Depois de virar a sensação da Eurocopa, o futebol grego deveria estar entrando num período áureo. A verdade, porém, é que a assustadora situação dos times locais ameaça tirar o brilho da chegada da seleção à final do torneio continental.
Os antigos gregos inventaram o conceito de caos, e seus descendentes de hoje em dia acrescentaram uma nova dimensão à palavra, ao transformar o passatempo favorito do país em uma tragicomédia.
Violência de torcedores, estádios vazios, equipes quebradas, jogadores sem salários e suspeitas de armação nos resultados são a realidade de várias estrelas gregas quando voltarem de Portugal.
"Podemos continuar com a exploração barata dos triunfos da seleção antes de voltarmos para a miséria do campeonato nacional, ou podemos aproveitar a oportunidade e tomar medidas para uma reformulação radical", disse o respeitado jornal Kathimerini.
Segundo um repórter que há 18 meses revelou um escândalo de manipulação de resultados, o futebol grego vai precisar de uma revolução depois de sua heróica campanha na Eurocopa.
"O futebol grego tem duas caras (no exterior nós vamos bem, e em casa é uma completa bagunça", afirmou o jornalista Makis Triantafylopoulos.
"O problema não são só os torcedores violentos, é o tipo de gente que está comandando o jogo. Quando você controla os árbitros, você não tem de gastar seu dinheiro em jogadores e estádios para ser bem sucedido", afirmou.
Vários governos já prometeram erradicar os gângsteres na cúpula do esporte, mas com poucos resultados.
A violência hoje é parte da experiência de ir ao estádio. Torcedores e policiais se digladiam nas arquibancadas, jogadores são atacados pela sua própria torcida, e o médico de um time já chegou a dar um soco em um juiz.
Não é muita gente que se dispõe a correr tanto risco. Alguns jogos importantes não chegam a reunir 150 pagantes.
Mesmo assim, a seleção consegue apoio, talvez graças à campanha que começou nas eliminatórias para esta Eurocopa, quando os organizadores atraíram 10 mil pessoas ao primeiro jogo distribuindo camisas da equipe nacional.
O futebol grego vive uma crise financeira desde setembro de 2002, quando a empresa Alpha Digital, que transmitia jogos por satélite, faliu. Muitos clubes estão próximos da quebra.
O AEK de Atenas, um dos principais times gregos, com cinco jogadores na seleção, pode voltar a ser uma equipe amadora por causa da sua dívida de 100 milhões de euros (121,8 milhões de dólares).
Os cinco jogadores da seleção já pediram a liberação do AEK e, depois da final de domingo contra Portugal, devem ampliar o êxodo de atletas locais em direção a campeonatos europeus mais lucrativos.
O alerta para a Grécia já soa na vizinha Turquia, país que chegou à semifinal da Copa do Mundo de 2002, mas que vê seus times piorarem por causa da fuga de jogadores talentosos. A seleção turca ficou de fora da Eurocopa ao ser derrotada pela despretensiosa Letônia nas eliminatórias.

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