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Jogos Pan-Americanos

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COB cogita queda no Pan e tenta acalmar atletas por Rio 2016

Eduardo Palacio / Terra

Entidade admite possível relaxamento em Toronto pela falta de necessidade de classificação em muitos esportes para a Olimpíada

6 jul 2015
15h40
atualizado às 16h11
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Os Jogos Pan-Americanos de 2015 serão diferentes para o Brasil. Sede da Olimpíada do Rio de Janeiro no próximo ano, o País chegará a Toronto sem a responsabilidade de garantir presença de atletas nos Jogos Olímpicos – apenas o hóquei na grama masculino não tem vaga confirmada e luta para poder representar o Brasil em 2016. Em entrevista exclusiva ao Terra no Canadá, o superintendente do COB, Marcus Vinícius Freire, disse que todo o planejamento foi feito com o pensamento no próximo ano. Inclusive há a possibilidade de queda de medalhas em Toronto.

Tanto este Pan é diferente que muitas confederações sequer mandaram times principais. São os casos da natação, que não contará com Cesar Cielo, maior estrela da franquia. O vôlei masculino é outro caso emblemático: a equipe no Pan será composta exclusivamente por jovens promessas do esporte no Brasil. A situação não se repete em todos os esportes, mas pode causar uma ligeira variação no número de medalhas do Brasil – nos últimos dois Pans, foram mais de 140 medalhas.

“Pode diminuir o número de medalhas porque não precisa dos times principais. O Cielo, por exemplo, não está aqui. A nossa preocupação não é ganhar medalha aqui. Elas vão acontecer, vamos brigar pela terceira posição com Canadá e Cuba, mas não é o objetivo. O nosso principal objetivo desde 2009 é ser top 10 em 2016. Se é melhor para a gente não trazer time principal, não vamos trazer. Foi essa a estratégia que a gente fez, conversamos com cada confederação, cada treinador, e escolhemos o que é melhor para o Brasil em 2016”, afirmou Marcus Vinícius.

COB admite usar Pan para projeto "Top 10" no Rio 2016

As estratégias, realmente, foram distintas – o vôlei feminino, por exemplo, viaja com o time principal. Táticas foram usadas até pensando no psicológico dos atletas. É o caso de Martine Grael, nova estrela da vela brasileira e filha de Torben Grael. A jovem atleta de 24 anos só vai competir em Toronto para pegar rodagem de Vila dos atletas e chega ao Rio mais calma com a situação.

“A Martine Grael é um caso. Conversamos com o Torben, que é o diretor e pai dela, sobre a vinda dela por ter disputado competições recentes e pensamos: ‘ela nunca esteve em um evento multiesportivo, nunca esteve em um Pan-Americano’. Então é importante dar essa experiência para ela entender que aqui parece a Disney do  esporte, mas quando você vem procurando resultados não é. Ela ter isso um ano antes e chegar no Rio sem dispersar com as maravilhas da vila é importante”, ressaltou.

Inclusive, nos Jogos Olímpicos o COB vetará a presença de namorados (as), pais e amigos na Vila. A entidade criará um Espaço Time Brasil a 4 km do local (com shuttles disponíveis) para os encontros. A estratégia já é testada em Toronto: a cinco minutos da Vila no Canadá, haverá um local do tipo, mas não há vetos para convidados pela organização canadense.

Marcus Vinícius Freire ajuda na preparação da delegação brasileira
Marcus Vinícius Freire ajuda na preparação da delegação brasileira
Foto: Eduardo Palacio / Terra

Veja entrevista completa com Marcus Vinícius sobre expectativas, crise financeira do Brasil e preparação para 2016:

Balanço do ciclo olímpico

Eu entendo que 2009 foi um marco, quando ganhamos os direitos dos Jogos. De lá para cá montamos um plano estratégico e tem ido superbem. Em Londres foi bem, foi um salto de qualidade, novos nomes de atletas. Em 2013, tivemos o melhor primeiro ano de quadrienio da história, 2014 muito bem. 2015 agora metade do ano indo bem também. O mapa não nos garante medalhas para o ano que vem, não tem como garantir, mas mostra que a curva é ascendente, está dentro do plano. A gente vê outros países se movimentando para uma meta igual a nossa, que é o top 10. É uma briga difícil, são 12 a 15 países brigando pela nona e décima posição. Mas estamos fazendo nosso papel, ter certeza que o atleta brasileiro tem a melhor preparação possível, pelo menos igual à do adversário. O resultado a gente conhece bem o esporte, não dá para saber. O detalhe faz a diferença.

Pan diferente?

