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"Maldito", esquiador americano não vê razões para mudar

22 fev 2010
23h00
atualizado em 23/2/2010 às 04h47
Christopher Clarey

Viver e esquiar à sua maneira sempre foram as coisas mais importantes para Bode Miller. Isso não era negociável, e, mesmo agora, quando seus familiares falam de redenção e ele possui tudo que um esquiador normal desejaria, Miller insiste que se preocupa mais com o método do que com medalhas.

Esqui Alpino Supercombinado (F) - Slalom

"Não estaria feliz em ganhar o ouro se não estivesse contente com minha corrida", disse ele.

Nestes jogos, ele de fato se redimiu por seu desempenho conflituoso e autodestrutivo nos Jogos de Turim em 2006, mas o fez - como tantas vezes em seus 32 anos - descendo a montanha ao longo de seu próprio percurso e dos contornos de seu debate interno.

Desconfortável por ser, nas suas palavras, o garoto propaganda das Olimpíadas de 2006, ele acabou se colocando na lista de desprezados, e depois se mostrou magoado, mesmo surpreso, com a reação de seus compatriotas americanos. Mas ele voltou em uma posição muito mais confortável neste inverno, com a pressão e o foco olímpico tendo sido transferidos para Lindsey Vonn, uma esquiadora menos complicada que claramente nunca questionou o valor das Olimpíadas.

Coerente com seu caráter, portanto, Miller virou o jogo ao seu modo nos exigentes declives de Whistler Creekside. Ele ganhou bronze, prata e ouro, nesta ordem, nos seus três eventos até agora, e consolidou sua reputação como um dos maiores e mais interessantes esquiadores alpinos.

"Sempre lembro a história de cortar a grama", disse Steve Porino, comentarista da NBC que viu Miller esquiando pela primeira vez em 1997. "Estou saindo para cortar a grama e quando já estou na porta, minha mãe me diz, 'não se esqueça de cortar a grama!'.".

"É a mesma coisa. Todo mundo queria que ele ganhasse cinco medalhas em Turim, então de repente esse não era mais seu destino. E agora ele fez a escolha muito deliberada de não se comunicar com as pessoas, para que não tivesse que lidar com expectativas. E os resultados são mágicos."

Magia ambígua, considerando o tipo de respeito e agouro que os colegas de Miller sentem por seu talento e sua habilidade inata de encontrar o percurso mais rápido.

"Não estou surpreso, mas definitivamente impressionado", disse o norueguês Aksel Lund Svindal, que, como Miller, é uma verdadeira ameaça, mas não conseguiu superá-lo no supercombinado de domingo, apesar de liderar após o downhill.

Mesmo nos outros anos, quando Miller não estava em seus melhores dias e raramente conseguia completar uma corrida de slalom, nenhum grande esquiador na liderança podia verdadeiramente relaxar até que Miller terminasse, ou não, a corrida.

Aqueles que acompanham Miller não conseguem deixar de analisá-lo psicologicamente. Quando ele escolhe se expressar sai tanta coisa ¿ algumas contraditórias, outras profundamente verdadeiras ¿, que não dá para evitar usar esse fluxo de consciência para avaliar seu desempenho e motivação.

Os europeus enxergam-no com muito menos ambivalência. Afinal de contas, ele nunca arrastou o esqui enquanto competia por suas bandeiras, nunca frustrou o entusiasmo e ansiedade deles. Eles o consideram um gênio do esqui, alguém que pode alegrar uma rotina de sábado em Wengen ou Kitzbühel ao bolar algo totalmente novo. Eles também apreciam o fato de sua mente ativa fazê-lo vagar por lugares irrelevantes que os esquiadores de seus países, no microscópico período de um ano, não têm qualquer interesse em viajar.

Mas, nos Estados Unidos, a linguagem corporal e os resultados de Miller em Turim não o favorecem. Em entrevista em Bormio, Itália, de 2008, após agarrar seu segundo título geral na Copa do Mundo, a voz de Miller ainda estava cheia de mágoa pela ideia de ele ser um indolente, mais interessado em festejar do que em competir.

"Esse era o assunto mais pungente depois das Olimpíadas, quando as pessoas criticavam quem eu era ao invés do que eu havia feito", disse Miller em Turim. "Eu aceito o que fiz. Não ganhei medalhas. Aceito qualquer crítica sobre isso, mas eu sou um atleta dedicado ao meu esporte."

Miller fez isso sobretudo sozinho, é claro, usando várias oportunidades na escalada para as Olimpíadas de 2006 para declarar ou insinuar que as Olimpíadas não eram grande coisa, não mereciam ser grande coisa.

Ele deixou claro no domingo, após finalmente ganhar sua medalha de ouro, que ele não se converteu totalmente a essa tese.

"A Olimpíada está definitivamente na minha mente como uma moeda de dois lados", disse ele. "Ela tem tudo do melhor no esporte. Tem uma energia incrível, entusiasmo, paixão, inspiração. É isso que transforma vidas. Acho que de certa maneira elas são o ápice do que esportes, camaradagem e essas coisas realmente são. Na outra face, é o oposto. Elas são a corrupção, o abuso, o dinheiro."

"Não estou apontando dedos, mas é isso que me aborrece. E ser empurrado no meio disso para virar o garoto propaganda dessas coisas todas, que são o que mais desprezo no mundo, realmente sugou minha inspiração, meu nível de paixão, que me fazem funcionar primariamente quando estou competindo."

Mas quaisquer que sejam suas reservas sobre as Olimpíadas, nestes Jogos ele não tem se contido.

Seu tornozelo, lesionado num jogo de vôlei em dezembro, ainda está bem inchado. Seu corpo não está bem, mas com o mundo fora do esqui assistindo, Miller fez jus a seu talento, a suas temporadas de excelência no circuito da Copa do Mundo, a seu amor profundo pela forma que um esqui corta o gelo ou a neve e o leva tão rápido para seu destino.

The New York Times
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