O México comemora. E o Brasil recebe mais uma dura lição (Foto: Terra)
POR BOB FERNANDES, DIRETO DE LONDRES
Final do primeiro tempo de Brasil 0, México 1. Do gol de Peralta, aos 28 segundos de partida, até o último minuto, vem à cabeça o bordão de antigo locutor esportivo, da rádio Tupi. Se aqui estivesse, berraria:
-Grotesco, ridículo, estapafúrdio…
Trinta e dois minutos do segundo tempo. O México já fez, aos 28 minutos, 2 a 0. Outro de Peralta depois de falta marcada pelo bandeira britânico, Stephen Child. À beira do gramado Mano Menezes reclama e xinga…o bandeirinha.
Recordo o dito por alguém na tribuna de honra em Manchester, ainda antes do 3 a 0 na Coréia; alguém com acesso suficiente para dizê-lo:
-O Mano não vai ficar…
Muita calma nessa hora, a hora de caça às bruxas, esporte nacional após derrotas espetaculares como a desta tarde em Wembley.
Mano Menezes, óbvio, não é "O" problema do futebol brasileiro, hoje dirigido pela dupla José Maria Marin/Marco Polo Del Nero.
Mano, a partir dessa derrota, é problema e, ao mesmo tempo, solução para a dupla que sucede ao dueto João Havelange/Ricardo Teixeira. Bastará mandá-lo embora para recomeçar como se tudo mais estivesse bem.
Havelange e seu ex-genro, Teixeira, eliminados do futebol; por recebimento de suborno. Teixeira, hoje exilado em Miami com salários na casa dos R$ 100 mil mensais pagos pela CBF.
Esse é o pano de fundo de um futebol que tem donos. Donos – dentro e fora da CBF- que em nome dos seus negócios e negociatas vendem como grande futebol um futebol que já há tempos não joga o futebol dos grandes.
No campo, em Wembley, e não há outra maneira de dizer isso, o Brasil tremeu. Sentiu o peso da grande final. E por isso não jogou nem mesmo o feijão-com-arroz que jogava até a final.
Se errou aos 28 segundos e deu o primeiro gol para Peralta, "Rafinha", o Rafael lateral do Manchester, errou muito mais ao, substituído quase ao final, deixar o campo xingando Juan. O becão, sofrível, que o cobrara por jogada irresponsável.
Mesmo Thiago Silva, de atuação sóbria, quase entrega o ouro aos 18 do segundo tempo. O travessão parou a puxeta de Fabian. Com Gabriel, o goleiro, parecendo, sempre, assustado.
Marcelo… todos sempre à espera de que ele pegue num fio desemcapado. Sandro, o volantão de sempre com os escassos recursos de sempre. Rômulo, méritos por, ao menos, não ter se escondido. Como Hulk, que entrou, lutou e lutou até conseguir o gol aos 46 do segundo tempo.
Oscar, o grande jogador do Brasil nas Olimpíadas, o dínamo da equipe até essa tarde, sentiu. Muito. Quem aqui está, quem viu o jogo de perto, não teve como não perceber: Oscar, e não só ele, se escondeu do jogo. No primeiro tempo, quando a bola parecia queimar pés, Thiago Silva, por duas vezes, repreendeu Oscar.
Já na bacia das almas, aos 48 do segundo tempo, Oscar teve a chance de se redimir e levar a decisão para a prorrogação. De cabeça, faltando o que faltou em toda a partida, jogou fora a última chance do ouro que nunca chegou para o futebol brasileiro.
Leandro Damião, artilheiro das Olimpíadas com 6 gols, jogou o tempo todo como pivô. De costas para os zagueiros, escorando tiros de meta e bolas rifadas desde a defesa.
Escassas as jogadas limpas. Raras as jogadas articuladas, daquelas que permitem a um Leandro Damião fazer o que sabe: gols.
A solidão de Damião e o inútil bailado solo de Neymar nesta tarde deram toda a dimensão da pobreza tática, da falta de imaginação coletiva do futebol brasileiro.
Há derrotas que ensinam. Sem ilusões quanto a ensinamentos para quem comanda. Sem ilusões quanto a mudanças reais para os donos que, de fora, operam direitos e todo o futebol brasileiro; sempre em nome dos seus negócios e negociatas.
Mas há esperança de que alguns dos jovens que jogarão a Copa em 2014 tenham aprendido algo. Que Neymar, por exemplo, tenha aprendido de vez que já não há espaço no futebol do mundo para o brilho apenas individual.
Esperança que Neymar, como outros, tenha entendido que só há espaço para a genialidade fluir quando existe uma equipe, um time.
Que Neymar, inegavelmente uma grande esperança do futebol brasileiro, tenha aprendido a dura lição: não é possível, e nem há porque, buscar ser genial a cada lance, a cada toque na bola.
O Brasil, pentacampeão do mundo, mais uma vez deixa escapar o tão badalado ouro olímpico no futebol.
O Brasil, mais uma vez, vai caçar bruxas.
Enquanto caçam bruxas e bruxos, Ricardo Teixeira segue e seguirá em seu exílio dourado.
E Marin, que pena, não ganhou uma medalha de ouro verdadeiramente sua.