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Nacionalistas, mexicanos dão "show caliente" no Pan

31 out 2011
20h41
Emily Canto Nunes
Direto de Gudalajara (México)

Antes dos Jogos Pan-Americanos, os mexicanos faziam fila e esgotavam ingressos de diversas modalidades, como natação, patinação e ginástica. Nos dias subsequentes ao início do Pan, o que se viu, porém, foram algumas sedes com arquibancadas vazias e entradas nas mãos de cambistas. A Organização do Pan logo deu um jeito, liberando a entrada de estudantes e mais tarde do público em geral, o que obviamente causou confusão, como nas finais do vôlei - quem tinha ingresso acabou tendo que sentar em outros assentos. Mas, deixando de lado essas questões, fato é que a torcida mexicana foi um personagem à parte por tudo aquilo que ela representava fora das quadras, campos, ringues ou o que quer que seja.

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A começar pelos brasileiros, que levaram vantagem frente aos outros países por conta da Copa do Mundo do México, em 1970, quando a Seleção de Pelé, Rivelino, Jairzinho e Carlos Alberto Torres levou a taça Jules Rimet em um 4 a 1 contra a Itália. Qualquer mexicano, mas especialmente os mais velhos, que se deparasse com um jornalista brasileiro lembrava do Mundial, que teve Guadalajara como uma das sedes, que foi o primeiro de Zagallo como técnico e o último de Pelé como jogador. E que, mais do que isso, deixou na cidade e no país um importante amor dos mexicanos pelo Brasil. Não foram poucos os taxistas, voluntários, jornalistas e até pessoas comuns na arquibancas que disseram que era do Brasil sua segunda torcida.

Para torcer pelo seu país, os mexicanos não pouparam esforços. Pareciam grandes conhecedores de todas as modalidades e aplaudiam não só atletas e seus técnicos, mas até árbitros e qualquer um que fosse apresentado como mexicano. Com aplaudidores de plástico azuis e cheios de ar em punhos, eles eram capazes de ensurdecer um estádio todo e até de motivar pedidos de silêncio por parte da organização. As camisetas pretas com detalhes em verde, ou verde com detalhes em vermelho, tomavam as arquibancadas, assim como os lenços também verdes distribuído por patrocinadores na entrada das sedes do Pan-Americano.

Além de formarem um mar verde, os mexicanos eram os grandes responsáveis pela trilha sonora das competições. Quando as músicas não estavam tocando, eram os gritos que embalavam as provas. "Si, se puede" para empurrar os atletas mexicanos, ou "Si, se pudo", quando um atleta chegava ao pódio, uma versão da música do personagem Quico, do seriado Chaves, "México, México, ra ra ra", "Aaaaahhhhh... Putos" para os adversários e "Fuá" para os mexicanos - expressão retirada de um vídeo que caiu na internet de um homem que se diz vidente e capaz de falar com os mortos. O tradicional "México, México" também foi bastante escutado em Guadalajara, e nas cidades adjacentes que abrigaram o Pan: Zapopan, Tlaquepaque, Puerto Vallarta, Ciudad Guzmán e Lagos de Moreno.

O nacionalismo durante os Jogos Pan-Americanos não vinha só da arquibancada, da plateia. Por diversas vezes, os voluntários esqueciam de seus afazeres para torcer pelos mexicanos. O tempo todo, narradores e apresentadores informavam o público dos ouros, pratas e bronzes conquistados pelos atletas nacionais, além de inflamar a torcida com perguntas do tipo "quem vai ganhar hoje?", ou frases como "Arriba, México". Até em telões foram vistas mensagens de incentivo aos esportistas mexicano, com a tradicional "Si, se puede" e "México!".

E ao contrário do que possa parecer, os mexicanos não compareceram apenas para as competições envolvendo atletas nacionais. Mesmo nas provas em que os mexicanos estavam fora da briga por medalhas, eles estavam lá, em peso, com toda a animação de sempre e até uma pitada de nacionalismo. E por mais que muitos dissessem que era do Brasil sua segunda torcida, o que se viu foi um povo que mais do que identificação, admiração ou qualquer outro sentimento que resulte em empatia para com outro país, eles queriam era ver o "circo pegar fogo". Se um time ou um atleta começava a disparar na frente de seu concorrente, quase que imediatamente a torcida mexicana mudava de lado. E gritava e batia e aplaudia e cantava tanto quanto para o competidor anterior.

Em quase 15 dias, e sempre presentes, os mexicanos mostraram para quem quer que fosse, jogadores, jornalistas, visitantes, comissões técnicas, familiares, porque aquela Copa do Mundo, há 40 anos, nunca saiu de suas cabeças, e porque certamente os Jogos Pan-Americanos ficarão na memória do seu povo por um bom tempo ainda.

Fonte: Terra
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