Erica Blasberg foi encontrada morta em sua residência no domingo
Foto: Getty Images
- Karen Crouse
O campo de treino é o local no qual as mulheres da LPGA Tour se reúnem no começo de cada semana de trabalho para colocar a conversa em dia. É como a área do cafezinho em uma empresa: um local quase sempre festivo no qual personalidades alegres e tacadas bonitas disputam a atenção.
Na terça-feira, o clima era de tristeza na Robert Trent Jones Golf Trail, em Mobile, Alabama, enquanto as golfistas que participarão do Bell Micro LPGA Classic se esforçavam por aceitar que Erica Blasberg não estaria presente com seu sorriso refrescante.
Depois de algumas tacadas, Irene Cho, de olhos avermelhados pelas lágrimas, falou sobre os planos que havia feito com Blasberg, 25, sua melhor amiga no circuito, para um jantar, no dia anterior à participação de Blasberg na rodada classificatória para o torneio.
As duas confirmaram o jantar em conversa telefônica na semana passada, mas Blasberg infelizmente não pôde comparecer. Foi encontrada morta na tarde de domingo, depois que a polícia atendeu a um telefonema de emergência feito da casa da golfista, em Las Vegas. "Creio que estejamos todas em choque", disse Cho.
A caddie de Cho, Missy Pederson, carregaria os tacos de Blasberg na segunda-feira. Disse ter recebido uma mensagem de texto de Blasberg na manhã de domingo dizendo que não participaria do torneio.
A mensagem havia sido enviada na madrugada, e isso preocupou Pederson, que respondeu a dizendo que esperava que tudo estivesse bem com a amiga. Blasberg não respondeu.
A polícia não informou como Blasberg morreu. Michael Murphy, legista do caso, disse à AP que uma decisão sobre a causa da morte só seria tomada depois de testes de sangue e tecidos que poderiam demorar de quatro a seis semanas para ser realizados.
Blasberg, natural do sul da Califórnia, estava em sua sexta temporada e, em seu primeiro torneio da temporada, em Morelia, México, havia conquistado o 44° lugar. Prejudicada por problemas nas costas no ano passado, ela teve de abandonar cinco dos 17 torneios que jogou e ganhou US$ 26.048 em prêmios.
Este ano, estava inscrita para participação limitada no circuito, o que requer que a jogadora dispute rodadas classificatórias para os torneios. A situação era frustrante para Blasberg, que em 2008 faturou US$ 113.428 em 23 torneios.
Ainda que Blasberg tenha feito 70 tacadas, três abaixo do par, em uma das suas rodadas finais no México, estava frustrada por não poder participar plenamente do circuito. Em um jantar posterior ao torneio de Morelia, Cho disse que tentou encorajar a amiga.
"Ela estava bem desanimada", disse Cho, acrescentando que "Erica estava irritada com a maneira pela qual jogou no ano passado. Eu disse a ela que era muito bonita, muito talentosa, e que muita gente a amava. O melhor seria que ela tivesse isso tudo sempre em mente".
O pai de Blasberg, Mel, professor de golfe e técnico da filha, disse ter viajado a Las Vegas na semana passada para treinar com ela e que tinha voltado para casa contente com sua forma física e técnica e com seu estado de espírito.
"Erica passou por maus momentos no ano passado e havia preocupação com a possibilidade de que o golfe já não a interessasse", disse o pai na terça-feira em entrevista por telefone. "Mas na semana passada a Erica que eu encontrei foi aquela que todos conhecemos. Estava animada, pronta para outra. Tinha recuperado tudo aquilo que havia perdido. Mesmo emocionalmente, eu vi uma pessoa em pleno controle".
Durante a universidade, Blasberg não permitia que muita coisa se interpusesse em seu caminho, nas pistas de golfe. Nos dois anos que passou na Universidade do Arizona, ela venceu seis dos 20 torneios da instituição. Em 2003, foi considerada como a melhor novata do ano pela associação de atletismo universitário dos Estados Unidos e foi escolhida por duas vezes como uma das melhores golfistas universitárias do país.
Em 2004, Blasberg se tornou profissional e venceu um torneio na Duramed Futures Tour, antes de se qualificar para a LGPA Tour, em 2005. Laura Myerscough, ex-companheira de equipe da golfista na universidade e jogadora profissional por algum tempo antes de voltar ao Arizona como técnica, disse que "Ela fez um grande bem ao golfe feminino. Era a típica garota norte-americana da Califórnia. Uma mulher bonita, sempre feliz, e uma rival motivada. Quando se tornou profissional, não demorou a encontrar muitos patrocinadores".
Em 2006, a Puma fez de Blasberg o rosto feminino de sua nova divisão de golfe. Era a escolha ideal para um anunciante, com sua figura de modelo e alegria permanente, mas enfrentou muitas dificuldades nas pistas.
"Especialmente se você não está jogando bem, o circuito profissional é uma montanha russa emocional", disse Myerscough em entrevista por telefone. "Pode ser deprimente. Eu terminei por deixar o golfe porque me esgotava emocionalmente".
Mike Whan, comissário da LPGA, disse que existe uma linha de assistência telefônica para jogadoras que se sintam desanimadas com o esporte. Mas procurar ajuda profissional vai contra o espírito de um esporte no qual, quando um jogador erra uma tacada, treina até acertar.
"Se você não está jogando bem, o que pode fazer? Ir à pista e treinar. A pessoa precisa ser gentil consigo mesma. Falar consigo mesma como amiga, e não se criticar demais", disse Whan.
A organização tem um programa de orientação para as novatas. Enquanto Mike Whan, como as jogadoras, se esforçava para compreender a morte de Blasberg, comentou: "Às vezes acho que esquecemos o fato de que as coisas não se tornam mais fáceis apenas porque a pessoa deixou de ser novata".

- The New York Times


Assista agora »
Assista agora »
