4 eventos ao vivo
Logo do Jogos Pan-Americanos
Foto: terra

Jogos Pan-Americanos

Toronto, a cidade do “bom dia”, “obrigado” e “por favor”

Também há "com licença" e "desculpe"

8 jul 2015
14h48
atualizado às 19h02
  • separator
  • 0
  • comentários

Você já deu um “bom dia” para o motorista do ônibus e ficou no vácuo? Com certeza sim. Em Toronto, no Canadá, essa é uma cena difícil de acontecer.

Antes de entrar no assunto, vou ser direto: não sou irresponsável e nem maluco de me arriscar num tratado psicológico ou sociológico questionando as diferenças culturais, e principalmente sociais, entre Brasil e Canadá. Óbvio que há um abismo enorme. Proponho só uma reflexão.

Entrar num bonde, um dos transportes mais eficazes na cidade canadense, pode render diversos questionamentos sobre como a frieza e o distanciamento tomaram conta dos nossos espaços públicos.

Durante os Jogos Pan-Americanos 2015, moradores de Toronto, no Canadá, aproveitaram o sol do Verão do hemisfério norte para curtir a praia de Woodbine e os parques da cidade
Durante os Jogos Pan-Americanos 2015, moradores de Toronto, no Canadá, aproveitaram o sol do Verão do hemisfério norte para curtir a praia de Woodbine e os parques da cidade
Foto: Osmar Portilho / Terra

Ao abrir a porta, o condutor toma iniciativa: “bom dia”. Respondo. Ele olha a credencial dos Jogos Pan-Americanos e segue: “Está aqui para os Jogos? De onde é?”.

Após a breve conversa, arrumo um pequeno espaço para ficar. São 9h da manhã e os bondes estão cheios. No próximo ponto, o anúncio: “Pessoal, por favor, tente dar uns passos para o fundo do bonde. Muita gente deve entrar na próxima estação. Obrigado. Se não houver espaço, peço que tirem as mochilas e coloquem no chão. Obrigado”, diz o condutor.

Ao chegar na próxima parada, muita gente tenta entrar. Ele novamente vai ao microfone. “Pessoal, vamos ajudar todos a entrar. Será por pouco tempo. Na próxima parada, na Universidade, muitos irão descer. Conto com a paciência de vocês. Obrigado”.

Durante os Jogos Pan-Americanos 2015, moradores de Toronto, no Canadá, aproveitaram o sol do Verão do hemisfério norte para curtir a praia de Woodbine e os parques da cidade
Durante os Jogos Pan-Americanos 2015, moradores de Toronto, no Canadá, aproveitaram o sol do Verão do hemisfério norte para curtir a praia de Woodbine e os parques da cidade
Foto: Osmar Portilho / Terra

Enquanto isso, um rapaz sobe no bonde com seu cachorro com apenas três patas. O condutor faz carinho no animal, enquanto observa duas senhoras entrarem. O veículo está parado no meio da rua e não se move até ambas se sentarem.

Chego na estação desejada. Descer pode parecer uma aventura, mas não é. Os trilhos dos bondes estão no meio da rua. Não há plataformas, não há rampas e nem grades. Quando você desce do vagão, está no meio das faixas dos carros. O que acontece? Nada. Os carros param ao ver os bondes chegando ao seu ponto.

Óbvio que nem tudo é lindo como uma fábula infantil. Ao travar uma avenida durante o desembarque, o bonde acabou bloqueando por muito tempo a via. Uma buzina efusiva soou. Na calçada, um casal fuzilou com os olhos o motorista do carro.

O bonde é uma amostragem de como 30 minutos do seu dia podem ser mais agradáveis em um ambiente menos hostil. Isso se repete no metrô, no shopping, no restaurante, no mercado, no açougue. Em todos os lugares.

Durante os Jogos Pan-Americanos 2015, moradores de Toronto, no Canadá, aproveitaram o sol do Verão do hemisfério norte para curtir a praia de Woodbine e os parques da cidade
Durante os Jogos Pan-Americanos 2015, moradores de Toronto, no Canadá, aproveitaram o sol do Verão do hemisfério norte para curtir a praia de Woodbine e os parques da cidade
Foto: Osmar Portilho / Terra

A simpatia e a gentileza dos canadenses já virou meme na internet e abastece frequentemente esquetes de comédia nos Estados Unidos. Com representações tão caricatas, duvidei que isso de fato fosse real.

Onde quero chegar com isso? Lugar nenhum. Ver cenas de humanização e apropriação saudável do espaço público só me lembram como não exercitamos.

Nós desistimos.

E quem vai mudar isso?

A polícia? Algum partido? Uma lei para dar bom dia?

Eu e você.

Então um bom dia para você, leitor, e obrigado.

 

Fonte: Terra
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade