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Ohno se transforma no "rei do inverno" dos EUA

22 fev 2010
21h02
atualizado às 21h04
Greg Bishop
Direto de Whistler

Enquanto Apolo Ohno patinava sua volta de celebraçao, após a corrida dos 1.000 m, ele mantinha sete dedos sobre sua cabeça. Eles representavam as sete medalhas conquistadas por ele em três Olimpíadas, mas do que qualquer outro atleta de inverno americano.

As mais recentes foram conquistadas no Pacific Coliseum, onde Ohno ganhou outro bronze no sábado à noite. Isso transformou Ohno na versão olímpica de uma árvore de Natal, sendo descrito por um membro do Comitê Olímpico americano como o atleta olímpico de inverno "mais decorado" de todos os tempos.

"A sensação é impressionante", disse Ohno. "Nunca entrei nos Jogos Olímpicos pensando que alcançaria algum recorde. No nosso esporte, todo atleta sabe que já é loucura ganhar uma medalha."

Uma pessoa que entende de medalhas, competições de velocidade, vitórias e braços erguidos nas chegadas estava sentada logo na primeira fileira da arquibancada durante a corrida. Essa pessoa era Michael Phelps, a sensação da natação, que aplaudiu cada curva de Ohno.

Antes da largada final, bandeiras se agitavam nas arquibancadas de um Pacific Coliseum lotado. Restavam cinco patinadores, de três países: Coreia do Sul (dois), Canadá (os irmãos Hamelin) e Estados Unidos.

Ohno largou nessa posição, avançou para a segunda com duas voltas restantes e pensou que a corrida estava garantida. Mas ele caiu, indo para último, até conseguir assegurar o bronze. Lee Jung-su, da Coreia do Sul, foi o vencedor, e a prata foi para seu colega de equipe Lee Ho-suk.

A noite foi puro espetáculo para Apolo, mas o final, uma medalha de bronze para alguém que tinha expectativas maiores, foi de certa forma um anticlímax. Mas Ohno não se importou com isso.

"Significa muito para mim, especialmente num esporte como este", disse. "Sou só sorrisos."

Ele havia deslizado os 1.000 m finais na sua maneira tipicamente tardia, suave e eufórica. Nas eliminatórias das quartas e da semifinal, Ohno largou na retaguarda, de propósito.

A semifinal incluiu Sung Si-bak, o patinador sul-coreano com quem Ohno se emaranhou no último fim de semana, e Charles Hamelin, do Canadá, o recordista mundial na categoria. Ohno se manteve em terceiro, mas, na volta final, ele cortou por dentro, passou por ambos e levou a plateia ao delírio.

Eles atingiram a linha de chegada juntos, com o patim de Ohno talvez a meio pé de vantagem de seus competidores e com o de Hamelin a insípidos centímetros da lâmina de Sung. Ohno fez um gesto de celebração com pouca emoção. A corrida mais importante, aquela com maior potencial histórico, ocorreria em 30 minutos.

No início da semana, o mais jovem patinador de velocidade americano, Simon Cho, 18, se maravilhou com o total de medalhas de Ohno. Na maior parte da vida de Cho como patinador, Ohno conquistou medalha após medalha na disciplina mais imprevisível e feroz da patinação de velocidade. Ohno venceu em Salt Lake, na Itália, de novo aqui, nestas Olimpíadas, a três horas de viagem de onde cresceu.

Ele nunca alcançou o total de cinco ouros em uma Olimpíada de Eric Heiden. Ohno tampouco pode esnobar os cinco ouros e uma prata de Bonnie Blair. Mas Ohno superou, com consistência e controvérsia, quatro gerações de patinadores de elite.

Independentemente de onde Ohno se encaixa na história da patinação de velocidade, sete medalhas ainda são sete medalhas, mais do que qualquer outro atleta de inverno olímpico dos Estados Unidos, ou que qualquer outro patinador de velocidade em pista curta de qualquer país. Além disso, Ohno, praticamente sozinho, deu relativa popularidade a um esporte obscuro. Seu legado vai incluir tudo isso.

Seu legado vai incluir tudo isso, e também o que ele acrescentar nos seus dois eventos finais na próxima semana.

"É por isso que ele é o mestre da pista curta", disse Cho. "Veremos no final com quantas ele vai acabar. Mas tenho certeza que virão outras."

No que provavelmente é sua última Olimpíada, Ohno emanava calma. É comum ele bocejar no aquecimento prévio às competições, inclusive durante a final dos 1.000 m, e ele projeta a tranquilidade de um monge budista em coletivas de imprensa e postagens no cyberespaço.

No sábado, Ohno tinha como meta ganhar o recorde de medalhas, o sete da sorte, nos 1.000 m, a única corrida que nunca venceu nas Olimpíadas. Ohno conquistou medalhas na modalidade nos quatro dos cinco últimos campeonatos mundiais, e ganhou a prata em Salt Lake e o bronze em Turim, na Itália.

Ohno já esperava mais contato na corrida, mais confusão, a despeito do que tivesse ocorrido na semana anterior.

Em seu primeiro evento, os 1.500 m, Ohno mais uma vez estava cercado de controvérsias. E, mais uma vez, a situação envolvia patinadores sul-coreanos.

Ohno nunca foi o patinador mais popular em Seul, na Coréia do Sul. Os sul-coreanos apelidaram Ohno de O Rei das Faltas. Eles colocaram seu rosto em papéis higiênicos e enviaram ameaças de morte e reclamações, centenas de mensagens que derrubaram por um curto período o servidor do comitê olímpico americano.

Nos 1.500, dois sul-coreanos se enroscaram com Ohno restando meia volta, acabando com seu impulso, diminuindo sua velocidade a um rastejar. Ohno se levantou. Na curva final, Sung e Lee Ho-suk bateram um no outro, cedendo a prata a Ohno e o bronze a seu colega de equipe J.R. Celski (Celski foi desqualificado na semifinal dos 1.000 m, por empurrar um competidor).

"Ohno não merecia estar no mesmo pódio que eu", disse Lee Jung-su à agência de notícias Yonhap, após ganhar o ouro. "Eu estava tão enfurecido que foi difícil me segurar durante a cerimônia de vitória."

"Ohno não perdeu a compostura e não respondeu ao ataque. Ele estava aliviado por superar a contagem de medalhas de Heiden e empatar com Blair em seu primeiro evento. Ohno poderia passar o resto dos jogos focado em suas corridas e não na história.

"Ele sente a importância disso para sua vida e sua carreira", disse seu pai, Yuki Ohno. "Ele quer terminar limpo, sem arrependimentos. A paixão profunda pelas Olimpíadas e seu significado o motivam. Ele precisa mergulhar nisso."

"Mais tarde, Ohno insistiu que não se importava com recordes, seu lugar na história ou seu status como o atleta de inverno olímpico "mais decorado" dos EUA. Os repórteres continuaram a perguntar as mesmas perguntas, diferentes versões sobre o significado dessa e de suas sete medalhas.

"Mais uma noite histórica", disse Ohno, sorrindo, sozinho no topo da contagem de medalhas americanas de atletas olímpicos de inverno.

Patinação de Velocidade (M) - 1500m
The New York Times
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