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13 de abril de 2009 • 14h49

Novos estádios devem resolver problemas de filas no banheiro

Banheiros dos estádios de beisebol têm longas filas
Foto: The New York Times
 

Se nada mais, os investimentos de US$ 2 bilhões realizados nos novos estádios de beisebol de Nova York devem propiciar ao menos uma espera mais curta para ir ao banheiro, especialmente no caso das mulheres.

A espera em longas filas vem sendo uma realidade desconfortável, e ocasionalmente insalubre, para gerações de mulheres em lugares como estádios, ginásios e teatros. Os homens talvez possam encarar como piada suas passagens relativamente rápidas pelos lavatórios. Mas para as mulheres as longas filas podem representar uma gama de sensações desagradáveis ¿de um pequeno incômodo até uma forma de discriminação sexual.

"A abertura desses dois grandes estádios e de todos os seus banheiros ao mesmo tempo pode ser o grande momento na luta pela paridade sanitária", disse Kathryn Anthony, professora de arquitetura na Universidade de Illinois e membro do conselho da Associação Americana dos Sanitários.

Cerca de 1,5 mil novos toaletes (tanto vasos sanitários quanto urinóis, no caso dos banheiros masculinos) aguardam os torcedores nos banheiros dos dois novos estádios, o que representa cerca de 30% de expansão no caso do Yankee Stadium e 10% no do Citi Field, cuja capacidade total é cerca de 12 mil assentos menor que a do estádio do clube rival.

E no caso dos torcedores de futebol americano, também há uma expansão no número de toaletes a caminho; cerca de 1.350 novos toaletes estão planejados para o estádio novo que abrigará o Giants e o Jets, os dois times de futebol americano de Nova York, e será inaugurado no New Jersey Meadowlands em 2010.

A paridade sanitária não significa sempre que haja número igual de toaletes para homens e mulheres. A maneira correta de medir a paridade é pelo tempo de espera. Os estudos demonstram que as mulheres demoram cerca de duas vezes mais do que os homens para encontrar vaga em um banheiro. Os motivos variam, dos óbvios (a necessidade de encontrar um box desocupado, de tirar mais roupas e de usar papel higiênico) aos menos evidentes (ciclos menstruais e a probabilidade superior à dos homens de que vão ao banheiro conduzindo crianças pequenas).

Grupos como a Associação Americana de Sanitários e a Organização Mundial dos Toaletes consideram o acesso rápido a sanitários limpos como assunto muito sério. Pessoas que sofrem de problemas médicos, entre os quais disfunções urinárias ou intestinais, talvez não possam esperar demais. As longas esperas exacerbam outros problemas, como infecções do aparelho urinário.

Por anos, as mulheres vêm enfrentando as consequências, se não a indignidade, de esperar em longas filas.

A cidade de Nova York aprovou em 2005 uma lei sob a qual os lugares públicos novos ou reconstruídos ¿salas de espetáculos, ginásios, teatros, estádios e que tais- tenham duas vezes mais toaletes para mulheres do que para homens. Cerca de metade dos Estados Unidos norte-americanos e muitos municípios adotam leis semelhantes, ainda que nem sempre com a mesma proporção, para compensar o tempo adicional de que as mulheres precisam nos sanitários e reduzir lentamente o efeito de décadas de domínio masculino no terreno do projeto e construção civil.

"Até relativamente pouco tempo atrás, a maior parte dos arquitetos, empreiteiros, engenheiros, fiscais de obras e clientes não se incomodava com essa questão", diz Anthony. "Trata-se de profissões onde o domínio masculino era, e continua sendo, forte. Eles raramente consultavam as mulheres sobre suas necessidades sanitárias".

A lei de Nova York surgiu quando a cidade reformou seu código de construção e hidráulico, que datava em sua maioria de 1968. A cidade modelou seu código hidráulico no Código Hidráulico Internacional de 2003, que apresenta requisitos específicos para os toaletes a serem instalados em diferentes edifícios e para diferentes formas de uso. Em quase todos os casos, o número de toaletes destinados às mulheres precisa crescer.

Mas já que a maior parte dos locais públicos da cidade foi construída há décadas, eles em geral carecem de sanitários femininos. A construção de novos estádios e ginásios oferece uma rara oportunidade de corrigir a disparidade.

