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Para delírio dos fãs, Kim eleva o nível da patinação

28 fev 2010 04h59
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Jere Longman

Vestida em azul-celeste, ao lado de Gershwin, Kim Yu-Na, da Coreia do Sul, praticamente voou pelas nuvens com seus altos saltos e sua elegância aérea na noite de quinta-feira, ganhando uma medalha de ouro olímpica e um lugar de destaque como a maior patinadora artística de todos os tempos.

Demonstrando superioridade técnica e graça etérea aos 19 anos, Kim teve um desempenho de recorde mundial com 228,56 pontos no total. Números não podem descrever completamente a engenhosidade, complexidade e talento artístico de sua patinação, exceto neste contexto: Kim teria terminado em nono na competição masculina, quase 10 pontos à frente do campeão nacional americano Jeremy Abbott.

Mao Asada, do Japão, se tornou a primeira mulher a realizar dois triple axels durante a patinação artística dos Jogos de Inverno, mas terminou em um distante segundo lugar por uma diferença de mais de 20 pontos. Mesmo antes da apresentação de Asada, ela sabia que suas chances para o ouro eram mínimas após a performance refinada e charmosa de Kim.

"Escutei a multidão ficando louca", disse Asada. O que as 11.771 pessoas no Pacific Coliseum testemunharam foi uma combinação sem precedentes de dificuldade técnica e esguia sofisticação enquanto Kim se tornava a primeira patinadora sul-coreana a ganhar uma medalha de ouro olímpica. Ela sofria enorme pressão pelo sucesso como uma atleta, um ícone cultural e uma competidora contra o Japão, que ocupou a península coreana por 35 anos até o fim da Segunda Guerra Mundial.

"Hoje, estava mais confiante do que nunca", disse Kim, campeã mundial de 2009. É impossível comparar com precisão patinadores de tempos diferentes. As regras mudam. Cada vez mais o atletismo exige um lugar ao lado da arte. Mas inúmeros antecessores do ouro de Kim estavam presentes na quinta-feira, e todos se impressionaram por Kim ter sido tão aprumada e vivaz em suas apresentações e saltos.

"Como comparar isso a Sonja Henie?", disse Kristi Yamaguchi, campeã olímpica de 1992, se referindo à três vezes medalhista de ouro da Noruega das décadas de 1920 e 30. "Tudo é relativo ao tempo e à época." Entretanto, continuou Yamaguchi: "Certamente, levou a patinação feminina a outro nível. Tecnicamente. O pacote inteiro."

Segura, serena, Kim abriu com uma combinação de triple lutz e triple toe; um triple flip; e uma combinação de double axel, double toe e double loop. Nos quatro minutos do programa desafiador, ela patinou com velocidade, leveza e uma franqueza de estilo que seu técnico, Brian Orser, chama de altruísta e acolhedor.

"Ela alcança a última fileira do ginásio", disse Orser antes da apresentação. "As pessoas se sentem convidadas a apreciar a performance tanto quanto ela." Na quinta-feira, Kim moveu-se como uma pena sobre o gelo.

"Tecnicamente, ela é a maior de todos os tempos", disse Ted Barton, canadense que ajudou a desenvolver o novo sistema de pontuação. "Se ela patinar por um pouco mais de tempo e continuar assim nos próximos três ou quatro anos, ela será a maior patinadora de todos os tempos."

Scott Hamilton, campeão olímpico de 1984, comparou Kim a Seabiscuit, o cavalo de corrida puro-sangue, por ser uma atleta dominante que desencoraja os competidores.

"Yu-na foi líder apenas por alguns anos", disse Hamilton. "Mas se ela estiver nesse nível daqui a quatro anos, muita patinadora vai entrar em colapso. Elas vão tentar elevar tanto o nível que começarão a se machucar. Não existe fraqueza ali. Compare-a com qualquer outra, ela tem tudo. Sob qualquer sistema, em qualquer lugar ou época, ela venceria."

Elogios a Kim aparecem aos montes nestas Olimpíadas. Michelle Kwam, duas vezes medalhista olímpica, disse: "Ela é a patinadora mais veloz que já vi." Katarina Witt, campeã olímpica de 1984 e 88, disse: "Ela tem leveza na patinação e salta muito alto."

Dorothy Hamill, campeã olímpica de 1976, disse: "Ela tem tudo. Seus saltos são altos, sempre. Você não tem um grande seguido por um pequeno. Acredito que ela tenha evoluído na coreografia. Ela é muito musical. Tudo junto é muito belo e atlético, mas não atlético demais. Não sinto que falte alguma coisa quando estou assistindo a ela."

Há aqueles que acreditam que o novo sistema de pontuação, com suas incessantes demandas técnicas nos saltos, passos e giros, não dê espaço para que as patinadoras tenham o mesmo carisma e marca artística presentes em Peggy Fleming, Hamill e outras estrelas de eras anteriores.

"Quanto a Kim ser reconhecida como um artista lendária, não acredito", disse Frank Carroll, que treinou Mirai Nagasu, dos Estados Unidos, que terminou em quarto. "Como uma patinadora realmente boa, tecnicamente, isso sim."

David Kirby, técnico americano e especialista técnico, disse: "Claramente ela é a melhor, mas porque tem a melhor técnica. Ela é 70% esporte, 30% arte. Peggy Fleming era uma verdadeira artista e uma verdadeira atleta. Não acho que esse equilíbrio de arte e esporte esteja na campeã olímpica deste ano."

Esse debate seria visto como uma discussão sobre mesquinharias na Coreia do Sul, onde Kim é a atleta mais popular do país. O interesse na rivalidade Kim-Asada é tão intenso que os repórteres e fotógrafos coreanos começaram a chegar ao ginásio 12 horas antes da competição, apenas para descobrir que alguns de seus colegas japoneses haviam passado a noite no rinque.

"Isso não é esporte, é guerra", disse rindo o repórter Lee Jiseok, do jornal Daily Sports Seoul. Ele e seus colegas já tinham histórias preparadas sobre Kim, sua mãe e seu técnico. "Se ela perder, estamos perdidos", disse Lee. "Vamos ter que explicar por que ela perdeu."

Isso não seria necessário, Kim ganhou no evento mais glamoroso da Olimpíada de Inverno. "Acho que o país inteiro está em frente à televisão", disse John Moon, chefe de gabinete do Comitê Olímpico Sul-Coreano. "Kim Yu-na é a irmã preferida do país. Todo atleta é importante, mas a medalha dela é mais importante do que a dos outros. Ela é bonita. Ela é nosso orgulho. Acho que os coreanos vão beber muito."

Amy Traduções

Patinação Artística (F) - Livre - Final:
The New York Times
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