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NHL vive dilema com audiência do hóquei nos Jogos de Inverno

24 fev 2010
18h59
Jeff Z. Klein

Para Gary Bettman, comissário da National Hockey League (NHL), a liga norte-americana de hóquei profissional, pode estar em uma enrascada: sua alegação de que a participação da NHL em futuros jogos olímpicos seria insustentável parece ter sido negada pela grande audiência televisiva da partida olímpica entre as seleções do Canadá e dos Estados Unidos, no domingo.

Hóquei no Gelo (M) - CAN 3 x 5 USA

Bettman havia sugerido que suspender as atividades da NHL pelos 15 dias de duração dos jogos pode custar mais para a organização do que ele recebe em termos de benefícios de imagem, pelo destaque que muitos de seus atletas conquistam junto às audiências internacionais. A liga não recebe dinheiro pelas transmissões olímpicas de hóquei, mas a alta exposição e os elevados índices de audiência sugerem que a NHL está auferindo mais vantagens das olimpíadas do que Bettman e seu pessoal esperavam.

Mesmo que sua relutância em paralisar a NHL por 15 dias durante futuros jogos olímpicos seja essencialmente uma ferramenta de pressão nas negociações por uma parte das receitas de transmissão olímpica, ou nas negociações de um novo contrato coletivo de trabalho com a associação dos jogadores da NHL, a perspectiva de deixar de lado uma plataforma que oferece benefícios inegáveis à organização parece estar se tornando impensável.

De acordo com os índices de audiência, a partida foi acompanhada por 10,8 milhões de pessoas no Canadá, o que a tornou o programa esportivo mais assistido na história da televisão do país; outros 8,2 milhões de telespectadores a acompanharam nos Estados Unidos pela rede de TV a cabo MSNBC, o que mais ou menos equivale aos seus índices de audiência na noite da eleição de 2008.

A partida nem mesmo era eliminatória, mas a audiência nos dois países superou a da partida decisiva da Stanley Cup no ano passado, transmitida nos Estados Unidos pela rede de TV aberta NBC.

Os números do jogo de domingo parecem contradizer a ideia de que a olimpíada representa um sacrifício dispendioso demais para a NHL. Na verdade, a presença de jogadores da liga nos jogos olímpicos serve para divulgar a organização de uma maneira que esta mesma não vem conseguindo realizar.

"É excelente para a Liga e para o hóquei em geral, uma chance de mostrar em ação os melhores jogadores do mundo, e em palco também mundial", disse Nicklas Lidstrom, jogador da seleção sueca e do Detroit Red Wings, na noite de segunda-feira.

Joe Sakic, que defendeu a seleção canadense e o Colorado Avalanche, diz que "os jogadores adoram estar na olimpíada, os torcedores também, e isso promove o esporte. Ao final, todos compreendem que se trata da melhor coisa para o hóquei".

Bettman apresentou alguns argumentos persuasivos na quinta-feira, quando mencionou os motivos para que a NHL, que desde 1998 faz uma pausa de duas semanas para as olimpíadas, talvez deixe de autorizar a presença de seus atletas, a partir dos jogos de 2014, em Sochi, Rússia.

"Isso nos custa dinheiro, e atrapalha a nossa temporada", ele disse, sobre a paralisação olímpica nos jogos da NHL. O dirigente também mencionou outras questões, como o controle que o Comitê Olímpico Internacional (COI) exerce sobre os direitos de transmissão e sobre o acesso da mídia, a decisão da NBC de só mostrar a íntegra dos jogos de hóquei em suas redes auxiliares e, claro, o risco de lesão para alguns dos melhores atletas da organização.

Entre as coisas que Bettman pode estar buscando junto ao COI talvez esteja a presença do logotipo da NHL nos jogos, em companhia do símbolo da Federação Internacional de Hóquei sobre o Gelo, e o mesmo acesso a cobertura online ao vivo que a federação já oferece em seu site, para a organização do hóquei profissional.

Bettman não é o único dos dirigentes da NHL que expressa dúvidas sobre a presença dos atletas da liga nos jogos olímpicos de Sochi, para os quais a necessidade de viagens longas e as diferenças de fuso horário podem gerar mais dificuldades do que a olimpíada de Vancouver.

Até mesmo Brian Burke, diretor da seleção de hóquei masculino dos Estados Unidos e também presidente e diretor geral do Toronto Maple Leafs, expressou dúvidas públicas quanto a manter a participação da NHL na olimpíada.