O novo Yankee Stadium, com capacidade para 52.325 torcedores, precisa de um mínimo de 358 toaletes para mulheres e 176 para homens; destes últimos, não mais de metade podem ser urinóis, de acordo com o Departamento de Edificações da cidade de Nova York.

Em termos gerais, assim que o requerimento mínimo é atendido, o número de toaletes de um edifício pode ser adaptado às necessidades que ele deve atender. Estudos demonstram que a torcida que acompanha o beisebol apresenta ligeira maioria masculina. Isso leva os construtores de estádios a atender os requisitos mínimos e acrescentar um bom número de urinóis.

O Yankees e o escritório de arquitetura Populous, responsável pelo projeto tanto de seu novo estádio quanto do Citi Field, criaram 369 toaletes femininos no novo Yankee Stadium, bem como 98 vasos sanitários e 298 urinóis para homens, de acordo com o departamento de edificações. Há outros 78 toaletes em banheiros unissex, projetados para famílias, ou em camarotes de luxo.

O CitiField, com capacidade para 45 mil torcedores, teria de oferecer 303 toaletes para mulheres e 152 para homens, segundo o departamento. Foi construído com 374 toaletes para mulheres e 111 vasos sanitários e 240 urinóis para homens.

No novo estádio de futebol americano, que fica em Nova Jersey, Estado que adota o Código Hidráulico Padrão dos Estados Unidos, o requerimento era de pelo menos 420 toaletes para mulheres e 277 para homens.

O estádio terá 608 toaletes femininos (quase 50% a mais do que o Giants Stadium) e 704 masculinos (mais de 40% de vantagem), incluindo 523 urinóis, de acordo com Mark Lamping, o presidente-executivo do novo Meadowlands Stadium.

A torcida que acompanha jogos de futebol americano tende a ser preponderantemente masculina ¿o Giants calcula que 70%, no seu estádio atual-, o que explica o fato de que a maioria dos toaletes adicionais se destinem aos homens.

Mas os melhores planos nem sempre funcionam. Lamping e o Populous têm experiência com as dificuldades que os códigos de construção podem impor e com as complicações envolvidas em prever o comportamento dos torcedores.

Lamping era presidente do St. Louis Cardinals quando o novo Busch Stadium foi inaugurado, em 2006, com 37 toaletes a menos para mulheres do que para homens. Isso violava uma lei estadual do Missouri que requer paridade no número de toaletes. O estádio recebeu um prazo adicional de um ano para equalizar a situação dos sanitários - 334 toaletes para cada sexo.

A Universidade de St. Louis - a cidade aparentemente é propensa a trapalhadas sanitárias- tropeçou na mesma lei ao inaugurar a Chaifetz Arena, no ano passado. Como o Busch Stadium, o novo ginásio respeitava os códigos mas havia toaletes femininos a mais (120 a 103), o que tecnicamente representava uma violação da lei. Depois de muito debate e muita consternação, a ligeira disparidade foi autorizada.

O medo, em qualquer nova construção, é que as críticas iniciais se concentrem na longa espera para ir ao banheiro. Quando a reforma do estádio Soldier Field, em Chicago, foi concluída, em 2003, a espera masculina por um lugar no banheiro aumentou. O problema foi resolvido com a conversão de cinco sanitários femininos em masculinos.

Coisa semelhante aconteceu em Nashville, Tennessee, quando foi inaugurado o estádio de futebol americano do Tennessee Titans, em 1999. Os arquitetos seguiram a norma que dispõe dois toaletes femininos por toalete masculino, e isso levou os homens a enfrentar longas esperas enquanto as mulheres passavam rapidamente pelos sanitários. Isso resultou em uma redução da razão entre toaletes femininos e masculinos a 1,65 para um.

Qual é a proporção correta? Anthony, que já escreveu até um livro sobre o assunto, declarou dois anos atrás que a situação dos sanitários "continua a ser uma das relíquias mais tangíveis da discriminação sexual", e acredita que deva ser de ao menos dois para um. Nos amistosos de teste dos dois estádios, no final de semana, não houve relatos de filas longas demais no banheiro. Mas ela espera que Mets e Yankees cronometrem as esperas e façam os ajustes requeridos.

"O ideal é que ninguém devesse esperar", afirma.

Não, ela não vive em Nova York.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times