DJAN MADRUGA

O que reamente aconteceu naquele fatídico 50 m livre em Londres? Florent Manaudou, o até poucos dias atrás desconhecido nadador francês, dublê de soldado do exército do seu país, atualmente atribuído ao 68º Regimento de Artilharia da África, fez um 21s34 que arrasou com todo o Brasil.

A resposta está na atitude do jovem com piercing na língua, de idade que também é 21, mesma casa do espantoso tempo que ele fez, melhorando quase 1s em relação ao seu tempo de 22s30, em 2011, que o colocava no 33º lugar do ranking mundial. Todo mundo que conhece um pouco de natação se perguntou como ele pôde melhorar tanto assim?

Procurei a resposta nas respostas dadas pelo francês nas suas entrevistas que brotaram pela rede no dia seguinte à espetacular e inesperada vitória nos 50 m livre desses Jogos Olímpicos. E ela me veio nas seguintes declarações:

"Foi incrível. O César ganhou em Pequim com 21 anos, e eu tenho 21 anos agora. É um dado interessante".

"Estou surpreso. Sem dúvida, é uma surpresa ser campeão olímpico nos 50 m", afirmou Manaudou, sem revelar o seu segredo para o sucesso. "Não sei qual é", disse o novo campeão olímpico.

"Se eu tivesse acreditado, eu não teria terminado em primeiro hoje. Eu pensei que deveria ir o mais descontraído possível para a final. Para mim, o mais importante era participar da final e que deveria aproveitar. Acho que foi a decisão certa", acrescentou.

Com isso, a resposta ficou fácil. Primeiro: ele não enfrentou nenhuma pressão, pois ninguém esperava nada dele, nem mesmo ele, enquanto que ao seu lado havia um bando de mais velhos, veteranos olímpicos que precisavam desesperadamente da medalha: Cielo, 25 anos, pelo bi olímpico; Cullen Jones, 28 anos, que já tinha ouro olímpico em revezamento e atrás do primeiro ouro individual; Anthony Earvin, 31 anos, pelo bi olimpico; Eamon Sullivan, 26 anos, que já tinha uma prata olímpica e atrás de seu primeiro ouro; Roland Schoeman, 32 anos, campeão olímpico de revezamento e atrás do primeiro ouro individual; George Bovell, 29 anos, bronze olímpico e atrás do primeiro ouro individual; e o Bruno Fratus, 23 anos, que embora sem experiência olímpica terminou o ano de 2011 em segundo do ranking mundial dessa prova.

Se eu tivesse que apostar meu dinheiro em alguém nessa final seria em qualquer um, menos em Manaudou, o de pior currículo do premiado grupo. Com isso, o francês entrou sem pressão e, como ele mesmo disse, para “aproveitar”, enquanto que os demais estavam ali precisando do resultado das suas vidas.

O segundo aspecto da vitória do Manaudou foi sua atitude relaxada na prova. Como ele mesmo disse, “o mais descontraído possivel”. É sabido nos meios acadêmicos que uma característica natural encontrada na performance atlética diferenciada dos maiores gênios do esporte é a habilidade de relaxar na hora da maior pressão na competição. Isso foi visto no voo do Michael Jordan antes da enterrada, no drible do Pelé antes do chute a gol desequilibrado, na ultrapassagem no limite do Ayrton Senna, etc.

Não quero comparar Manaudou com esses deuses do esporte, mas a mesma atitude relaxada o ajudou a vencer em Londres. Isso também deve ter acontecido com Cielo em Pequim 2008, com os mesmos 21 anos, quando ganhou o ouro nos 50 m sem que ele fosse o favorito.

Fica então a lição para Cielo tentar daqui pra frente relaxar um pouco mais sob pressão, como fez Manaudou de forma subconsciente nessa inusitada vitória, que duvido que se repita com tal facilidade. Como bem disse o vice-campeão olímpico Thiago Pereira: "se fizesse uma melhor de cinco (finais), se bobear, o Cielo ganhava quatro”.

Aproveito para parabenizar o Cesão e seu treinador Albertinho, bem como todo o grupo do Pro 16 por essa terceira medalha olímpica, torcendo para que vocês continuem firmes no caminho da quarta em 2016 e da quinta em 2020, pois se o Anthony Ervin pôde chegar na final aos 31 anos e o Roland Schoeman aos 32 você também poderá fazê-lo nos seus 33 anos.

Abraços!