São Jogos Pan-Americanos completamente diferentes. Esses Jogos são diferentes porque não precisamos brigar pela classificação. Neste caso, como temos a maioria das vagas, tem só um esporte com essa preocupação: hóquei sobre grama masculino, está treinando na Europa. Eles precisam lutar por até a sexta posição. Foi um acordo com a federação internacional, eles precisavam melhorar o nível técnico, têm melhorado a cada ano desde 2010. Este ano a última meta é ficar entre os seis no Pan. Os outros a gente tem uma estratégia mista. O vôlei o Zé Roberto vem com o time principal, enquanto o masculino está jogando lá no Brasil como sede da fase final da Liga Mundial. Bernardinho não vem, teremos uma equipe de jovens. Tem o pólo masculino que foi bronze na Liga Mundial. Basquete é um time misto, ainda tem a confusão da Copa América, não sabe se tem a classificação. Os esportes aquáticos até começam antes por causa do Mundial de Kazan. É um calendário difícil, então cada confederação faz o possível.

Queda de medalhas por causa de relaxamento

Eu acho que pode diminuir o número de medalhas porque não precisa dos times principais, o Cielo por exemplo não está aqui. Por outro lado tem alguns esportes que os melhores estão aqui, como o Scheidt e a Martine Grael. A nossa preocupação não é ganhar medalha aqui. Elas vão acontecer, vamos brigar pela terceira posição com Canadá e Cuba, mas não é o objetivo. O nosso principal objetivo desde 2009 é ser top 10 em 2016. Se é melhor para a gente não trazer time principal, não vamos trazer. Se é melhor trazer, como no caso do pólo aquático masculino, vamos trazer. Foi essa a estratégia que a gente fez, conversamos com cada confederação, cada treinador, e escolhemos o que é melhor para o Brasil em 2016. Muitas vezes o Pan é importante e em outras não.

Martine Grael e Kahena Kunze (esq.) são as atuais campeãs mundias da categoria 49erFX. Presença no Pan para se acostumar com Vila Olímpica
Martine Grael e Kahena Kunze (esq.) são as atuais campeãs mundias da categoria 49erFX. Presença no Pan para se acostumar com Vila Olímpica
Foto: Matthew Stockman / Getty Images

Equipes B não frustraram

Não frustrou, exatamente porque pensamos no que é melhor em 2016. Damos experiência para alguns jovens, ou damos experiência de Vila. A Martine Grael é um caso, conversamos com o Torben, que é o diretor e pai dela, sobre a vinda dela e pensamos que ela nunca esteve em um evento multiesportivo, nunca esteve em um Pan-Americano. Então é importante dar essa experiência para ela entender que aqui parece a Disney do esporte, mas quando você vem procurando resultados não é. Então ela ter isso 1 ano antes e chegar no Rio sem dispersar com as maravilhas da vila é importante.

Euforia por medalhas no Pan

A gente usa vocês. O pessoal da imprensa é muito importante para passar isso para os brasileiros. Normalmente isso acontece: ganhamos 140 medalhas em Pan e a torcida espera repetir um ano depois. Aí explicamos que Pan são só 42 países, só quatro ou cinco forças. Quando a gente vai para o ano que vem, são 205 países, têm alguns países que são especialistas em modalidades, africanos com corridas de fundo, Grécia com levantamento de peso. É importante que vocês comuniquem aos brasileiros que aqui lutamos por 140 medalhas e lá por 27.

Psicológico dos atletas em 2016

Rio 2016: COB admite preocupação com psicológico de atletas

Nós estamos muito preocupado e por isso criamos um grupo de treinadores com todos os estrangeiros, treinadores muito experientes, para nos auxiliarem nesse controle, nessa administração que a gente fala do treinamento mental. Trouxemos dois consultores inglês para entender o que eles fizeram quatro anos antes de Londres. Eles montaram um programa chamado "home advantage", mas para mim deveria chamar advantage e disadvantage, porque têm vantagens e desvantagens quando tem a pressão. E chegamos à conclusão com esse board de que as vantagens têm que se tornar maiores.

Por exemplo, temos tentado trazer mais apoio da torcida, mudamos a logomarca do Time Brasil, criamos o mascote Ginga para chamar a torcida, criamos um programa de padrinhos com Luciano Huck, Preta Gil, Otaviano Costa, Toni Garrido, um de cada área para representar os milhões de brasileiros. Agora depois do Pan vem a música do Time Brasil, depois a música das torcidas, quais ela vai cantar nas piscinas, nos estádios. Do outro lado tem desvantagens. Uma delas é um contato com a imprensa, aí foi uma decisão desse board que vamos fechar a Vila. Nós temos aqui um negócio que chama Day Pass, um passe de visita diários. No Rio de Janeiro não vamos aceitar isso.

Criaremos um espaço do Time Brasil pertinho da Vila para que quando os atletas estiverem disposto ele vá lá e não entre todos os brasileiros dentro da Vila, porque você imagine a confusão que seria no Rio de Janeiro. Essa foi uma das decisões. Porque a namorada do Cielo entra para falar com ele, aí quer tirar foto com o Zanetti, almoçar com o Scheidt. Pode atrapalhar atletas que estejam concentrados. Neste espaço que criaremos, os atletas podem encontrar mãe, namorada e tudo o mais. Copiamos o que o Reino Unido fez em Londres e os treinadores aprovaram. Assim como várias ações que achamos que temos que diminuir.

