DJAN MADRUGA
Aproveitando o ensejo da realização da maratona aquática em Londres, onde tivemos uma participação muito ruim no feminino e total ausência de classificados no masculino, venho fazer uma crítica ao estágio atual da natação de fundo no Brasil.
Estamos passando por uma fase muito ruim, apesar de termos duas grandes maratonistas aquáticas, a Ana Marcela Cunha e a Poliana Okimoto, que lideraram o ranking mundial e até ganharam campeonatos mundiais, mas o maior problema está nas piscinas e isto repercute nas águas abertas pela ausência de renovação e de uma massa básica de nadadores federados interessados no fundo.
A gravidade do problema pode ser entendida pela ausência de nadadores nessa Olimpíada, tanto no masculino quanto no feminino nas provas de 200 m, 400 m, 800 m, 1500 m livre e nos revezamentos 4×200 m. Tivemos nadadores apenas nos 50 m e 100 m livre!
Observando o ranking mundial de 2012, só encontramos um brasileiro entre os "top 50" do mundo nos 1500 m e ele está em 50º lugar, enquanto que nos 50 m livre temos quatro homens que estão em segundo, quinto, 26º e 47º. Vejam a comparação abaixo:
BRASILEIROS TOP 5O DO RANK MUNDIAL
50 m livre
2º – César Cielo, 21s38
5º – Bruno Fratus, 21s62
26º – Nicholas Santos, 22s07
47º – Marcelo Chierighini, 22s34
1500 m livre
50º – Lucas Kanieski, 15min16s64
No feminino, temos uma nadadora em 36º, entre as 50 melhores do mundo dos 50 m livre e nenhuma nos 800 m livre. A nossa melhor nadadora aparece em 128º, e curiosamente é a Ana Marcela Cunha, especialista em maratona aquática, que só quebra galho nadando provas em piscina para fazer pontos para seu clube. Estamos perdendo inclusive para as vizinhas sul-americanas, que estão na nossa frente no ranking mundial, onde encontramos três delas e nenhuma brasileira no top 50 do mundo. Em Londres, tivemos uma sul-americana na final nos 800 m livre, a venezuelana Andreina Pinto, que é a melhor do continente no top 50 do mundo.
BRASILEIRAS TOP 5O DO RANK MUNDIAL
50 m livre
36º – Graciele Hermann, 25s15
800 m livre
NENHUMA BRASILEIRA. A melhor colocada é Ana Marcela Cunha, em 128º, com 8min46s12.
OBS: as sul-americanas melhores colocadas são Andreina Pinto, da Venezuela, em 12º, Kristel Kobrich, do Chile, em 25º, e Cecilia Biagioli, da Argentina, em 38º.
Acredito que a causa desse afundamento reside nos seguintes fatores:
Primeiro, no desinteresse dos jovens nadadores brasileiros pelo fundo e total fascinação pela velocidade, principalmente porque a maioria dos nossos ídolos atuais são velocistas como César Cielo, Bruno Fratus e Felipe França. E foi assim na geração passada, com Gustavo Borges e Fernando Scherer.
Segundo, por que a mídia divulga principalmente os feitos dos velocistas e pouco relata os dos fundistas, obviamente sustentada pela ausência de resultados dos últimos.
Terceiro, porque é muito mais difícil treinar fundo que velocidade, já que o fundista passa mais horas na piscina e tem que treinar muito mais forte que o velocista.
Quarto, os treinadores se interessam em treinar mais velocistas do que fundistas, pois os resultados são mais rápidos, demanda menos do seu tempo e há menor estresse.
Quinto, há menos provas de fundo nos programas das competições oficiais. Consequentemente, os clubes ganham menos pontos dos fundistas, que se tornam desnecessários para ganhar um campeonato.
Por fim, há menos investimento dos patrocinadores e da CBDA para fundistas e muito mais para velocistas.
Esse quadro é lamentável, considerando que nossa história de fundo é rica, pois a primeira medalha olímpica da natação brasileira veio de um fundista, Tetsuo Okamoto, bronze nos 1500 m livre em Helsinque 1952. Depois, eu tive a chance de ser finalista olímpico e quebrar o recorde olímpico, chegando em quarto nessa prova na Olímpiada de Moscou 1980.
O internauta estará se perguntando, então: qual é a solução?
Ela é complexa e demandará tempo, dinheiro e dedicação. A liderança desse processo é para ser conduzida pela CBDA, que dispõe dos recursos e dirige o navio dos esportes aquáticos. Inicialmente, deve-se fazer o reconhecimento da gravidade da situação e instituir um grupo de trabalho com especialistas em natação de fundo para desenvolver um programa nacional que deverá ser iniciado imediatamente nesse ciclo olímpico, que vai de agora a 2016, porém com probabilidade de só ver resultados concretos a partir de 2020.
Abraços