PUBLICIDADE

Paralítica, francesa troca esqui por microfone

28 fev 2010 15h18
| atualizado às 16h27
Publicidade
CHRISTOPHER CLAREY

O plano era que Sandra Laoura voltasse ao Canadá, país onde ela perdeu a capacidade de andar. Ela faria as pazes com o lugar e, ao mesmo tempo, com as Olimpíadas. Mas tem sido inesperadamente difícil para Laoura encontrar paz, tendo ganhado o bronze na prova de moguls dos Jogos de Inverno de 2006, em Turim, na Itália, e trabalhando no Canadá como repórter para a France Televisions.

Ela caiu da cadeira de rodas, lembrete diário de sua dependência, decepcionou-se profundamente no moguls da Cypress Mountain e, acima de tudo, teve muitos pensamentos e emoções à flor da pele enquanto olhava de fora os Jogos Olímpicos nos quais pretendia competir.

"Estava esperando uma Olimpíada feliz para que eu pudesse me restaurar", Laoura, 29 anos, disse em entrevista na residência da equipe olímpica francesa. "E estou percebendo que esta Olimpíada é triste para mim, por isso vai ser mais difícil voltar à França e superar certas coisas".

O olhar de Laoura é aberto, intenso e detecta qualquer traço de insinceridade ou pena: as duas emoções que considera mais difícil suportar na expressão de alguém. Embora tenha tido dias bons desde seu acidente em 2007, atualmente ela vivencia dias especialmente difíceis.

Seu mundo mudou em 5 de janeiro de 2007, em Mont-Gabriel, um resort de esqui perto de Montreal. Ela se preparava para a primeira competição da Copa do Mundo na temporada e estava na última corrida e no último salto da sessão. Então, por razões ainda não completamente explicadas, ela iniciou um back flip e não finalizou, aterrissando de costas na neve e quebrando duas vértebras, embora estivesse usando um protetor nas costas (e um capacete).

Laoura, que sofreu lesões na medula espinhal, mas sem rupturas, acredita que tenha desmaiado durante o salto. "Não sei por que e não sei como", ela disse.

Cinco horas de cirurgia em Montreal estabilizaram sua medula. Mas três invernos depois, ela continua paraplégica, uma situação que segue acreditando ser temporária, enquanto vai de seu apartamento em Paris até seu fisioterapeuta em Portugal, que dá otimismo e uma perspectiva de longo prazo que ela não sente em sua casa.

"É como um bom técnico: você precisa ser paciente em relação aos resultados", afirmou. "Ninguém sobe nos esquis e ganha logo de cara".

Ela disse ainda que, com a ajuda de talas nas pernas, ela agora é capaz de ficar de pé durante a fisioterapia e havia progredido, usando um andador, depois muletas e então dando pequenos passos. Mas ela continua vivendo e trabalhando numa cadeira de rodas, e seu papel nos Jogos de Vancouver para a France Televisions inclui reportagens, comentários especializados e entrevistas.

Ela tem uma assistente, mas trabalhar na montanha se mostrou problemático. Ela caiu de sua cadeira de rodas no biatlo enquanto descia a montanha e disse que teve dificuldade para chegar às áreas dedicadas à imprensa.

"O acesso aos locais, o transporte, o centro da imprensa - não é muito fácil para ela aqui", disse Carole Montillet, campeã no downhill da Olimpíada de 2002, que também está trabalhando para a France Televisions. "Mas Sandra tem muita personalidade. Ela tem uma vontade de viver ao máximo e é uma batalhadora. Por enquanto, talvez seja difícil para ela estar aqui, e é assim que ela vê as coisas. Mas também é maravilhoso ela estar aqui, e os atletas estão muito felizes em vê-la".

Laoura começou a trabalhar como comentarista esportiva nos campeonatos mundiais de esqui alpino do ano passado, em Val d'Isere, França, e disse que passou por "15 dias terríveis".

Ela acrescentou com uma risada, "foi muito difícil; deve ser porque eu adoro sentir dor". Ela então afirmou: "não sei, mas para mim é importante. Esquiar é parte da minha vida. Não posso apagar isso da minha vida. Durante mais de 20 anos, eu esquiei. Durante mais de 15 anos, eu competi. Construí minha vida assim".

Numa era em que esportes paraolímpicos ganham impulso, Laoura disse não ter interesse em fazer essa transição sem conseguir sentir a montanha sob seus pés, nem voar alto e livremente. "Ainda estou sofrendo", ela disse. "Não sei por quanto tempo mais".

Montillet apontou que ver Laoura numa cadeira de rodas aqui era uma inspiração, mas também um lembrete de que os esportes nos quais elas um dia se destacaram são perigosos. Em 2001, a colega de equipe de Montillet, Regine Cavagnoud, morreu após um acidente de treino. "Você diz para si que tem sorte e se pergunta: 'eu fui mais forte? Será esse o motivo'", disse Montillet. "Mas é sempre uma questão de sorte. Com Sandra, foi azar, muito azar".

Laoura sabe que isso é verdade, sabe como seu acidente foi raro considerando as dezenas de milhares de saltos que são realizados a cada ano em treinos e competições. Mesmo num dia sombrio como este, numa temporada cheia de grandes acidentes nos esportes de inverno, ela não estava preparada para questionar o etos supremo do esporte.

"Sabemos que existe risco em esportes radicais, por isso não podemos ficar ponderando demais sobre isso", ela disse. "É melhor pensar em coisas belas e em realizar algo extraordinário. Não tenho raiva do meu esporte. Foi graças a ele que fiz muitas coisas, viajei muito e conheci tantas pessoas".

E uma delas é seu ex-colega da equipe francesa Guilbaut Colas, que traz "Sandra" em seu capacete desde o acidente da atleta. Mas na final da prova de moguls aqui, as regras olímpicas exigiram que o nome fosse coberto. Colas chegou à final, mas não ao pódio, terminando em sexto enquanto a multidão ia à loucura com Alexandre Bilodeau, o primeiro canadense a ganhar o ouro numa Olimpíada em casa.

Laoura, comentando a disputa na área de chegada, chorou pelo amigo.

Jogos Olímpicos de Inverno no Terra

O Terra transmite ao vivo a competição em 15 canais simultâneos de vídeo. Além disso, os usuários têm a possibilidade de assistir novamente a todo o conteúdo a qualquer momento. Todo o acesso é gratuito.

Uma equipe de 60 profissionais está encarregada de fazer a cobertura direto de Vancouver e dos estúdios do Terra, em São Paulo, no Brasil, com as últimas notícias, fotos, curiosidades, resultados e bastidores da competição.

A equipe conta com a participação do repórter especialista em esportes radicais Formiga - com 20 anos de experiência em modalidades de neve -, e o pentacampeão mundial de skate Sandro Dias, que comenta a competição em seu blog no Terra.

No celular
wap: wap.terra.com.br
Iphone e smartphones: m.terra.com.br/vancouver

Tradução: Amy Traduções

Bronze em Turim 2006, Louara perdeu o movimento das pernas e virou comentarista de TV
Bronze em Turim 2006, Louara perdeu o movimento das pernas e virou comentarista de TV
Foto: Getty Images
The New York Times
Publicidade