O entusiasmo do Comitê de Candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos de 2016 é total quando se fala da possibilidade da cidade ser sede do maior evento esportivo do mundo. A divulgação do conteúdo do dossiê de candidatura, que foi entregue ao Comitê Olímpico Internacional há dois dias, foi apresentado nesta sexta-feira.
» Por Rio 2016, Barra da Tijuca e região irão se transformar
» Rio 2016 propõe Vila Olímpica com praia e telões pelo mundo
» Por 2016, Rio enfatiza transporte e segurança em dossiê de candidatura
Entre outras coisas, chama a atenção do fato de o documento citar a estrutura esportiva construída para os Jogos Pan-Americanos como um legado para 2016, apesar de boa parte dos locais estarem ociosos e outros não serem compatíveis com os requisitos do Comitê Olímpico Internacional (COI) cerca de um ano e meio do encerramento do evento em 2007.
A tentativa de embalar a campanha não consegue esconder a falta de entendimento entre clubes, COB, atletas e confederações, que vieram à tona nesta semana com a discussão em torno da lei Agnelo-Piva.
Enquanto os clubes tentam conseguir mais dinheiro para manter os seus atletas em atividade, o Comitê divulga que US$ 42 milhões (cerca de R$ 95,7 milhões) serão gastos até o fim da campanha de candidatura e mais R$ 5,6 bilhões serão usados caso a cidade vença a disputa com Madri, Tóquio e Chicago.
"No dia 2 de outubro, o Comitê Olímpico Internacional terá a chance de tomar uma decisão histórica e abrir as portas para a juventude do mundo. O Rio de Janeiro poderá se consolidar como centro esportivo do continente", afirmou Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
O otimismo do presidente do COB contrasta com as opiniões de alguns atletas. O judoca Flávio Canto, dono de três medalhas em Jogos Pan-americanos na categoria até 81kg e uma de bronze na Olimpíada de Atenas em 2004, pela mesma categoria falou sobre suas dificuldades para sobreviver como atleta "amador".
"O Rio 2007 foi um grande avanço e acredito que se a Olimpíada de 2016 for no Brasil, o esporte aqui irá lucrar muito com isso. Foi desta maneira com outros países, como a Espanha e a China e espero que seja assim também com o Brasil. Mas acho que o Rio vive um momento contraditório, pois não vejo a crise vivida pelo estado em São Paulo e Minas, por exemplo. Acho que faltam gestores genuinamente envolvidos no esporte no Rio", ressaltou.
O lutador ainda destacou sua situação neste início de 2009 como exemplo. "Assim como eu, muitos atletas começaram o ano sem patrocínio. No Reação, conseguimos patrocínio individual para duas atletas. Para a Rafaela Lopes, que foi campeã mundial júnior na categoria leve em outubro de 2008, e para a Raquel, que é irmã dela", contou.
O Instituto Reação, ONG sem fins lucrativos atua em comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro e oferece, além das aulas de judô, passeios, atendimento fisioterápico e aulas de reforço escolar.
O vice-presidente de esportes olímpicos do Fluminense, Ricardo Martins, que representa o clube no Confao (Conselho dos Clubes Formadores de Atletas Olímpicos), explicou a posição da entidade que reivindica do COB parte dos recursos obtidos através da Lei Agnelo/Piva para que os próprios clubes invistam em estrutura.
"Quem forma os atletas são os clubes com um custo elevado em estrutura técnica e patrimonial e não contamos com qualquer incentivo fiscal, seja do governo Municipal, Estadual ou Federal. Só será possível alcançar metas significativas se existirem atletas com alta capacidade e quem forma estes atletas são os clubes. Todos os custos são dos clubes, com o apoio das federações, que têm papel importantíssimo neste desenvolvimento", afirmou o dirigente.
Em relação a situação financeira complicada que vivem os clubes do Rio, que dependem de uma certidão negativa de débito para poder usufruir da Lei de Incentivos Fiscais, Martins admitiu: "é claro que isto prejudica diretamente os esportes olímpicos, que em muitos casos são, como aqui no Fluminense, subsidiados pelos departamentos social e de futebol".
"Novas fontes de recursos oriundos de incentivos fiscais são extremamente importantes para que os Esportes Olímpicos tenham vida dentro dos clubes", completou.
Martins reconheceu que a realização de uma Olimpíada no Rio beneficiará em muito a cidade, mas fez um alerta: "se não houver uma política de desenvolvimento e aprimoramento de todas as modalidades desportivas olímpicas, pouco ou nada irá acrescentar a situação atual das mesmas no País".
O presidente da Confederação de Desportos Aquáticos Coaracy Nunes disse compreender a situação dos clubes, mas sugere que a reivindicação seja feita de outra maneira.
"O Confao não deveria reivindicar verbas onde as quantias são insuficientes para atender aos esportes olímpicos, mas solicitar um aumento no percentual da Lei Agnelo/Piva para atendimento de suas necessidades", destacou.
A Lei Agnelo/Piva foi sancionada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso em julho de 2001 e estabelece que 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais do pais sejam repassados ao COB e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB). Do total dos recursos, 85% são repassados ao COB e 15% ao CPB.
Em nota, o COB afirmou que vem contribuindo de forma decisiva para a qualificação técnica dos atletas, com a contratação de técnicos estrangeiros, de comissão técnica multidisciplinar, aquisição de equipamentos e materiais esportivos importados, manutenção de Centros de Treinamento, treinamentos no exterior e participação em competições nacionais e internacionais, entre outros, e que, portanto, os recursos da Lei Agnelo/Piva já chegam aos atletas e técnicos.
O impasse está agora nas mãos do ministro do Esporte, Orlando Silva, que deverá conversar com o presidente Lula dentro dos próximos 60 dias, para tentar encontrar uma solução.
A primeira possibilidade é incluir os clubes na lista dos contemplados pela lei sem mexer no percentual arrecadado pela mesma e a segunda, defendida pelos dirigentes do COB e das confederações, seria aumentar a arrecadação da lei para 3% ou 4% do arrecadado pelas loterias federais.
- Especial para Terra

Assista agora »
Assista agora »

