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Em SP, projeto previa Olimpíada descentralizada e reconciliadora

9 mar 2012
10h07
atualizado às 10h18
Danilo Vital

A gênese de São Paulo, os caminhos que sua expansão tomou e o berço dos esportes na cidade serviram de guia para o projeto arquitetônico e urbanístico da pré-candidatura aos Jogos Olímpicos de 2012, elaborado há 10 anos. Se a capital paulista tivesse sido eleita cidade-sede, a intenção seria organizar uma Olimpíada descentralizada e preocupada em fazer a reconciliação da urbanização metropolitana com o aspecto ambiental.

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O renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha foi o responsável pelo projeto. Com um prêmio Pritzker - o mais importante da arquitetura mundial - no currículo, ele foi escolhido pela gestão da então prefeita Marta Suplicy (PT) para esboçar a Olimpíada no espaço físico da cidade. Antes, havia trabalhado na mal sucedida candidatura de Paris aos Jogos de 2008. O urbanista usou raciocínio simples e objetivo na elaboração, como explicou ao Terra, por telefone.

A ideia era arrumar a casa para receber o mundo inteiro, mas de forma que ela continuasse confortável depois de a festa acabar. Paulo Mendes buscou isso através de uma "revisão crítica" da arrumação contemporânea de São Paulo, tentando "ressaltar as virtudes fundamentais" da cidade. Duas dessas virtudes são os rios Tietê e Pinheiros, desprezados e maltratados ao longo dos anos, mas berço do desenvolvimento da cidade e, principalmente, dos esportes, visto que os primeiros clubes paulistanos nasceram às suas margens.

"Para nós, parecia mais estratégico não concentrar, fazer com que a cidade toda recebesse a festa para podermos nós, os donos da casa, gozar melhor o que sobraria depois. Era melhor do que criar um grande campo de concentração ludo-esportivo", explicou o arquiteto. Desta forma, não existiria um Parque Olímpico como há em Londres e haverá no Rio de Janeiro, para os Jogos de 2016. "Essa estratégia que adotamos é mais recomendada do que a outra, de concentrar tudo em um grande espaço", apontou.

Descentralização e reconciliação

Assim, foram criados cinco núcleos olímpicos distribuídos pela cidade em regiões carentes de revitalização ao longo dos rios, o que obrigaria o governo a tomar medidas contra a poluição das águas. A localização também contemplava o sistema público de transporte, que ganharia melhorias para dar acesso a turistas - outro legado do qual a população poderia usufruir após o término do evento. Paulo Mendes da Rocha apontou esse aspecto como de primordial importância.

"O projeto pretendia fazer São Paulo pôr os olhos na questão fundamental da sua estruturação urbana para a vida diária da população com o pretexto da Olimpíada. Essa é que a graça do negócio todo, entendeu?", indagou. Na concepção dos edifícios, o arquiteto optou pela horizontalidade, sem grandes construções, porém chamativas. No Complexo do Anhembi, por exemplo, dois prédios ficariam postados em lados opostos da Marginal Tietê e seriam interligados por uma extensa passarela.

Se a candidatura de São Paulo tivesse emplacado e sido eleita pelo Comitê Olímpico Brasileiro, a cidade hoje não teria novos espaços, mas estaria essencialmente renovada. "Foi essa a orientação com a qual procuramos demonstrar no projeto que fizemos a possibilidade de locar nesse espaço não novo, mas visto com novo olhar, aquelas instalações exigidas", complementou o arquiteto responsável.

Confira os núcleos olímpicos do projeto São Paulo 2012

Núcleo Parque Ecológico do Tietê
Afastado da cidade, mas de fácil acesso por trem e próximo do Aeroporto Internacional de Guarulhos, receberia as competições de remo. O projeto previa que a arena seria interligada à estação Engenheiro Goulart da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) por uma passarela suspensa.

Núcleo Anhembi
Próximo ao Campo de Marte e a pavilhões de exposições, o núcleo concentraria o Centro de Mídia e os locais de competição de beisebol, ginástica, vôlei, judô e provas Aquáticas. O Ginásio Olímpico e o Complexo Aquático seriam construídos em lados opostos da Marginal Pinheiros, sendo interligados por uma passarela de pedestres.

Núcleo Água Branca
Próximo ao Memorial da América Latina, à Rodoviária da Barra Funda e estação de metrô com interligação para a CPTM, este núcleo abrigaria o Estádio Olímpico, local das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos, além da competição de atletismo, e a Vila Olímpica. O estádio seria inspirado em antigas construções gregas, enquanto que a vila contaria com 11 pavimentos com apartamentos de até três quartos.

Núcleo Usp/Villa-Lobos
A Cidade Universitária abrigaria as provas de tênis, canoagem, hóquei, pentatlo moderno e hipismo, aproveitando a estrutura da Universidade de São Paulo e promovendo melhorias ao local que, em 1963, sediou os Jogos Pan-Americanos.

Núcleo Guarapiranga
Considerada uma das áreas públicas de lazer de São Paulo, a represa de Guarapiranga receberia as competições de vôlei de praia, tiro esportivo e tiro com arco. Ainda teria um centro de mídia.

Núcleos paralelos
O projeto São Paulo 2012 não contempla todas as competições em arenas feitas ou reformadas exclusivamente para a Olimpíada. O futebol, por exemplo, teria jogos no Pacaembu e até no Maracanã, com a final no Morumbi. O handebol seria disputado em São Bernardo do Campo, enquanto Ilhabela receberia a prova de vela.


Estádio Olímpico ficaria próximo à Vila Olímpica, no bairro da Água Branca
Estádio Olímpico ficaria próximo à Vila Olímpica, no bairro da Água Branca
Foto: Arquivo pessoal/Paulo Mendes da Rocha / Divulgação
Fonte: Terra

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