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Gastos excessivos e críticas embalam os Jogos de Vancouver 2010

9 fev 2010
16h36
Antonio Prada
Direto de Vancouver

Acusações de planejamento inadequado, falta de transparência em contratos e uso exacerbado de dinheiro público, custos cinco vezes superiores ao orçado originalmente e um debate quase sem fim sobre a real necessidade dos Jogos Olímpicos. Não se trata de uma discussão sobre o Rio 2016. O epicentro desse imbróglio é uma cidade do primeiro mundo, das melhores para se viver no planeta, com cerca de 600 mil habitantes, e reduzidos problemas econômicos, sociais e de infra-estrutura.

Pichador faz sátira com os anéis olímpicos às vésperas da cerimônia de abertura
Pichador faz sátira com os anéis olímpicos às vésperas da cerimônia de abertura
Foto: Reinaldo Marques / Terra

Às vésperas da abertura dos Jogos de Inverno de 2010, programada para a próxima sexta-feira, Vancouver, maior área metropolitana no oeste do Canadá, vive o drama de uma cidade que lutou para conseguir ser uma sede olímpica e agora se depara com o pesado fardo de altos custos não previstos no orçamento e as incertezas do legado que deixará para a população.

Vancouver conquistou o direto de sediar os Jogos de Inverno de 2010 em 15 de julho de 2003 ao derrotar a cidade coreana de PyeongChang por uma diferença de três votos na eleição realizada pelos membros do Comitê Olímpico Internacional (COI). De lá para cá viu seu orçamento saltar de US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 2,43 bilhões em cotação atual) para US$ 6 bilhões (R$ 11,2 bilhões), incluindo todas as obras de infra-estrutura realizadas na cidade e região. Leia-se dinheiro público.

Após a crise de 2008, aumentou o consenso de que os projetos não iriam alcançar as metas econômicas previstas inicialmente. A construção da Vila Olímpica, por exemplo, foi vendida como um projeto lucrativo, mas críticos acreditam que irá deixar como saldo um prejuízo de milhões de dólares. Os organizadores dos jogos não quiseram, até o momento, comentar essa possibilidade.

Os críticos dizem também que tal volume de investimento deveria ser gasto em causas sociais, incluindo dinheiro para os sem-teto de Vancouver, muitos vivendo num gueto no centro da cidade repleto de viciados e traficantes, ou para as populações indígenas e setores atingidos pela crise econômica, como o pesqueiro e o florestal. Citam para tanto o exemplo de outra cidade canadense, Montreal, cuja aventura olímpica, em 1976, deixou dívidas que demoraram 30 anos para serem quitadas.

Outro embate que vem desgastando a organização dos Jogos é a destruição de áreas naturais, particularmente Eagleridge Bluffs, para a construção de uma nova rodovia. Apesar da bandeira de a mais verde das olimpíadas e do compromisso de total sustentabilidade, Vancouver 2010 vem sendo atacada por ambientalistas como "uma das mais destrutivas da história". Some-se a isso ainda a oposição de indígenas da região e seus aliados, que vêem nos jogos uma ameaça ao turismo indesejado e especuladores aos seus territórios.

A mais recente crise é a falta de neve em Cypress Mountain, local das competições de snowboard e esqui estilo livre. Os organizadores e políticos culpam as inesperadas altas temperaturas deste começo de ano pela catástrofe - foi o janeiro mais quente da história da cidade desde que os meteorologistas fazem medições. Uma operação sem precedentes e com custos ainda não revelados vem trazendo neve em caminhões e helicópteros de áreas até 250 quilômetros distantes de Vancouver. O problema, no entanto, não é recente, ao contrario do que alegam. No ano passado, a Copa do Mundo de slalom gigante já havia sido cancelada por falta de neve.

Vancouver sofre das mesmas síndromes de outras cidades que resolveram encarar o desafio olímpico. Segundo Harry Hiller, professor e especialista em mega-eventos urbanos da Universidade de Calgary, "o que os organizadores de Vancouver 2010 estão tentando fazer obviamente é reduzir qualquer coisa que possa dar errado, porque isso vai ser o que as pessoas vão se lembrar dos Jogos Olímpicos - não as coisas que vão dar certo, mas as coisas que vão dar errado".

Não à toa os Jogos de Salt Lake City, em 2002, ficaram marcados por um escândalo de suborno envolvendo o comitê de candidatura. A cidade havia se candidatado outras duas vezes para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno. Na última, para os Jogos de 1998, perdeu por uma diferença de quatro votos para Nagano, no Japão.

Para 2002, a candidatura americana decidiu investir estrategicamente, oferecendo diversos presentes e vantagens a membros do Comitê Olímpico Internacional. Pelas regras do COI, uma cidade candidata precisaria obter maioria absoluta dos votos para ser escolhida sede. A cidade americana conseguiu mais de 60% logo na primeira rodada, recebendo assim o direito de organizar os Jogos.

O escândalo envolvendo a eleição ganhou foco em dezembro de 1998, gerando pedidos de demissões de membros do Comitê Organizador nos meses seguintes. A investigação do COI gerou a expulsão de um membro e a suspensão de outro. O episódio foi classificado, pelo então presidente do COI Juan Antonio Samaranch, como o pior escândalo já enfrentado por ele em seus 21 anos de presidência.

A China comunista, que investiu US$ 43 bilhões (R$ 80,5 bilhões em valores atuais) para os Jogos de Pequim, em 2008, abriu-se às críticas sobre os direitos humanos do país e aos problemas de poluição. O mundo ficou perplexo com a extravagância das instalações do chamado Ninho de Pássaro, o estádio que melhor representou o sucesso das olimpíadas, a despeito das exceções chinesas.

Dois anos depois, o complexo com capacidade para 91 mil pessoas esta às traças. Neste momento, o estádio serve como um parque de diversões de inverno conhecido como o Happy Ice. Em abril, um promotor local pode realizar um concerto de rock para "estabelecer a China como um líder mundial para a paz mundial e um planeta mais saudável". Ou não, como dúvida o jornal The New York Times. O governo chinês já diz que pode construir um centro comercial aproveitando a estrutura do estádio. Lições olímpicas para Vancouver 2010, Londres 2012 e, claro, Rio 2016. Ou não.

Jogos Olímpicos de Inverno no Terra

O Terra transmitirá ao vivo a competição em 15 canais simultâneos de vídeo a partir do próximo dia 12. Além disso, os usuários terão a possibilidade de assistir novamente a todo o conteúdo a qualquer momento. Todo o acesso é gratuito.

Uma equipe de 60 profissionais estará encarregada de fazer a cobertura direto de Vancouver e dos estúdios do Terra, em São Paulo, no Brasil, com as últimas notícias, fotos, curiosidades, resultados e bastidores da competicão.

A equipe conta com a participação do repórter especialista em esportes radicais Formiga - com 20 anos de experiência em modalidades de neve -, e o pentacampeão mundial de skate Sandro Dias, que comentará a competicão em seu blog no Terra.

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Fonte: Terra

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