Por exemplo, imprensa e mídias sociais. Não tem como proibir a molecada de usar redes sociais. Nós vamos orientá-los, nem faremos cartilhas. A ideia é que esse grupo de treinadores direcione, porque conhecem o caminho para a vitória.

Conheça o Ginga, mascote do Brasil no Pan e Olimpíada

Reação dos atletas ao fechamento da Vila

"A gente tem informado. Temos passado para o board de treinadores, que passa para os atletas. Eles entenderam. Não adianta você criar um problema sem solução, e o espaço estará a 4 km da Vila. Terão um shuttle, estamos antecipando 12 meses da nossa operação. Vai ser ali que vamos dar ingresso para o pai e namorada, porque nós compramos e temos um ou dois ingressos para dar para o atleta nas competições que ele disputar. Porque em uma conversa com um dos nossos consultores, que é o Michael Johnson que disputou Olimpíada em casa, perguntamos o que mais atrapalhou e ele falou: "tickets", ingressos. Apareceu primo que nunca viu, amigo do amigo do amigo, agente, todo mundo ligava. É uma das preocupações, então temos tomado esse cuidado. Os atletas vão receber bem, já que arrumamos a solução. Vai ter aqui em Toronto também o Espaço do Time Brasil, a cinco minutos da Vila."

Trabalho com a pressão dos atletas em casa

"Cada atleta responde de um jeito e estamos tentando entender essas respostas. Tem gente que gosta de pressão e vai melhor quando está pressionado, como o Cielo, e tem gente que gosta de ir na moita e surpreender, como o Vanderlei Cordeiro. Acho que tentamos administrar. É um grupo muito diferente, com variedade gigante. Tem gente que saiu de projeto social classificando para a Olimpíada, que antes ganhava R$ 2 mil e agora ganha R$ 40 mil, tem também quem ganha milhões como jogadores da NBA e do Futebol. Como administra isso? Um não pode ter mais que o outro, já que são todos Time Brasil. E cruzamos experiências, o Scheidt foi falar com o vôlei de praia, o Torben ajudou o judô, Emanuel foi falar com a turma do handebol, o Bernardinho fez palestra para a ginástica artística, então a gente está usando essa bagagem para chegar da melhor forma."

Relação com o Governo e crise financeira

"A minha preocupação no que tange ministério e governo é sobre o que tange os atletas. A melhor coisa é que nós alinhamos todo o planejamento montado em conjunto desde 2009. Claro que todas as vezes que você depende de dinheiro do governo, que não é nosso caso pela Lei Agnelo Piva como principal fonte, mas os convênios com as confederações e ministérios, a lei sozinha não consegue levar o país ao top 10. Quando a gente fala sobe convênios com confederações, é importante sim esse complemento, a gente vê confederações esperando o recurso que não sai. Mas faz parte, quando você está pensando em orçamento geral da União, a gente vê a presidente falar, o ministro Levy, eu sou economista e sei como funciona, o orçamento é capado aos pouquinhos. Essa demora de repasses é normal principalmente nos anos de aperto de orçamento."

Marcus Vinicius Freire diz entender cortes no orçamento promovidos por Joaquim Levy
Marcus Vinicius Freire diz entender cortes no orçamento promovidos por Joaquim Levy
Foto: Agência Brasil

Preparação de Toronto

“Eu acho que Toronto está preparada para ser candidata olímpica. Fizeram um planejamento desse Pan pensando em legado. Para a gente operacionalmente não é fácil. Temos essa vila aqui e mais cinco subvilas, os esportes estão espalhados até com horas de distância, não é fácil para a logística com 1000 pessoas. Mas pensaram demais em legado, todas as sedes as comunidades já usaram e pensaram no uso após os Jogos. É pensado no pré e no pós, é uma cidade espalhada, por isso a distância, mas o canadense faz bem feito."

Falta de interesse dos canadenses com o Pan

"Eu acho que é uma cultura do canadense e americano, eles têm esportes que não estão no plano olímpico, com futebol americano, o beisebol que pode voltar no Japão, o hóquei no gelo, eles têm alguns esportes que são muito fortes e não são olímpicos. Os canadenses jogam a NBA, outro padrão. Então entendo que o Pan não atraia tanto interesse, seja um segundo campeonato para eles. Mas acho que não é um desprestígio nenhum, o Canadá vem muito forte e dificilmente vamos conseguir bater o Canadá dentro de casa."

Comunicação de Toronto com Rio

"Tem muita gente que trabalha em 2016 que está aqui, Tem muita gente daqui que deve ir para lá depois dos Jogos. Estive aqui em Toronto várias vezes como parte do comitê de coordenação peguei muitas informações importantes para o nosso time, e importante também para Jogos Pan-Americanos. Tem muita gente com bagagem, muita gente que esteve em Londres, fizeram boas contratações e vão entregar uns Jogos espetaculares."

Pelas ruas de Toronto, cartazes sobre o Pan são espalhados para tentar animar canadenses
Pelas ruas de Toronto, cartazes sobre o Pan são espalhados para tentar animar canadenses
Foto: Gabriel Francisco Ribeiro / Terra

 

Fonte: Terra
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