"Nós suspendemos nossa temporada por mais de duas semanas, e recebemos muito pouco benefício disso", disse Burke em agosto do ano passado, durante um acampamento de treinamento da equipe.

"Temos alguma vantagem quando os jogos acontecem na América do Norte, como em Vancouver ou Salt Lake City, mas caso eles aconteçam no exterior não há vantagem alguma para nós. Não me surpreenderia que essa seja a última olimpíada de que a NHL participa."

É difícil enquadrar declarações como essas ao entusiasmo aberto que Burke demonstra pela seleção masculina dos Estados Unidos. Mas, como executivo do Leafs, ele estava falando em nome de uma porção considerável dos dirigentes da liga.

Opiniões como essa são bastante comuns entre eles. Determinar se elas continuarão a sê-lo depois de uma competição que vem destacando mais que nunca o talento dos atletas da NHL é algo que ficará para o futuro.

Os jogadores certamente querem liberdade para ir a Sochi dentro de quatro anos.

Pesquisas internas revelaram que a maioria dos integrantes do sindicato dos jogadores favorece a participação nos jogos, e isso certamente será um fator na negociação do contrato coletivo de trabalho entre eles e a liga, ao final da próxima temporada.

E Alex Ovechkin, Evgeni Malkin e Ilya Kovalchuk declararam que não jogarão mais por suas equipes da NHL, caso necessário, se isso os vier a impedir de defender a seleção russa jogando em casa, na olimpíada de 2014.

Nenhum outro jogador ou federação internacional indicou o que pretende fazer caso a NHL desista de cooperar com o COI em 2014.

Lidstrom e Sakic falaram depois de uma cerimônia em Vancouver para homenagear os 22 homens que conquistaram uma Copa Stanley, uma medalha de ouro olímpica e um título do campeonato mundial de hóquei. Os 22 integrantes da lista que a federação define como "Clube do Triplo Ouro", estiveram presentes, e entre eles há oito atletas que estão participando dos atuais jogos: Lidstrom, Peter Forsberg, Henrik Zetterberg, Niklas Kronwall e Fredrik Modin, da Suécia; Jaromir Jagr, da República Tcheca; e Scott Niedermayer e Chris Pronger, do Canadá.

Outro vencedor do ouro triplo, o defensor soviético Vyacheslav Fetisov, ex-ministro russo dos Esportes e agora presidente do conselho da Kontinental Hockey League (KHL), não surpreendeu ao defender que os jogadores da NHL participem da olimpíada de Sochi. E disse que, caso a liga se afastasse dos jogos de 2014, poderia haver outras consequências.

"Se eles abandonarem a família olímpica, creio que não terão chance de retornar",afirmou Fetisov. "Não é tão difícil assim encontrar um prazo livre de duas semanas que permita enviar todos os melhores jogadores à olimpíada".

A KHL quer que todos os jogadores estejam disponíveis para a olimpíada, é claro. Como todas as ligas europeias, ela permite que seus atletas participem pelos seus países de competições internacionais.

Rene Fasel, presidente da federação internacional de hóquei, reconheceu as preocupações de Bettman sobre as questões de marca e mídia, mas disse que havia problemas maiores em jogo.

"Gary deveria compreender, na verdade, que o jogo e os torcedores desejam ver os melhores enfrentando os melhores", afirmou. "Quando vemos os índices de audiência da partida entre Canadá e Estados Unidos, eles são muito altos".

"Entendo o que Gary tem a dizer, sobre o dinheiro que a liga perde, mas não é esse o caso. Ele deveria ter em mente que espectadores na Europa e Ásia assistem torneio, e que isso serve como promoção para a NHL".

O interesse ampliado pelo hóquei olímpico, na América do Norte, causa outras dúvidas sobre os seus atrativos, se comparados à forma que o esporte toma na NHL.

No hóquei olímpico, seja nos jogos em curso ou em quaisquer outras competições, simplesmente não acontecem brigas, e ninguém parece sentir falta delas. E ninguém, igualmente, parece sentir falta do jogo das estrelas da NHL, outro dos sacrifícios durante os anos olímpicos mencionados por Bettman.

Mas a verdade é que os números parecem ter algo de sólido a dizer, e Bettman precisa ter esse aspecto em mente quando chegar a hora de decidir sobre Sochi.

O hóquei olímpico cria mais interesse que o da NHL, mas o hóquei olímpico sem os atletas da liga profissional norte-americana atrairia muito menos interesse.

The New York Times
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