Jogos Olímpicos 2016

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07 de abril de 2013 • 14h30 • atualizado às 14h34

Após acidente, ciclista nº 1 do Brasil cobra apoio e defende Armstrong

  • Direto de Goiânia
 

Após levar um grande susto há 20 dias, passar por UTI e temer pela própria carreira e pela vida, a ciclista Clemilda Fernandes, 33 anos, carrega consigo apenas as cicatrizes do acidente que sofreu enquanto treinava em uma rodovia de Goiânia – foi atropelada por um caminhão. Em processo de recuperação e com a confiança renovada, ela já treina e terá a ajuda do Atlético-GO para voltar a competir em alto nível.

O clube goiano não tem tradição em esportes além do futebol, mas abriu as portas para a ciclista do Estado se recuperar do acidente e reiniciar a carreira. Clemilda terá acompanhamento de uma nutricionista, de fisiologistas, fisioterapeutas e dos ortopedistas da agremiação. Sorridente, a atleta não hesitou em agradecer o clube, revelou que nunca recebeu esse tipo de suporte em toda a sua carreira e cobrou mais apoio à modalidade.

Clemilda representou o Brasil no Pan de 2007
Foto: Getty Images

A ciclista tinha uma previsão de voltar a ter uma vida normal após mais ou menos 30 dias, mas já voltou aos treinamentos e espera estar em condições plenas em menos de 15 dias. Ela é acompanhada de perto pelo fisioterapeuta Robson Porto que prevê a recuperação rápida e completa da ciclista.

Referência da Seleção Brasileira feminina de ciclismo, Clemilda representou o Brasil nos Jogos Olímpicos Pequim 2008 e Londres 2012. Melhor brasileira no ranking mundial, ela já sonha com a terceira participação, em 2016, diante da torcida nacional no Rio de Janeiro. Em entrevista exclusiva ao Terra, a atleta falou sobre a etapa na carreira e ciclismo nacional e mundial, com direito até a uma defesa veemente do americano Lance Armstrong, banido do esporte por doping.

Confira a entrevista exclusiva:

Terra: Passou o susto do acidente?
Clemilda: O susto foi muito grande porque eu nunca tinha sofrido um acidente desse tipo, de ir parar na UTI. Quando me atenderam, achei que não ia escapar. Vi muito sangue e fiquei com medo. Quando acordei na UTI foi outro medo, pois minha coluna doía muito e fiquei com medo de não andar mais, sentia bastante dor. Mas com a ajuda do Robston Porto e do pessoal do Atlético-GO estou me recuperando e graças a Deus com 20 dias estou praticamente boa. Já consegui fazer 60 km e nas próximas semanas eu pretendo voltar meu treinamento a 100%.

Terra: Você comentou que vai voltar mais forte. O que te faz sentir isso?
Clemilda: Acho que os obstáculos pelos quais passei, a força de vontade, a revolta de não ter ido para a Copa do Mundo na Itália (no fim do mês passado)... Sou a melhor atleta do Brasil e há quatro anos estou nessa posição. Pretendo voltar mais forte por tudo que passei. Meu objetivo é só treinar e treinar. Tem muitas pessoas torcendo por mim, que rezaram por mim. Espero estar bem no Pan-Americano do México (em maio) para representar o Brasil, o Estado de Goiás e o Atlético-GO.

Terra: Você disse que nunca teve o suporte que foi oferecido agora pelo Atlético-GO. Isso não é surpreendente para uma atleta que é a melhor no ranking?
Clemilda: Nesse ponto deixa muito a desejar. O ciclismo está crescendo, mas não temos estrutura. A nossa família é forte, temos a minha irmã (Janildes Fernandes) que já foi para quatro Olimpíadas A nossa família é forte, temos a minha irmã (Janildes Fernandes). que já foi para quatro Olimpíadas. eu para três, então é triste. Eu agradeço muito o Atlético-GO por estar me seguindo, me dando suporte com nutricionista, fisioterapeuta, médico... Por isso sou muito grata à força que o Dragão está me dando.

Terra: O anúncio da vinda do velódromo usado no Pan 2007 para Goiânia é um alento?
Clemilda: Fiquei muito feliz com essa notícia, para nós não vai ter coisa melhor para a preparação visando a Olimpíadas É bom para o esporte também e até para o Estado de Goiás, que receberá grandes ciclistas. Esse velódromo é tudo o que faltava aqui, vou poder fazer o treinamento de vácuo sem ninguém me atropelar pelas ruas aí. Quando estava hospitalizada, fiquei sabendo que o presidente da Confederação Brasileira de Ciclismo, José Luiz Vasconcellos, se reuniu com o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia, para trazer o velódromo para cá. Sei que ele está vindo, não sei a data, mas espero que venha rápido porque preciso dele.

Terra: O Arthur Zanetti, medalhista de ouro em Londres, comentou que muito pouco mudou desde que foi campeão. Como você vê isso? Mudou alguma coisa pelo fato de os próximos Jogos Olímpicos serem no Brasil?
Clemilda: Essa é a maior tristeza. O Zanetti é um campeão olímpico, foi um orgulho para nós que estávamos lá (em Londres). Saber que ele foi um medalhista e está abandonado, assim como nós, deixa uma tristeza muito grande. O meu medo é que eles (dirigentes e governantes) se preocupem só com as instalações e se esqueçam dos atletas. Espero que a mentalidade dos nossos governantes mude. Temos outros esportes bons e possibilidades de lutar por uma medalha. Ir lá para carregar essa bandeira é muito pesado para nós atletas. Quando visto a camisa do Brasil, luto até o fim, pelo orgulho de defender o nosso País, mas me bate uma frustração porque não temos o valor e o apoio que deveríamos ter. Tenho a ajuda da CBC (Confederação Brasileira de Cicilismo), que me leva para os eventos internacionais, mas, se eu tivesse o pouquinho a mais que reivindico, esse pouco poderia ser o suficiente para alcançar a medalha. Mas quero esquecer os problemas e focar no futuro, no Pan.

Terra: Como você viu o caso de doping do Lance Armstrong? Manchou o ciclismo de alguma forma?
Clemilda: Vejo o ciclismo como o esporte mais controlado do mundo. O Armstrong, para mim, sempre será um campeão. Não acredito que seja verdade tudo isso, ele deve ter sido obrigado a confessar tudo. Acho que foi um guerreiro por vencer aquele câncer, na época fez todos os exames e só depois que parou veio essa história. Para mim ele sempre será um grande campeão.

Terra