Estamos em uma cidade dos Estados Unidos, e os moradores locais são patriotas e orgulhoso; por isso, compreendo os sentimentos deles."

Miller disse que "é bom que a olimpíada tenha ajudado a despertar esse entusiasmo entre os torcedores da NHL. Especialmente na costa leste, isso é perceptível. No Canadá, a torcida vaia mesmo os visitantes, e é agradável ouvir aplausos da torcida em jogo fora de casa. Mas creio que isso seja uma das coisas boas sobre a torcida de hóquei. Gostam do jogo. Eles não pensam apenas em seu time, mas no esporte de forma mais ampla".

Crosby disse que os jogadores da NHL deveriam disputar os jogos olímpicos de 2014. "A olimpíada foi assistida em toda parte. Acredito que os torcedores de hóquei de todo o mundo apreciaram os jogos", disse. - Por isso, não imagino que a NHL não nos deixe participar. Depois daquilo que experimentei, e daquilo que creio os torcedores tenham experimentado, não acredito que haja razão para que não vamos."

"Não sei se poderemos um dia sentir de novo a mesma emoção", disse Crosby sobre a conquista da medalha de ouro pelo Canadá. "Creio que me disseram que 85% da população do país assistiu ao jogo. Foi divertido e, claro, uma grande pressão, e não acredito que eu jamais volte a ver algo semelhante."

Broos Orpik, defensor do Penguins e integrante da seleção olímpica dos Estados Unidos, disse que a derrota foi "decepcionante", mas que está satisfeito com a maneira pela qual a partida transcorreu.

Orpik tinha um colega, em termos de emoções, do outro lado do rinque, na partida da terça-feira: Miller tampouco havia conseguido superar sua amarga decepção com a derrota.

"Todos nós sentíamos que poderíamos jogar hóquei de qualidade contra eles", disse. "Foi uma infelicidade que não tenhamos realizado algo de ainda maior."

Crosby reconheceu que a fadiga física e mental da olimpíada significava que ele teria depender da adrenalina e de um plano de "jogar simples", para se sair bem no gelo até que ele e os demais atletas olímpicos na equipe do Penguin estejam recuperados.

"Foram duas semanas difíceis, com muitos altos e baixos", ele afirmou. "Se você estudar o torneio, tivemos de vencer quatro partidas que poderiam nos ter eliminado, em seguida, para conquistar o ouro. Foi uma montanha russa, e quero voltar logo à rotina, aqui."

Para reconduzir os atletas olímpicos gradualmente de volta à equipe, depois de duas semanas de esforço, Dan Bylsma, técnico do Penguins, decidiu poupar o goleiro Marc-André Fleury, que esteve com a seleção do Canadá embora não tenha jogado partida alguma na olimpíada. Crosby e Orpik jogarão menos minutos por partida, durante algum tempo.

Para além do impacto físico e emocional do jogo de domingo, Crosby reconheceu que sua fama havia crescido ainda mais, embora ele já seja um dos astros mais conhecidos da NHL e uma das pessoas mais famosas do Canadá. "Não acreditava que as coisas pudessem ficar ainda mais complicadas, mas agora acho que ficaram", disse. "É seguro dizer."

Orpik brincou, dada a popularidade de Crosby no Canadá: "ele provavelmente vai querer morar aqui quando se aposentar, como Mario", afirmou, fazendo referência ao também canadense Mario Lemieux, proprietário do Penguins e um dos grandes astros do passado do hóquei, que vive perto de Pittsburgh.

Na viagem de volta a Pittsburgh, Orpik e Crosby trocaram histórias sobre suas experiências nos selecionados nacionais, sobre o clima da vila olímpica, e esclareceram algumas jogadas mais brutas que travaram no jogo da primeira fase entre os dois países.

"No primeiro jogo, ele me rachou, eu acho que com uma cotovelada, mas ele diz que foi de ombro", disse Orpik. "Depois, acho que revidei perto do fim do jogo. Rimos bastante sobre isso depois da partida".

Traduzido por: Paulo Migliacci

Sidney Crosby foi campeão com o Canadá em Vancouver
Sidney Crosby foi campeão com o Canadá em Vancouver
Foto: AP
The New York Times
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